ENTREVISTAS
Tortoise
Tartaruga Genial
· 22 Jun 2009 · 11:42 ·
Em 1996, Millions Now Living Will Never Die fazia dos Tortoise a banda mais importante do universo. Tal disco não podia ter sido mais elucidativo e generoso nas guias de marcha que concedeu ao filão formado por guitarra, baixo e bateria (à deriva desde a extinção dos Nirvana). Do chão ao tecto, o indie era obrigado a reinventar-se depois de trincar um fruto como “Djed”, o instrumental que, durante quase 21 minutos, encadeava linguagens sem nunca resvalar para a pretensão que deu mau nome ao rock progressivo dos anos 70. Além disso, o título premonitório do álbum declarava longa vida para todas as ovas largadas pela tartaruga genial: além do kraut e do minimalismo que dominavam “Djed”, também o dub, o jazz e o rock desvinculado (pós-rock) tinham encontro marcado nos discos de Tortoise.

Não há volta a dar-lhe: álbuns como Millions Now Living Will Never Die formam dinastias. Coincidentemente, os Tortoise representam muito mais do que uma mera banda. Podemos perspectivá-los como o colectivo-pulmão do selo Thrill Jockey; a unidade de inteligência que mais agita a música improvisada de Chicago; a sucessão dos Slint assegurada através da expansão estética (a guitarra de David Pajo efectuou a transmissão de testemunho). Reparando no currículo recente dos polivalentes que compõem os Tortoise, é também inevitável dar conta do pico de forma vivido por John McEntire, como imparável produtor esclarecido, e no fôlego que oferece aos Sea and Cake (banda em puro estado de graça).

Depois de cinco anos decorridos desde o morninho It’s All Around You, e quando alguns rumores já os davam como desaparecidos, Beacons of Ancestorship vem reclamar jogo para os Tortoise. O sexto álbum é uma besta de dinâmica, que cumpre o seu dever como disco de ressurreição. A fibra e a determinação encontram-se por toda a parte: na Londres periférica que estoira em “Northern Something” e nos sintetizadores acentuadamente prog. Segundo estes Tortoise, o hostil é o novo amigável. Doug McCombs, co-fundador e peça vital, falou com o Bodyspace nos dias que antecederam a chegada de Beacons of Ancestorship.
Apesar dos cinco anos, que separaram os dois últimos discos de Tortoise, suponho que tenham mantido a rotina enquanto banda. Foi muito diferente o “aquecimento” que antecedeu a gravação deste novo disco?

Não. Nem por isso. É comum o público achar que nos afastamos durante longos períodos, depois de lançarmos os álbuns, mas trabalhamos como banda permanentemente. Durante estes cinco anos fizemos imensas digressões, colaborámos em projectos paralelos com outras pessoas e dedicámo-nos também a este álbum. Muito naturalmente, o novo álbum tomou este tempo até ficar acabado.

E em que altura chegaram à noção final do álbum?

Na verdade, isso só aconteceu em Janeiro ou Fevereiro deste ano. Como disse, entregámo-nos ao disco durante muito tempo. O processo obrigou-nos a descartar algumas ideias, reunir outras tantas e reconstruir ideias acumuladas. Ou seja, mexer com as coisas até alcançar uma ideia mais definida, e isso aconteceu por volta de Janeiro. Entretanto, o tempo disponível terminou, porque alguns de nós tínhamos outros compromissos a partir de Janeiro. Decidimos marcar mais uma semana de estúdio para Fevereiro ou Março, e assim foi: o disco surgiu ali mesmo, no fim.

Essa última sessão ainda envolveu a colagem de diferentes partes de certas músicas? Presumo que um tema como “High Class Slim Came Floatin’ In” obrigasse a uma colagem.

Diria que foi mais uma questão de edição, nessa altura. A secção do meio desse tema sofreu uma edição drástica: retirámos muitos instrumentos, de modo a torná-la mais minimalista e esparsa. Coisas assim. Quando penso na “Gigantes”, creio que nem sabíamos o que fazer com ela até essa última semana. Só aí tudo ganhou corpo.

Quer isso dizer que as músicas são geralmente mais longas antes de obterem a forma que conhecem no disco?

Não necessariamente, devo dizer.

Quando escolheram “Prepare Your Coffin” como música de apresentação, depois de “High Class Slim Came Floatin’ In” ter saído na compilação do Record Store Day, achas que era crucial escolher uma faixa que quase parece “um soco no estômago”? Ou poderia ter sido qualquer outra?

Diria que essa é a música em que mais nos aproximámos de um tema rock tradicional, com verso, refrão e uma ponte. Quando falámos com um amigo nosso, que desejava fazer um vídeo, ele escolheu essa música.


Esse vídeo parece-me incrível na sincronização que estabelece entre a arquitectura e as diferentes partes da música.

Sim, sei. Ficou brutal. A ideia não era tanto fazer disso um single, mas sim satisfazer o pedido do nosso amigo que escolheu a “Prepare Your Coffin” para o vídeo.

À medida que o processo avançou, sentiste, em alguma altura, que este viria a ser o disco mais pesado de Tortoise?

Não fizemos disso um objectivo. Parece-me que, ao longo dos anos, evoluímos como banda ao vivo. Chegámos agora ao ponto de nos sentirmos mais poderosos do que nunca, em palco. Acredito que o disco também reflicta isso. Mesmo que nenhuma destas canções tenha sido tocada ao vivo, tal e qual como se encontra no disco, muitas delas sofreram o nosso processo habitual: acumulam peças e, com o tempo, adequam-se ao molde que pretendemos. Mais do que acontecia em álbuns anteriores, o Beacons of Ancestorship visa representar a nossa actualidade enquanto banda ao vivo. Fazia, desta vez, sentido tentarmos algo mais directo.

