ENTREVISTAS
Julianna Barwick
Com que voz
· 03 Set 2009 · 22:23 ·
© Vera Marmelo
Não será por muito mais tempo, mas Julianna Barwick é ainda um dos segredos mais bem guardados de Nova Iorque, fértil em segredos bem guardados. Dizemos que o seu trabalho devia ser visto com atenção por Brian Eno ou Steve Reich e fica quase envergonhada, mas percebe-se que segura um forte orgulho no trabalho que tem vindo a fazer. O seu argumento é a sua voz, enfiada e moldada em pedais - através de loops - e em efeitos até que possa nascer magia. E nasce. Sanguine é um documento belíssimo alimentado pelas explorações vocais de Julianna Barwick - já analisado nesta casa - que mereceu elogios de gente insuspeita como Diplo.

Os elogios e reconhecimento já não lhe sobram; falta apenas que se descubra mais Julianna Barwick, nem que para isso seja necessário derrubar-se a barreira que exige canções com refrão e texto - algo que não se faz por estas paragens. Agora há novo lançamento, o EP Florine, que abre um pouco mais o jogo mas não faz desaparecer um certo mistério. É um mundo pequeno, mas recompensador, este que Julianna Barwick tem vindo a alimentar a partir do seu quarto. O intimismo, esse, aumenta à medida que a norte americana vai desvendando peças do seu puzzle. E esta entrevista só ajuda a entrar mais profundamente na sua música e no seu cosmos que está algures entre o território dos sonhos e a realidade mais crua.
Comecemos pelo principio. Como é que escolheste a voz como instrumento principal para as tuas canções? Quando é que te apercebeste que poderias fazer canções utilizando apenas para isso a tua voz?

Eu sempre adorei cantar – entrava sempre em concursos de talento quando era miúda, etc. A forma como comecei a fazer a música da forma que faço hoje foi quando estava a inventar umas coisas com um pedal de guitarra que tinha uma opção de fazer loops e fez um monte de loops com camadas e camadas de vozes – todas as canções de Sanguine foram feitas com ele. Adicionei alguma instrumentação aqui e ali mas eu simplesmente adoro o som de vozes em camadas com efeitos. Hoje em dia uso uma máquina de loops bem mais complexa.

Mas tiveste mesmo aulas de canto quando eras jovem, ou alguma instrução musical de todo?

Tive aulas de canto durante a escola secundária, e cantava num coro de ópera quando era adolescente. Também estudei piano e clarinete quando era miúda.

Quais são as vozes que inspiram o teu trabalho, se é que existem algumas? Ouves todo o tipo de música ou és mais selectiva no que pões aos ouvidos?

Eu adoro o som de um coro de rapazes. Aqueles tons altos, dolorosamente bonitos. Panda Bear, Björk, e o Thom Yorke são os meus cantores pop favoritos, se é que lhes podes chamar isso. Ouço todo o tipo de música. Adoro R&B popular e foleiro, bandas como os Animal Collective, Black Dice, e Growing, Grouper, Bill Callahan, música de dança, até alguma country, jazz… todos os tipos de música.


Voltando ao teu trabalho, como foi gravar Sanguine? Foi um trabalho tão visceral e intimo quando o titulo indica?

Foi muito visceral e intimo – foi basicamente eu e o pedal de guitarra e um gravador de cassetes quatro pistas, todas as faixas foram gravadas na minha cama. Muito fácil, divertido. Foi tudo feito no local e na hora, espontâneo.

Tendo em conta até as condições em que o disco foi gravado – na cama – dirias que fazes música solitária para pessoas solitárias ou achas que a tua música tem um lado celebratório acessível a todas as pessoas?

Essa é uma questão interessante. Eu acho que a minha música é de certa forma acessível para toda a gente porque a maior parte das pessoas pode perceber ou gostar de música coral, e essa é de certa forma a base da minha música. Percebo que como um todo possa não ser apelativa para toda a gente por causa da sua estrutura, sei que muitas canções estão a implorar-me por canções a sério com palavras. Mas eu limito-me a fazer aquilo que me chega naturalmente e se alguém gosta de ouvir o meu trabalho, sozinhos ou com amigos, é um sentimento muito bom para mim.

