ENTREVISTAS
Sawako
O flutuante contraste do agridoce
∑ 01 Set 2008 ∑ 08:00 ∑
Como as bolas de sab√£o, que decidiu incluir numa das suas √ļltimas actua√ß√Ķes especiais, Sawako e o som que tece num laptop formam um corpo altamente sujeito ao sopro aleat√≥rio de v√°rios factores, pronto a reagir a fen√≥menos naturais, um interm√©dio de desfecho em aberto que aparenta uma fr√°gil constitui√ß√£o org√Ęnica e que, ao mesmo tempo, amea√ßa evaporar-se, tornando-se, a partir da√≠, na recorda√ß√£o vaga do que antes era informa√ß√£o virtual. Ultimamente, Sawako bifurcou-se em dois √°lbuns bem reveladores do seu dom√≠nio sobre o √Ęnimo e longevidade do drone, do desabrochar pop cada vez mais evidente e do equil√≠brio exigido pelo matrim√≥nio electro-ac√ļstico:Bitter Sweet incide no contraste entre facetas c√Ęndidas e outras mais profundamente enigm√°ticas, enquanto que Hi Bi No Ne, feito a meias com Daisuke Miyatani, mais se parece com o sum√°rio inclusivo de tudo o rol de estilha√ßos mel√≥dicos e sons meigos aglomerados a um dia de estranhas gincanas pop.

Sim, Sawako √© tamb√©m uma das figuras mais sexy que ultimamente encontr√°mos de perna tra√ßada diante de um laptop, caixa de Pandora que, nas suas m√£os, emite resson√Ęncias e drones distribu√≠do por cata-vento, mas a atrac√ß√£o que gera n√£o diminui o valor dos seus √°lbuns na 12k - podendo at√© duplicar o appeal desta m√ļsica perfeitamente adequada a uma sesta do colega de caserna Bruno Silva, ap√≥s uma tarde a colher cerejas. Entre uma passagem por Lisboa, por altura do Festival OFFF, e tudo o que lhe ocupar√° o tempo durante o restante ano, Sawako reservou um espa√ßo em agenda para uma conversa com o Bodyspace.
Como se sucederam as colabora√ß√Ķes com Radiosonde e Ryan Francesconi? O resultado dessas colabora√ß√Ķes limitou-se √†s faixas inclu√≠das no Bitter Sweet ou trabalharam em outras coisas tamb√©m?

Conheci-os antes do meu primeiro √°lbum. Eu conhecia o Takashi Tsuda porque ele trabalhou no ICC e encontrava-o em muitos eventos de arte sonora sucedidos em T√≥quio. Conheci o Hayato Aoki num evento em T√≥quio ‚Äď enquanto eu estava a fazer o meu sound check, ele juntou-se muito espontaneamente, e eu adorei o resultado. Depois de nos encontrarmos diversas vezes em diferentes lugares e ocasi√Ķes, o Takashi Tsuda e o Hayato Aoki participaram juntos pela primeira vez no meu primeiro √°lbum, Yours Gray. Por causa dessa parceria, acabaram por formar os Radiosonde. Desde que nos conhecemos, o guitarrista Hayato Aoki tem participado em todos os meus discos, e os Radiosonde e eu temos colaborado ocasionalmente em grava√ß√Ķes, assim como em algumas performances, principalmente quando estou T√≥quio.

Quanto ao Ryan Francesconi, acho que o conheci no My Space, embora j√° soub√©ssemos um do outro antes disso. Acho que a nossa primeira colabora√ß√£o foi no seu disco de remisturas, Springs, que est√° dispon√≠vel no iTunes assim como na label Odd Shaped Case do pr√≥prio Ryan. Depois convidei-o para participar em duas compila√ß√Ķes: uma delas, a faixa ‚ÄúUto Uto‚ÄĚ, foi originalmente lan√ßada numa compila√ß√£o pela Intikrec in 2007; a outra, a ‚ÄúSuya Suya‚ÄĚ, continua por ser lan√ßada porque a label √© desorganizada. Ent√£o, o Taylor Deupree da 12k queria que o Bitter Sweet fosse mais pop, e decidimos incluir a ‚ÄúUto Uto‚ÄĚ no disco.

Sentes que alguns lugares especiais de Nova Iorque foram particularmente influentes na concepção do Bitter Sweet?

Questão interessante. Até teres perguntado, eu não tinha pensado sequer se alguns lugares especiais de Nova Iorque estariam reflectidos no disco. Mesmo assim, creio que o Bitter Sweet debruça-se sobre uma parte mais profunda da minha mente, e não tanto sobre o meio exterior que me rodeia.

Tenho em ideia que estiveste muito ocupada entre 2006 e 2008 com o desenvolvimento do Bitter Sweet. Que outras coisas te ocuparam o tempo, em termos artísticos, durante esses anos?