Algumas das faixas no Beacons of Ancestorship quase soam a êxitos de produtor perfeitamente dançáveis. Acreditas que a vossa experiência nas remisturas e algum do trabalho realizado no Standards terão contribuído para que estes momentos altamente produzidos dessem melhor resultado?

Não sei se as pessoas alguma vez consideraram dançar ao som dos nossos discos. (risos) Escutamos diferentes estilos de música de dança e é óbvio que isso nos influencia. Nunca sentimos que as pessoas procurassem nos Tortoise uma banda que produz música exclusivamente dançável. Ainda assim, é evidente a vontade de incorporar um elemento rítmico na nossa música. Podíamos recuar até aos discos da Motown como influência. A aproximação pode até não ser clara, numa primeira escuta, mas inspira-nos de igual forma. A inspiração nem sempre parte de música estritamente cerebral. Muitas vezes basta ser música de celebração.

Ainda assim, a “Northern Something” tem um daqueles inícios bombásticos que não pode falhar na pista de dança.

Sim, concordo.

Achas que a digressão com Tom Zé vos obrigou a aprofundar um pouco mais o conhecimento da música brasileira? Sinto curiosidade pela forma como a música brasileira se infiltrou na palete de Tortoise.

O nosso interesse por música brasileira surgiu muito antes de tocarmos com Tom Zé. Julgo que foi isso mesmo que nos levou até essa oportunidade: através dos nossos discos, as pessoas que lançam a música de Tom Zé nos Estados Unidos eram quase capazes de entender que o adorávamos. Quando surgiu a necessidade de encontrar uma banda para tocar com Tom Zé nos Estados Unidos, eles convidaram-nos.

Antes disso, também já tinham gravado aquela versão de Milton Nascimento no disco com Bonnie “Prince” Billy.

Sim, exacto. Era enorme a influência de Tom Zé no nosso som, assim como de muita outra música brasileira. O convite parecia bizarro, mas tudo resultou impecavelmente.

Sei que Tom Zé foi recebido quase como um herói, no vosso concerto em Nova Iorque.

Sim, foi fantástico.

Quando optam por um título em português para um dos vossos temas, isso denuncia necessariamente a influência da música brasileira? Ou acontece por outros motivos que não esse?

Usamos esses títulos porque as canções nos parecem um pouco brasileiras ou algo do género. É outra das influências. Os nossos títulos servem normalmente para transmitir algo que nos interessa em determinada música.


Um título em português não assinala então a utilização de ritmos brasileiros ou algo do género?

Não necessariamente. Apenas a inspiração.

Podes revelar um pouco mais acerca da série de discos de 5 polegadas que irá ser lançada após o novo disco. Os 5 polegadas contarão com temas mais espontâneos do que os incluídos no álbum?

Ainda não começámos a trabalhar nisso, daí que não saibamos que música fará parte dos 5 polegadas. Tencionamos desenvolver isso durante o Verão, mas é vaga a ideia do que poderá resultar daí. A nossa intenção é precisamente essa: tentar que soem mais espontâneas. O método será diferente, na medida em que nos obrigará a conceptualizar e executar algo num período de tempo mais curto.

Cheguei a pensar que incluiriam nesses 5 polegadas as músicas que servem habitualmente como bónus nas edições japonesas dos vossos discos.

A inspiração aqui parte do tipo de música que foi compilada na caixa A Lazarus Taxon. Grande parte das músicas incluídas nessa caixa absorveram muito menos tempo do que as integradas nos álbuns. Isso aplica-se ao plano que temos estabelecido para os 5 polegadas: estimular as capacidades que utilizamos quando o tempo de gravação é mais limitado.

Agora que o tempo permite uma avaliação, a iniciativa que levou a essa caixa obteve o sucesso desejado? A resposta foi geralmente positiva?

Sim, definitivamente. Em grande parte, o feedback foi excelente, porque muitas pessoas ainda não tinham escutado aquelas músicas. E, se o fizeram, foram obrigados a pagar muito por isso. Queríamos fazer com que essa música chegasse às pessoas por um preço razoável, eliminando assim toda aquela mentalidade do coleccionador de discos. Não queremos que um dos nossos 7 polegadas custe 75 dólares ou que um 12 polegadas custe 150 dólares. A nossa música existe para que as pessoas possam comprá-la.

Sentes que a banda se encontra preparada para revisitar todo o reportório no Festival da Pitchfork, em que o alinhamento será votado pelo público? Tocarão apenas essas escolhas ou também algumas de Beacons of Ancestorship?

Ainda não sei ao certo. O mais provável é tocarmos as escolhas e, se sobrar tempo, algumas músicas novas. É óbvio que existem temas que não conseguiremos tocar. Seremos obrigados a excluí-los caso surjam na lista. Logo veremos. Eu ainda não vi a lista de escolhas.

Achei que essa votação prévia até pouparia os membros do público de gritar para o palco aqueles títulos praticamente impronunciáveis.

(risos) Pois…

Como aconteceu aquele encontro com Lee Perry? Reparei numa foto em que o Upsetter surgia ao vosso lado.

Foi bizarro. Fomos convidados para tocar no Meltdown, em que o Lee Perry era o curador do festival. Acabámos por tocar em conjunto e ele fez uns toasts ao som da nossa música, o que foi completamente bizarro. O Mad Professor encarregou-se da mistura.

Isso chegará a ser lançado algum dia?

Não. Nem sequer sei se foi gravado. Foi uma enorme honra conhecê-lo. Toda a situação foi hilariante.

Recordas-te de quais foram os temas que mereceram o toast de Lee Perry?

Tenho a certeza de que um foi “Tin Cans & Twine”, do nosso primeiro álbum, e o outro não sei ao certo.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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