ENTREVISTAS
Nadja
Baptismo pela mão do carrasco
· 02 Fev 2009 · 00:40 ·
Mergulhar no imenso universo musical de Aidan Baker é como voltar a ser baptizado. Acumulam-se trips e experiências com o seguimento atento das manobras do carrasco canadiano (acompanhado em Nadja pela companheira Leah no baixo) e, ao mesmo tempo, confia-se considerável crença à capacidade que tem a guitarra (armada com efeitos megalómanos) de guiar o passageiro cerebral por paisagens humanamente inalcançáveis. Todo o sacrifício é devidamente recompensado pelo anfitrião Aidan Baker. Quem estreia o disfarce Nadja com um tratado de sludge galáctico tão desmedidamente massivo como Touched (reeditado em 2007 na sua forma mais extensa) sobe inevitavelmente a parada no campeonato do metal mais monolítico e perdido na cegueira da repetição. A resposta não tardou muito e o homónimo de Jesu (Justin Broadrick resignado à função de parir o infinito) surgiu dois anos depois, enquanto que os Sunn o))) já haviam reinventado a suspensão negra do acorde algum tempo antes. Nadja não adormeceu no reconhecimento arrecadado por Touched e, desde aí, têm sido várias as demonstrações de vitalidade: em 2005, o tripartido Bliss Torn From Emptiness fazia estalar logo aos 6 minutos um riff capaz de extinguir as restantes espécies do continente australiano; muito recentemente, The Bungled & The Botched planava por complexidade e contrastes, renovando algum do inventário Nadja e satisfazendo outros dos seus recursos de sempre (a distorção gradual de um mesmo ciclo que sopra com pulmões de animal lendário). À parte disso, há que atentar aos CD-R em nome próprio (habitualmente mais livres) e a uma colaboração recente com o conterrâneo Tim Hecker (outro alquimista do ruído a ter em alta conta). Antes de ter semeado tempestade em Lisboa e no Porto, Aidan Baker colheu as perguntas do Bodyspace.
Como estás, Aidan? Tu e a Leah têm passado bem?

Andamos em digressão há quase um mês, por isso estamos um pouco cansados…

Atendendo à tua regularidade na troca de colaboradores, interrogo-me acerca da importância de teres um plano de gravação bem delineado de antemão. Por exemplo, foi fácil trabalhar com o Jakob Thiesen no A Bout de Souffle? Esse disco assentou essencialmente no improviso?

Habitualmente dependo inteiramente do improviso, sim, por isso não estabeleço qualquer plano de gravação.

De que forma o papel do Jakob Thiesen no Desire In Uneasiness contribuiu para que voltasses a colaborar com ele?

O Jakob e eu já tocámos juntos muitas vezes, ao vivo tal como em estúdio, por isso sentimo-nos muito à vontade nessa função. Acontece que nunca tínhamos explorado nada de muito pesado no passado, e decidimos então tentar qualquer coisa mais próxima do som Nadja para ver como resultava…

Ainda acerca da tua regularidade, podias referir que colaborações ou ideias manténs por esta altura “na prateleira” devido a outras prioridades?

É óbvio que existem muitos outros artistas com quem gostaria de colaborar, embora não tenha ainda surgido a oportunidade para tal. E estou sempre a ter novas ideias para canções e composições em que gostaria de me empenhar.

Fiquei com um sorriso estampado no rosto quando soube da tua colaboração com o Tim Hecker. Lembro-me de ter escutado o Norberg, Sweden do Tim Hecker e de ter pensado em como algumas das suas partes quase desafiavam os picos de intensidade obtidos em alguns discos de Nadja. Foi estimulante combinar esforços com ele no Fantasma Parastasie?

Sim, foi um enorme prazer colaborar com ele. Esta foi uma das poucas colaborações que exerci pessoalmente em vez de através da troca de ficheiros na internet, o que torna tudo um pouco mais satisfatório pela sua imediaticidade.