Bem‚Ķ Vou-me tentar lembrar de tudo o que fiz entre o Inverno de 2006 e a Primavera de 2008, mas √© prov√°vel que me esque√ßa de qualquer coisa. Arranjei um Visto de artista nos Estados Unidos, para o qual necessitei de mais de 350 p√°ginas de documentos e cartas de mais de 12 pessoas. Lancei o meu terceiro disco, Madoromi, na Anticipate. Terminei o Hi Bi No Ne, disco feito em colabora√ß√£o com Daisuke Miyatani. Elaborei o Ishi ~Listening Stone, um trabalho encomendado pela Networked Music Review ‚Äď um livro sonoro ca√≥tico que funciona online com uma mec√Ęnica de pop-ups. Lancei e organizei a s√©rie Summer Tour com a Antecipate. A minha primeira exposi√ß√£o a solo ‚Äď √°udio + visuais + ambiente de luzes ‚Äď ocorreu no Jap√£o em Maio de 2008. Fiz este ano uma digress√£o europeia que durou dois meses. Alguns festivais e actua√ß√Ķes grandes na Europa e Am√©rica do Norte, nomeadamente no MUTEK. Outras remisturas, compila√ß√Ķes, actua√ß√Ķes ao vivo, confer√™ncias de artistas, etc.. Por isso, devo dizer que o Bitter Sweet n√£o foi o √ļnico projecto em que estive envolvida durante esse per√≠odo.

© Ryan Francesconi

Ao inclu√≠res a tua voz na ‚ÄúA Last Next‚ÄĚ (de Bitter Sweet), satisfizeste um desejo deixado em aberto pela m√ļsica ou foi a voz que chamou a restante composi√ß√£o? Quais s√£o as probabilidades de vires a tentar a tua voz em mais contextos, num futuro pr√≥ximo? At√© que ponto vai a tua confian√ßa quando toca a aplicares a voz na m√ļsica?

Na verdade, a ‚ÄúA Last Next‚ÄĚ funciona como trailer para o Hi Bi No Ne,o meu novo √°lbum em colabora√ß√£o com Daisuke Miyatani. O Bitter Sweet foi lan√ßado em Maio de 2008, e o Hi Bi No Ne em Julho de 2008. S√£o como g√©meos ‚Äď um √© profundo e escuro, o outro √© claro e fofinho. Um baseia-se mais em drones, o outro √© mais composto por pop e can√ß√Ķes.

Não faço ideia do que o futuro me reserva. Desde cedo que as minhas actividades são um pouco esquizofrénicas, superando géneros ou disciplinas. Assim que termino um projecto, desejo sempre fazer algo completamente oposto e que o contrarie de alguma forma. Eu sou tão curiosa acerca de tudo...

Algo que me interessa ultimamente é tentar implementar a J-Pop (pop japonesa) na cena cultural de Nova Iorque, com actividades como o My Space Sound e Sawako and the Bubble Girls. Além disso, sou insaciavelmente curiosa por moda, especialmente após a revista de moda Zoot ter feito uma sessão no Festival OFFF. Mas não sei mesmo se virei a cantar ou não por minha iniciativa.

Eu frequentei um coro escolar desde os 10 anos. Fui tamb√©m vocalista de uma banda punk at√© aos 19. Por isso, o cantar √© muito natural para mim. √Č verdade, eu passava o tempo a cantar em toda a parte quando era jovem. Mas tardo em habituar-me √† ideia de usar a minha voz como material pronto a ser editado de forma objectiva. √Č estranho escutar as grava√ß√Ķes da minha pr√≥pria voz.

Quando agrupaste as remisturas na compila√ß√Ķes Summer Tour Remix Vol.1, quais foram as mais surpreendentes descobertas feitas ao avaliar esse conjunto de abordagens ao teu som?

Muito francamente, eu n√£o fiquei particularmente surpreendida com os resultados do Summer Tour Remix Vol.1. Conhe√ßo os respons√°veis h√° muito tempo, e estava segura de que fariam √≥ptimas faixas. Por isso, foi um pouco como ver as fotografias tiradas por diferentes amigos durante uma visita de estudo, e dizer √Č p√°! Este √© mesmo o estilo dele!, com um sorriso, ou Que cena! Este gajo superou as minhas melhores expectativas!. Est√°vamos no mesmo lugar, mas descobrimos muitos aspectos e coisas diferentes nas fotos.

Em todo o caso, fiquei muito feliz com o resultado do Summer Tour Remix Vol.1. Eu queria fazer uma compilação com faixas de alta qualidade, concebidas por excelentes artistas, e para download gratuito ao abrigo de uma licença Creative Commons. O resultado apresenta imensa diversidade, mas, ao mesmo tempo, um fluxo perfeito entre as faixas, mesmo que eu tenha optado apenas por ordená-las alfabeticamente! Aprecio realmente o trabalho de todos os que participaram.

Posso tamb√©m adiantar que est√° prestes a sair o Summer Tour Remix Vol.2, que re√ļne artistas seleccionados ap√≥s um desafio aberto a todos. √Č √≥bvio que est√£o tamb√©m livres por efeito da licen√ßa Creative Commons. Eu gostei muito de escutar todas as faixas recebidas. Mostram-me como os participantes captam e agarram as paisagens. Cada trabalho tem o seu pr√≥prio ponto de vista e interesse, talvez por partir de ouvidos treinados de forma diferente.