Este teu novo disco, o EP Florine, tem mais instrumentos do que nunca. Sentiste que tinhas de fazer uma jogada destas, que era tempo de andar em frente e mudar alguma coisa no teu trabalho?

Não necessariamente. Mas sim, senti que era tempo de explorar um pouco mais essa área. Não me apetece abandonar as gravações só com vozes que fiz e incorporar instrumentação no futuro significa que estou a progredir como músico – apenas estou a tentar coisas diferentes. Não ficaria nada surpreendida se fizesse outro disco apenas com vozes.

Estive em Brooklyn não há muito tempo e acho que a tua música não podia ser mais contrastante em relação à cidade onde vives. A tua música é uma forma de fugir à realidade que te rodeia? Porque tem aquela aura etérea…

Sim, não me insiro em lado nenhum musicalmente, a minha música não é de certeza “hip” ou “rockante” ou nada disso – pelo menos para mim. Apenas quero fazer o que faço, e sinto-me confortável e até um pouco confusa que a minha música não pertença a nenhum lugar específico. É por isso que normalmente tenho dificuldade em descrever a minha música – é literalmente apenas sentimento, e o que soa bonito para mim…

É curioso, mas imagino-te a trabalhar com o Steve Reich ou o Brian Eno. Dirias que não a algum deles?

Claro que não. São ambos músicos incríveis e visionários e sentir-me-ia muito humilde apenas de ser considerada para trabalhar com eles.


Quando te apresentas ao vivo, sentes-te confortável utilizando apenas a tua voz? Como é que te prepares para os concertos, para tocar ao vivo?

Eu sinto-me muito confortável a cantar muito, e a actuar ao vivo. Tenho um medo de palco próximo do zero o que é um bocado estranho. Estou sempre muito relaxada. Não faço nada de muito especial para me preparar – às vezes tomo um chá quente ou algo assim. Adoro tocar e espero sempre ansiosamente isso, por isso é sempre muito bom.

Uma das canções do teu novo EP chama-se “Anjos”. Presumo que saibas que isso significa anjos em português. E assumo também que isso tenha alguma coisa a ver com a tua pequena digressão em Portugal. Estou certo?

Absolutamente. Foi claramente um acenar ao tempo que passei em Lisboa em 2007 e às pessoas de lá. Nunca esquecerei essa viajem – foi muito, muito especial para mim e tenho amigos para toda a vida que conheci durante essa viajem. Foi o sitio mais bonito, caloroso e romântica em que alguma vez estive e as pessoas eram fantásticas. Chorei durante um dia inteiro quando me vim embora.

Recentemente o Diplo disse no seu twitter que a tua música soava como carebears a fazerem amor. O que é que achas deste descrição? Fazes ideia de como é que ele chegou à tua música?

adoro essa descrição. É tão hilariante, tão… verdadeira. Até a minha mãe se riu como uma perdida quando lhe contei isso… e concordou. É uma resposta tão criativa. Eu gostava muito dos carebears enquanto criança, por isso talvez, subconscientemente, eu faça música na minha cabeça em que carebears fazem amor. [risos] O Diplo e eu fomos ambos convidados para fazer a remix da “Reckoner” dos Radiohead – ele ouviu a minha remix dessa forma e foi assim que ele descobriu o meu trabalho.

A Time Out de Nova Iorque também disse que a tua música era como um filme de terror com temática cristã. Está tudo correcto nesta afirmação? Gostas de filmes de terror, és uma pessoa religiosa?

Adoro essa descrição. Mas para ser sincera, não gosto nem consigo ver filmes de terror. É demasiado para mim. Já desmaiei com filmes com muita intensidade, violência, gore. O The Shining é fantástico, no entanto. Não sou muito religiosa hoje em dia mas ainda tenho sentimentos profundos que estão amarrados à forma como fui criada e a todo o tempo que passei na igreja.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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