ENTREVISTAS
Rui Reininho
Telegrafia pop
· 01 Jul 2009 · 00:55 ·
A conversa é curta e algo telegráfica, mas está cá tudo. Rui Reininho é daqueles que em poucas palavras diz muita coisa. Diz sobre a música portuguesa, diz sobre especiarias, sobre este momento específico da sua carreira e, inevitavelmente, sobre o seu primeiro disco a solo, Companhia das Índias. Após tantos anos dedicados aos GNR, Rui Reininho quis fazer um disco a solo que é tudo menos solitário: Alexandre Soares, Slimmy, Rodrigo Leão, New Max (dos Expensive Soul), Legendary Tiger Man, Margarida Pinto (Coldfinger) e João Pedro Coimbra (Mesa) são os cúmplices que contribuem para um disco que é tão irrequieto como o próprio. Em conversa digna de twitter, Rui Reininho aponta flechas apaixonadas em direcção aos seus amores: a música, a vida, a cidade do Porto.
Porque é que demorou tanto tempo este primeiro disco a solo? Foi preciso reunir muita coragem ou foi só uma questão de oportunidade?

Em termos absolutos, um ano não é muito para executar uma ideia fixa como a Companhia das Índias. Foi preciso reunir a sintonia de pessoas com quem criar.

Li algures que este disco é o seu retrato. É mesmo? Foi complicado pintá-lo?

Li algures que é um disco um bocadinho desequilibrado, como eu…

Este disco nunca poderia ter a assinatura dos GNR? É demasiado seu para que isso pudesse acontecer?

Sim, desde o conceito, à escolha dos temas, capa e cor, foi orgulhosamente só.


Encontrar as pessoas certas para este disco, o A Companhia das Índias foi fácil? Não corria o risco de tornar este disco pouco seu?

A partir de um anterior acto com o Armando Teixeira, mesmo as coisas mais complicadas se tornaram óbvias.

Quais foram as Descobertas desta Companhia das Índias? O que é que descobriu neste processo que ainda não sabia?

Já sabia que o processo de aprendizagem não deve parar em vida. Redescobri o prazer de ouvir várias vozes em simultâneo, sem pressões nem encomendas.

Quanta liberdade foi dada aos convidados para chegarem a este Companhia das Índias? Como é que foi o processo de escrita deste álbum?

Creio que os (e a) convivas chegaram como a uma festa, com um presentinho que acharam adequado. Houve entregar por e-mail, presenciais e telegramas.


Como é que o “Bem Bom” acaba por aparecer neste disco? Acha que esta canção tinha matéria-prima para algo mais e quis-lhe dar nova roupagem ou, antes pelo, contrário, é uma homenagem a uma canção que realmente gosta de verdade?

O “Bem Bom” resulta de um ensaio em que se glosava um género e se tentou impregná-lo de outros; a simplicidade dos temas é por vezes a sua maior complexidade.

Companhia das Índias, o título deste disco, tem algum significado especial que queira partilhar neste momento? Acha que resume na perfeição esta viagem?

É uma excelente companhia, quase uma trupe. Ainda hoje – de manhã – ouvi o disco todo, à antiga. Pena não ser vinil…

Qual é a especiaria mais presente neste disco? Talvez a pimenta?

Na língua, o incenso no ar e o chá, a arrefecer enquanto espero por alguém. E os vinhos, claros, de todas as cores e lugares. Mais o ópio do povo.

O João Gobern disse que este é um “murro no estômago” que é, afinal, um gesto do seu carinho tímido. Em que é que ficamos? Ou é tudo a mesma coisa?

As massagens são por vezes um pouquinho violentas, quando não excessivas. Não deixam de ser agradáveis.


Gostou desta experiência o suficiente para a voltar a repetir no futuro?

O futuro é irrepetível, como o passado. Só existe o hoje, porventura um amanhã.

Nas mãos de quem deve ser deixado o pop-rock português? Acha que “ele” anda a ser bem tratado nos dias que correm?

É um género que se conquista; a única diferença entre as ligeiras e as pesadas é que as últimas vivem-se e pagam-se, sem hipocrisias e sorrisinhos simpatiquecos. Deve ser como no amor.

Acha que a música portuguesa precisa de quotas para se impor? Acha que deve ou pode ser cantada em português? Este tipo de questões interessam-lhe? Acha que são o cerne da questão?

Não se gosta de música às postas nem às meias doses. Porque não também uma literatura portuguesa em inglês? Cherne, that’s da question.

Não resisto a esta pergunta, para fechar, como é que analisa o estado da cidade do Porto neste momento, o acordar da baixa, a cultura ou a falta dela? Pensa apoiar algum dos candidatos ainda que de forma oficiosa?

Sou um exilado da baixa desde que a capital da cultura se tem vindo a descaracterizar e desertificar; sem gente, os “projectos” não passam disso mesmo, por muito modernaços que aparentem ser.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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