ENTREVISTAS
Lucy and the Popsonics
A fábula dos Electropandas
17 Mar 2008 07:00
Eles são dois, são brasileiros e chegam de Brasília. Mas pouco a pouco, começam a furar por vários mercados. Eles que passaram por Portugal há pouco tempo, estão a poucos dias de embarcar numa digressão que os levará por várias cidades norte-americanas, como Chicago, Detroit, Nova Iorque e Boston. São senhores de um rock electro que começa a ganhar adeptos com o avançar do tempo; eles admitem, a aceitação de uma banda como os Cansei de ser Sexy abriu-lhes o caminho - a eles e a outras bandas brasileiras - para a internacionalização. O primeiro disco abanou consideravelmente o Brasil e ameaça abanar com outros zonas e territórios. Eles são Fernanda e Pil Popsonic e fartam-se de convidar o povo para uma dança constante e celebratória. Em entrevista ao Bodyspace, explicam um pouco da sua história.
Como contariam a história da banda para quem não conhece Lucy and the Popsonics?

Fernanda: Somos um casal apaixonado que descobrimos um Reason 2.0 num estúdio qualquer da cidade. Com isso, começamos a brincar de fazer baterias electrónicas e quando descobrimos Stereo Total percebemos que também poderíamos ter uma banda independente de terceiros. Existe um documentário no Brasil sobre isso que fizemos. É uma história nossa com a música electrónica e o rock que começou no início dos anos 00s e se concretizou em 2005 com o LATP.

Pil: Nós somos namorados e gostamos de rock. Conhecemos alguns acordes e facilidades tecnológicas e por isso decidimos inserir mais um passatempo na nossa rotina conjugal.

Como é que se foi construindo o vosso som? Foi uma mistura de influências ou foi um processo muito natural?

Pil: É um processo natural. Quando formamos os Lucy queríamos ter uma sonoridade próxima do que estávamos ouvindo na época. Esse desejo foi influenciado um pouco pelas nossas histórias passadas de experimentação com softwares e musicais também. Hoje estamos com muita mais influências do que quando começamos. Passa-se o tempo e cada um acaba se por se tornar um imenso recipiente de referências pop.

Fernanda: Nós temos influências, claro, mas o nosso som segue um processo bem natural. Fazemos uma bateria electrónica que nos apeteça e colocamos guitarras. Disso produzimos uma letra e vamos construindo a música conforme o que sentimos.


E como é que se dá a oportunidade de gravar o disco de estreia?

Fernanda: Sentimos a necessidade de ter uma obra. Nós nascemos como banda e internet. Tínhamos apenas 2 singles, mas já rolava uma expectativa em cima da gente. Isso meio que foi o estímulo para gravar algo e ter algo concreto e visível aos olhos. O mercado brasileiro também exige demais para os artistas. Todos devem ter um disco para existirem oficialmente, e o mais engraçado disso tudo: não existe este mercado no Brasil. Quer dizer, nós temos um mercado falido, o mainstream com bandas horríveis e um tentando nascer ao lado, mas nada tem se concretizado realmente.

Pil: Essa decisão de se lançar um disco foi uma longa discussão dentro da banda. Nós não consumimos mais a música dentro do CD. Então tínhamos esse dilema, que ainda temos na verdade! [risos] Mas foi numa conjuntura mais complexa que surgiu a oportunidade. Tem o facto da banda se ter destacado muito rápido aqui no Brasil, a questão de um dos nossos selos chamado Pulsorama querer movimentar a cena da nossa cidade e também por termos a oportunidade de trabalhar conjuntamente com a Monstro Discos que é o maior selo independente do Brasil.

O disco que lançaram recentemente tem apenas 8 temas, é um disco curto. Lançaram assim o disco porque por vezes aquilo que é mais rápido e instantâneo tem mais impacto?

Fernanda: Porque eu acredito no produto em si. Às vezes eu prefiro comprar um talento (um chocolate que tem o tamanho de uma palma da mão) que um suflair. Prefiro coisas intensas que aquelas feitas na medida que o mercado propõe como ideal. O próximo disco poderia até ter 30 ou 40 músicas, mas isso vai depender da concepção. Se quisermos fazer isso, assim será! Não temos medo, faremos o que bem entender porque não somos amarrados a ninguém.

Pil: Lançamos assim porque só queríamos as nossas músicas boas. Não queríamos improvisar ou forçar a barra para colocar novos temas só porque o mercado espera isso. E isso não quer dizer que fomos prematuros. O disco tem começo, meio e fim. Não sinto necessidade de nada, além de ouvir mais uma vez. O que considero positivo. Querer mais é melhor que querer que acabe logo, não achas?

Que hipóteses de crescimento oferece a cidade onde vivem?

Fernanda: Pouquíssimas. Brasília já foi a capital do rock no Brasil, nos anos 80 e, por incrível que pareça, nós temos jovens que produzem aqui desde os anos 60, quando a cidade foi inaugurada. Nos anos 90, nos tivemos um pequeno boom de bandas que misturavam vários sons que não dava a cara da cidade, o que fazia com que as pessoas achassem que eram bandas de outras regiões do país. Acho que hoje nos temos uma cena de bandas que estão mais próximas da modernidade da nossa casa. O grande problema é que não existe mais público como há 20 e 10 anos atrás. Eles migraram e ninguém sabe para onde. Esse é o grande desafio da nova geração e que será difícil de superar. Por isso, as bandas de Brasília que são reconhecidas fora da cidade têm que ir para os grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. E poucas hoje fazem isso porque estão acostumadas com o passado, que já foi promissor. No nosso caso, muita gente ainda não acredita que somos daqui. Já ouvi muitos casos de pessoas que achavam que éramos de São Paulo ou Curitiba.

