ENTREVISTAS
Naomi Elizabeth
Não é fácil ser ela
18 Jan 2009 23:27
Naomi Elizabeth avisa no seu myspace para os mais incautos: que não está nem no itunes nem no Beatport. E ainda mais: “aprendam a lidar com isso”, conclui. Na verdade ela não está em lado nenhum. Pelo menos não neste universo. Diz ser uma experiência, espécie de investigação do que está instituído (musical e socialmente) e dos seus efeitos perversos nos indivíduos. Na música, é voz em cima de explorações electrónicas, investidas pop perversas numa seara perigosa. Ninguém sabe muito bem para onde é que isto vai – se calhar, nem a própria Naomi Elizabeth – mas por enquanto a norte-americana vai aterrorizando alguns palcos e algumas mentes mais desprevenidas, vai deixando alguns temas no myspace que mostram aquilo que de é feita. A conversa com Naomi Elizabeth explora todas as faces do seu universo, do seu protesto, da sua luta.
Vives em Los Angeles. Como é viver nessa cidade? É o melhor lugar no mundo para se ser Naomi Elizabeth?

Eu cresci no sul da Califórnia por isso sou viciada no tempo quente. Independentemente do charme que as outras cidades do mundo têm, e independentemente do número de amigos meus que se mudaram para fora para se divertirem noutros sítios, tenho bastante certeza que quero viver na Califórnia para sempre. Quando tenho frio eu desligo-me por completo, é complicado gozar a minha vida quando estou a gelar porque é tão estranho para mim. Dito isto, há muitas coisas em Los Angeles com as quais é impossível lidar. Efectivamente não há transportes públicos aqui, tudo fica a 100 milhas de tudo o resto, e a água de torneira é horrível.

Tanto quanto sei moves-te numa cena bastante experimental localizada onde vives. Pareces ter muitos amigos por aí. O que é que nos podes dizer acerca dessa realidade?

Sinto-me sortuda porque conheci muita gente em Los Angeles que estão com projectos que eu admiro musicalmente. Tenho tendência a aborrecer-me com a falta de criatividade nas escolhas estéticas das pessoas hoje em dia, por isso encontrar alguém quem é guiado por convicções decentes é inspirador. E acho que algumas pessoas aqui respeitam o que eu estou a fazer de igual forma, nada pode bater isto. [risos]

Dizes frequentemente que tens um projecto artístico em mãos. O que é que queres que ele representa?

Quero dar voz à minha frustração sobre o actual estado das coisas de certa forma, levar a consideração tudo aquilo que aconteceu na música até este ponto da história e depois encontrar uma forma de partir daí. Quero usar as convenções da sociedade para comentar a natureza da conformidade, e o papel que desempenha na identidade de uma pessoa. Quero rebelar-me contra a segurança do rock alternativo e do folk rock. Esses géneros tornaram-se velhos, todos os indicadores inerentes tornaram-se estagnantes. Já não significam nada para mim.

Compões e tocas tudo na tua música? De que máquinas e conhecimentos é que te aproveitas? Noutras palavras, como é que acabaste aqui musicalmente falando?

Sim, escrevo todas as minhas canções por mim mesma. Primeiro escrevo uma canção em papel, e depois gravo tudo em casa. Tenho um sistema básico com um sampler externo e um 8 pistas digital. Gosto de música electrónica, fórmulas de compasso standards de dança, loops de drum machine e coisas desse género.


O que é que nos podes contra acerca de Luscious?

Pensava que ia chamar um dos meus discos de “Luscious”, mas acho que mudei de ideias. Era engraçado para mim na altura, mas depois decidi que era demasiado hardcore, até para mim. [risos Agora não sei o que chamar ao disco. Talvez algo inócuo como “My Thoughts”.

Lançaste alguma música até agora?

Não tenho nada lançado em nenhuma editora. Neste momento tenho apenas CD-Rs que vendo através de encomendas por e-mail e nos concertos.

Parece-me que "It's Not Easy (When You're Me)" e "Valentine" contribuíram de certa forma para aumentar a tua presença no mundo da música, abriram-te novas portas. O que é que elas significam para ti?

Bem, eu nunca pensei realmente que precisava de fazer vídeos musicais, mas depois foi-me sugerido por alguém que estava impressionado pelo advento do Youtube. Por isso apercebi-me que estava obrigada a tentar. Não pensava que ia funcionar realmente, por isso quando aquele primeiro vídeo foi feito fiquei estupefacta. Estou a fazer mais um par de vídeos neste momento mas é difícil dizer, já que o meu progresso é relativamente lento

Tiveste a certa altura uma frase de apresentação muito arrojada no teu myspace: "Rendering Other Music Obsolete". Foi necessária muita coragem para admitir isso a ti mesma?

Não consigo dizer se estava a brincar ou não quando a escrevi. Apenas mais um exemplo da minha fúria estranhamente direccionada a nada?

Consegues-me dizer por exemplo três artistas que gostas neste momento e porquê?