Aproveitaste bem o OFFF em Lisboa? Foi divertido estar em Lisboa durante aqueles três dias? Gostaste da actuação de Feltro com a levitação do balão?

Foi a minha segunda visita a Lisboa e a segunda vez em que vi Feltro com os bal√Ķes. Fiquei entusiasmada com o facto de o Andr√© (Gon√ßalves) ter conseguido levitar os bal√Ķes ainda mais alto. Acho que tamb√©m por causa de ter uma melhor ventoinha no OFFF. Conheci o Andr√© pela primeira vez em Nova Iorque, quando ele manteve uma resid√™ncia no espa√ßo do Phill Niblock.

Eu adoro Lisboa! Gosto tamb√©m da comida em Lisboa, especialmente o peixe e a tarte de ovo. Gosto de passear pelas ruas estreitas sem um mapa e perder-me. Na verdade, existem v√°rias palavras comuns entre o Japon√™s e o Portugu√™s, porque Portugal era um dos tr√™s pa√≠ses com que o Jap√£o mantinha rela√ß√Ķes numa altura em que se isolou de todos os outros pa√≠ses.

O OFFF tem uma vibra√ß√£o muito porreira. √Č um festival grande, mas mant√™m um sentimento de intimidade nos bastidores, sem deixarem de ser organizados. Gostei muito de fazer parte do festival. Aprecio tamb√©m tocar num contexto de design ou arte mais do que num contexto propriamente musical. Al√©m disso, o Oriol, um dos co-directores do OFFF, √© uma pessoa muito divertida. O Ken(neth) Kirschner j√° me tinha contado muitas coisas sobre ele, mas conhec√™-lo pessoalmente superou por completo as minhas expectativas, da melhor forma. No OFFF deste ano, foram convidados seis artistas da 12k, o que fez com que o festival se parecesse com um encontro de fam√≠lia por altura do Natal ou do Ano Novo, no Jap√£o.


Muito do material que tocaste no OFFF baseou-se em vers√Ķes de originais inclu√≠dos no Bitter Sweet, ou j√° tens come√ßado a explorar novas coisas? Os visuais eram da tua inteira responsabilidade?

Oitenta por cento dos visuais eram de facto meus, com alguns outros de Nobuko Hori. Fiz a improvisa√ß√£o visual ‚Äď mistura e processamento ‚Äď com um patch Jitter.

Acho que minha actua√ß√£o no OFFF baseou-se em varia√ß√Ķes de temas inclu√≠dos em discos anteriores, principalmente o Bitter Sweet e o Madoromi. Mas √© poss√≠vel que n√£o tenha sido exactamente isso, porque me perco num estado de profunda concentra√ß√£o enquanto estou a actuar. Geralmente, procuro usar samples de anteriores discos em festivais frequentados por uma grande maioria de pessoas que n√£o me conhecem. Funciona como um espect√°culo de introdu√ß√£o ao mundo de Sawako. Quando toco diante do meu p√ļblico, numa situa√ß√£o intima em Nova Iorque ou isso, √© frequente optar por algo diferente.

Podias falar-me um pouco acerca de como ir√° decorrer a performance Bubble Bubble?

Sim, decorre no Warm Up no Museu P.S.1 (MOMA). O Warm Up √© um dos eventos famosos de Nova Iorque ocorridos ao ar livre. Neste caso, sucede-se no jardim de um museu com uma instala√ß√£o especial de arquitectura. √Č um evento aberto a todo o tipo de pessoas, inclu√≠do crian√ßas, jovens sofisticados e intelectuais com alguma idade ‚Äď n√£o visa apenas o p√ļblico que aprecia a minha m√ļsica. A equa√ß√£o √© inevit√°vel: ver√£o + tarde ao ar livre + participa√ß√£o do p√ļblico + P.S.1 + bolas de sab√£o = a divers√£o. √Č por isso que planeio ter oito mi√ļdas a fazer grandes bolas de sab√£o no jardim enquanto estiver a tocar. Descobri um kit que torna poss√≠vel fazer bolas de sab√£o com o comprimento de um autocarro. Ainda n√£o o experimentei, por isso veremos como ser√°‚Ķ

O que nos reserve o restante ano de 2008 em termos de novidades?

Um caixa especial de discos de sete polegadas, com um revestimento exclusivo e um rádio de cristal. Vai ser lançada pela Winds Measure Recordings de Brooklyn, mas não estará disponível nas lojas. Estou também a trabalhar numa composição de formato 5.1 para a Harvest Works. Estou também a fazer algumas remisturas para Miau Miau, Audio Bulb, entre outros. Além disso, eu e o Ken Kirschner, meu amigo de longa data, vizinho e professor de Inglês, estamos a desenvolver um projecto secreto e especial. Aguarda com alegria.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

Parceiros