Pil: Brasília tem dois milhões de habitantes. Tem o título de capital do rock brasileiro. Tem muitas, muitas bandas, mas só tem dois lugares para tocar que cabem 300 pessoas em um dia de lotação máxima. É esquisito! Meio sem explicação mesmo. Talvez tenha sido um desinteresse colectivo por esse tipo de entretenimento…

Tanto quanto sei o Brasil tem recebido muito bem o vosso som. Como é que explicam esse boom?

Fernanda: Acho que é porque somos verdadeiros com o que fazemos, temos a atitude de fazer algo que foge do tradicional e damos a cara para bater mesmo. O Boom é algo muito relativo porque nós não temos um grande mercado de rock no Brasil. Trabalhamos para que no futuro algo mude. Estamos no olho do furacão. Sabemos que algo pode acontecer, mas não sabemos quando.

Pil: Nós destacamo-nos porque trabalhamos uma série de coisas que outras bandas do mesmo porte que o nosso nunca nem pensaram e fazer. Isso abriu as primeiras portas, depois rola uma repercussão natural. Daí fazes um bom disco, um bom show, boas fotos, bons vídeos... Um fala para outro e aí se segue.


O que é que pensam dos Cansei de Ser Sexy e do sucesso estrondoso que tiveram nos últimos tempos. Acham que isso pode abrir portas importantes a outras bandas brasileiras?

Fernanda: Eu admiro pessoas que fazem! Eles são assim. As bandas brasileiras têm um negócio de se achar inferior que me incomoda. Confesso, no Brasil não se fazem bandas como em lugares de tradição na Europa e EUA. Mas, parece que eles esperam o Dom Sebastião do rock! E no caso do CSS, Bonde do Role, Sepultura e todas as outras bandas brasileiras que fizeram sucesso internacionalmente não. Acho que esse é um dos aspectos fundamentais. Com relação a isso ser importante para outras bandas brasileiras, é óbvio que esse tipo de sucesso estimula as pessoas a tentarem ao menos mudar sua situação.

Pil: Com certeza o fato do CSS ter alcançado o sucesso favorece a gente. A carreira do CSS é meio curiosa aqui no Brasil. Aqui as pessoas se dividem entre um ódio e amor extremo por eles. E isso reflecte um pouco na gente. Torço para que os CSS e os Bonde cheguem cada vez mais longe, que eles tenham uma carreira duradoura e etc. Facilita para qualquer banda brasileira. Esse tipo de associação funciona para cidades (Madchester, Seattle, Detroit, Berlim) porque não funcionaria para o Brasil?

Actuaram recentemente em Portugal em quatro locais. Como foi esta mini digressão?

Pil: Sensacional! Voltaria agora se possível!

Fernanda: Foi a melhor digressão da minha vida! Conheci pessoas muito bacanas e sensacionais. Viajamos o país inteiro e convivemos muito com, hoje, um dos nossos melhores amigos ever – Carlitos. Os portugueses são uma mistura de pessoas muito educadas, fofas e ao mesmo tempo muito loucas. Vocês são sensacionais! Os shows foram óptimos. As pessoas participam. Isso é importante. É bom sentir a energia do público português. Foi uma oportunidade de intercâmbio também. Conhecemos bandas muito legais, como o The Clits e o Umpletrue.

Esperam que estes concertos tenham significado mais exposição da banda em Portugal? O mercado português é apetecível para vocês?

Pil: É sim. Achei interessante o facto de ver pessoas de todas as idades nos shows. Aqui no Brasil isso não acontece. Normalmente são pessoas mais jovens. O mercado também tem muitas pessoas actuantes. Inúmeras rádios que tocam rock. É fabuloso! Apesar de ser apenas 10 milhões de portugueses, o mercado é bem maior que o brasileiro. O vosso mercado é como o nosso disco. Curto e intenso. [risos]

Fernanda: Acreditamos que sim. Tocamos em lugares muito bacanas e para muitas pessoas. O mercado português nos apetece sim. Nosso sonho é voltar pelo menos uma vez ao ano a Portugal. Amamos!

Para terminar, uma pergunta algo obrigatória. Porque é que se auto-intitulam de Electropandas?

Fernanda: Nós nunca nos auto-intitulamos Electropandas. Esse é apenas o título do disco. Para a capa, o director de arte teve a ideia de nos colocar com máscaras de pandas modernos e inteligentes, mas nós não somos os Electropandas. A ideia era fazer algo meigo e ao mesmo tempo agressivo e electrocologicamente correcto.

Pil: O nome do disco tem alguma a coisa a ver com a gente. É "fábula" porque para nós nem parece verdade. Gravar umas músicas em casa e com isso conseguir até atravessar o atlântico para apresentá-las. É "farsa" porque chegamos até a duvidar se somos capazes disso mesmo, podes estar a entrevistar-me sem saber se fui eu mesmo quem disse tudo. [risos]
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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