Até que ponto essa abordagem pessoal beneficiou o disco?

Eu creio que fez uma enorme diferença poder debater as coisas pessoalmente e tentar diferentes perspectivas e sons.

Fala-me um pouco mais daquela composição que fizeste para oito instrumentos. Fizeste-a sozinho? Foi uma experiência reveladora? Obrigou-te, de alguma forma, a dedicar um tempo extra a um instrumento que te era estranho até aí?

Essa composição era um pouco estranha. Cada um dos instrumentistas recebeu uma série de instruções escritas e alguns acordes a partir dos quais podiam improvisar, desde que respeitassem o limite sugerido. Esta é a minha forma de composição favorita, porque permite a cada um dos executantes contribuir com algo mais, que não apenas aquilo que leriam numa partitura. Como tal, a composição resultou de uma colaboração colectiva e não de um esforço individual.

Li também qualquer coisa acerca do último concerto de Halloween. Pareceu-me porreiro. Foi mais descontraído do que o habitual? Mascararam-se nessa noite?

Foi um concerto porreiro, sim. Eu e a Leah mascarámo-nos um pouco, mas nenhuma das outras bandas alinhou nisso…

Houve algum motivo especial para reeditar o Bliss Torn From Emptiness em 2008? Quando revisitas material antigo com o propósito de reeditá-lo, nunca te sentes tentado a efectuares algumas pequenas mudanças? Ou, em vez disso, acreditas que tudo pertence tal como foi originalmente gravado?

Não estávamos completamente satisfeitos com a gravação original do Bliss Torn From Emptiness, principalmente com a pista de bateria, por isso decidimos transformá-la um pouco. A maioria das guitarras permaneceram intactas na nova versão. É sempre tentador tentar aperfeiçoamentos ou voltar atrás para pequenas alterações, mas é proibitivo fazer isso com tudo… De outro modo, estaríamos constantemente empenhados em regravar tudo!


Quando escolhes faixas gravadas ao vivo para acompanhar as reedições, procuras material referente à temporada do mesmo álbum? É difícil manter o arquivo de gravações ao vivo sempre pronto para essa busca?

Tentamos manter o arquivo organizado cuidadosamente. Contudo, é difícil obter gravações decentes dos concertos, porque o nosso som tende a ser muito alto. Quanto ao critério de escolha, optamos por temas gravados nessa mesma altura ou próximos da estética e disposição do álbum.

Sei que andaram em digressão com os Grails há algum tempo. Agradou-te a oportunidade de assistires à cena deles todas as noites? Aprecias a forma como infiltram na música aquele aspecto obscuro de uma História remota?

Sim, foi muito porreiro tocar com os Grails. Confessaram-nos depois que nunca se tinham sentido uma banda de “rock de bar” até tocarem connosco. Achei isso muito engraçado.

Sei que, na juventude, gostavas particularmente da forma como o Dave Navarro tocava guitarra. Existem algumas faixas de Jane’s Addiction que te tenham influenciado especialmente? Aprecias a espiritualidade que habitualmente acrescentavam à música?

Gosto particularmente da “Three Days” e da “Then She Did”, que me parecem suficientemente experimentais dentro dos meios da banda. Ambas as músicas soam a Jane’s Addiction, mesmo sendo mais aventureiras em termos de som e estrutura: a “Three Days” com toda aquela carga épica e a “Then She Did”, que quase parece uma música de rock-ambiente.

Que lançamentos tens na calha para 2009?

Temos algumas novidades reservadas para este novo ano, incluindo um disco de covers na The End Records e um DVD com seis horas de música na Beta-Lactam Ring Records. Em princípio, surgirão também versões em vinil do Corrasion e do Thaumogenesis.

Tiveste a oportunidade de ver Osso a abrir o vosso concerto na ZDB? O que achaste?

Sim, vimos Osso e foi muito apreciável. Uma mistura interessante de paisagens e ruído.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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