Estava a olhar para alguns desenhos do Donald Judd ontem, eram fantásticos! Eram tão anónimos e apáticos. Não consigo descrever o sentimento que retiro do trabalho dele, é como que ele te dissesse que podes ir directamente para o inferno, mas de uma boa forma. Se os edifícios pudessem fazer a sua própria arte, acho que seria algo assim do género. [risos] Talvez a Ikea tenha de certa forma arruinado o trabalho dele actualmente. Gosto dos comics do James Thurber. São tão preciosos, como se o século XX tivesse nascido agora e tudo fosse tão encantador. Também gosto de uma opera chamada Die Soldaten de Zimmermann. Ninguém conseguia perceber como lidar com a Segunda Guerra Mundial por isso deram em doidos. Eu ainda não consigo lidar com ela.


Pareces tirar muita vantagem das ferramentas da internet mas isso também te torna muito mais exposta. Vi defenderes-te a ti própria de alguns comentários menos agradáveis no Youtube há alguns tempos. Sentes-te à vontade quando te expressas desta forma?

Os tipos da internet gostam de me mandar bocas foleiras; sou um alvo fácil porque sou uma mulher que dialoga realmente com eles, o que é raro. [risos] as pessoas que me insultam online muitas vezes parecem idiotas porque eles não sabem se eu estou a brincar ou não. Eu consigo ver quando as pessoas estão a dar voltas à cabeça e a tentar decidir – “Esta rapariga é mesmo estúpida ou ela está a fazer isto propositadamente? Será que ela sabe que parece um cliché?”. Alguns dos comentários que recebi no Youtube eram engraçados, por isso deixei-os. Apaguei todas as tentativas falhadas de comédia.

As tuas canções e até as tuas fotos são muito físicas e lascivas. A tua música é a tua forma e lidar com a tua própria sexualidade?

Provavelmente, não sei. Acho que me sinto tão frustrada coma vida, toda a gente a fazer tentativas miseráveis para serem artísticos e originais, que me leva a dizer, vou ser tão pouco original quanto possível e tomar o caminho mais baixo possível. Vou-me conformar com os piores standards da civilização. Eu sei que digo isto muitas vezes, mas aquele estilo é hilariante para mim. Divirto-me imenso com isso.

Mas és realmente uma pessoa muito sexual ou estás apenas a tornar-te numa personagem como dizes?

Ambos provavelmente. Estou a fazer uma experiência comigo mesma para ver o que acontece quando alguém vive tão directa e visceralmente quanto possível. Não que eu esteja ligada a uma honestidade notória ou algo do género, mas gosto de me observar a mim mesma objectivamente quando estou a sentir emoções e descobrir o que é que elas são.


O que é que tens a dizer a mulheres como a Amy Winehouse, Lily Allen, a Beyoncé e outras artistas femininas do R&B? Como é que avalias a posição da mulher no mundo da música?

O mundo das pessoas na indústria da música confunde-me para além dos limites. Tenho a certeza que todas essas pessoas são reais e que aquilo que elas estão fazer tem valor a um nível tangível, mas mesmo assim não entendo. Não sinto que me consiga relacionar com elas, sinceramente.

Pareces apostar e trabalhar muito nos teus vídeos. O que é que nos podes contra acerca dessa tua faceta artística?

Fazer um vídeo é tão exigente quando o teu orçamento é zero! Independentemente da qualidade do resultado, as pessoas estão tão ocupadas estes dias que mesmo que elas queiram ajudar é quase impossível fazer-se um horário. Fico stressada porque eu sou responsável pela iluminação, câmaras, representação, cabelo, maquilhagem e trazer cerveja para toda a gente. Também faço muita da edição também.

Como é que te preparas para levar as tuas canções para palco? Como é a experiência ao vivo para ti?

Tocar ao vivo é sempre diferente. Por vezes és a banda de abertura e ninguém se importa minimamente. Por vezes parece que és o cabeça de cartaz e espantas toda a gente. Às vezes sinto-me confiante em palco e noutras sinto-me preocupada que a audiência esteja aborrecida.

Achas que os Estados Unidos da América vão ser um sítio melhor para se viver agora que o George Bush vai sair da Casa Branca?

Há tantas coisas estranhas a acontecer neste momento nos Estados unidos, estou muito curiosa com o resultado. Mal posso esperar que eles resolvam a eficiência da indústria automóvel e os problemas de CO2. Infelizmente ainda há muita pesquisa que é preciso ser feita para fazer com que a energia alternativa seja competitiva economicamente. Quando eles fecharem esse espaço será fantástico. É bom saber que ninguém está a tentar empurrar a opção nuclear neste momento. Essa costumava ser a réplica standard para idiotas reaccionários que queriam apoiar o combustível “alternativo”.

Que projectos tens entre mãos neste momento? Quais são os próximos episódios para ti?

Bem, agora estou a fazer novos vídeos, que hei-de materializar no futuro. E tenho muitas novas canções. As letras estão a começar a conter muito mais conteúdo adulto, algumas delas são bastante picantes mas acho que não passam a linha para serem desagradáveis. Quero andar em digressão mais um pouco nesta Primavera e Verão, mas ainda não tenho planos.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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