ENTREVISTAS
Suarez
Visão de um Estranho
15 Jan 2008 08:00
O título da entrevista não poderia ser outro. Estas são as visões de alguém que se sente um peixe fora de água. Aquele que responde pelo nome de Suarez nasceu em Beja e iniciou o seu percurso como rapper no ano de 1999. Foi membro do colectivo Movimento Clandestino e no ano de 2007 lançou o seu primeiro registo discográfico a solo, Visão de Um Estranho. Neste disco, o rapper explora as visões que tem do país e do estado das coisas, com a responsabilidade social que é característica do hip-hop. Movimentações underground explicadas na primeira pessoa por Suarez numa entrevista repleta de alvos e acusações.
Visão de um Estranho era o disco que trazias na cabeça desde 1999?

Não! Visão de um Estranho é o reflexo do meu crescimento de 1999 até 2007, acho que é uma compilação de sentimentos e vivências que passei ao longo destes últimos anos.

Há um tema do disco onde dizes mais directamente que o país vai de mal a pior. Para quem não ouviu ainda o disco, o que é que para ti está mal em Portugal hoje em dia, em traços gerais?

Portugal é um país lindo, com um clima espectacular, com pessoas inteligentes, interessantes, com uma estabilidade social minimamente equilibrada e com uma cultura invejável, mas infelizmente, como todos os outros países tem muitas deficiências. Um dos maiores problemas é a falta de patriotismo que nós temos e isso reflecte-se nas estruturas empresariais e na “ambição” de querermos ser servos do resto da Europa. O lema é “ deixa para amanhã o que podes fazer hoje”, eu não critico só a forma como o pais é governado (apesar do Estado ter grande percentagem de culpa), mas sim a forma como nós deixamos que ele seja governado. Ninguém quer chatices, o pessoal reclama, reclama e reclama, mas ninguém faz nada por ninguém. Por exemplo, o nosso sistema de ensino é um caos, mas não será (também) por culpa dos nossos professores? No dia em que não existir professores a “plantar” conceitos de greve nas cabeças das nossas crianças, somente porque querem ter um fim-de-semana prolongado na praia, o ensino poderá melhorar. No dia em que fores preso por assaltar ou por espancares uma pessoa, o sistema judicial poderá melhorar, no dia em que as pessoas que estão por detrás dos departamentos das finanças conduzirem o trabalho nas 7 horas diárias (e não nas 7 horas semanais com pausa para café, bolo, cigarro, coçar os tomates, etc…) a produtividade económica do pais poderá melhorar. Não passam de suposições, mas ao fim ao cabo, nem de suposições passam, porque o povo não quer saber! Quantas mais dívidas tivermos melhor será, nós gastamos o nosso dinheiro e o que não é nosso! Enquanto formos egoístas não evoluímos - e atenção eu não digo que os ricos tem de dar aos pobres, porque também não acho correcto essa politica de quem tem mais dá aos de menos, porque se têm mais, a alguma coisa se resume, Trabalho, trabalho e trabalho - agora temos é de pensar assim: “se hoje isto está um caos, não será melhor “arregaçar as mangas” para que amanhã os meus filhos tenham outra qualidade de vida?” É por estes motivos que eu admiro bastante os mais velhos. Como é que eles conseguiram suportar isto tudo e viveram em tempos mais difíceis? Nós não passámos nem passaremos um quarto daquilo que eles já passaram, não haja dúvida que as gerações são muito diferentes. E somos nós a geração que tem tudo na mão, idolatramos o Guevara, decoramos textos de Luther king, somos os activistas do século. Resumindo nascemos com o rei na barriga e sentimo-nos deprimidos porque os saldos na Zara deviam ser de 50% e não de 45%. Em traços gerais é isso o português de Portugal

Presumo que ainda acredites que o hip hop possa servir como protesto neste tipo de temas. Era para isso importante que o hip hop chegasse a mais gente, que os media a divulgassem mais?

Claro que sim! É importantíssimo o Rap estar na “moda”, mas tem de se levar para os media, o rap certo, o pessoal hoje em dia, faz uma uma batida a 90 bpms canta um refrão para as pitas meterem as mãos no ar e já está! O “verdadeiro Rap”, refiro-me ao rap interventivo, (não quer dizer que seja mórbido ou agressivo, tem é de ter conteúdo e mensagem) deve estar no mainstream para que a mensagem chegue ao máximo de pessoas. A comunicação social é fundamental e importantíssima, quando bem utilizada!

Dizes algures no disco que o rap tuga não existe. Queres desenvolver um pouco esta ideia?

Epa… Se queres que te diga não me recordo dessa dica! De certeza que fui eu? [risos] Acho que não tenho nada do género no disco!

Creio não estar enganado. Mudando de conversa, sentes alguma dificuldade por viveres longe das grandes cidades como Lisboa e Porto? Ou acreditas que nos dias que correm isso terá pouca influência no passar da mensagem? És natural de Beja. Sentes-te de alguma forma o representante hip hop do Alentejo ou esta? Sentes de alguma forma uma responsabilidade extra nessa representação?

Sinto, porque tenho menos acesso a determinados assuntos e informações, pois nesses centros existem outras estruturas que permitem que nos avancemos como músicos e pessoas. Por exemplo eu adorava tirar um curso relacionado com produção e na minha zona não tenho nada do género, eu gostava de ir conhecer outros estúdios de gravação para além dos poucos que existem na minha zona eu até gostava de assistir a uma série de espectáculos que não têm outro destino para alem de Lisboa e Porto. Como em todos os ofícios no Alentejo, a música não é excepção, existem muitas dificuldades para conseguires singrar no Alentejo devido ao (pouco) desenvolvimento. Mas por outro lado adoro a serenidade e calma que o meu Alentejo oferece para compor e escrever e como não posso conhecer outros “estúdios” conheço as adegas da zona. [risos] É cultura! Não acho que influencie directamente mas acabo por sair um pouco lesado. Em relação a responsabilidade, não vou ser hipócrita e dizer que não sinto, porque tenho noção que existem poucos a fazer este género de música cá, logo quero representar e mostrar a minha música a todo o país com sucesso, mas também não vivo obcecado com isso. [risos] A música não tem cor, nem região, nem nacionalidade, a música é música!

Ao longo do disco lanças várias criticas ao panorama discográfico português e às escolhas desses mesmos. O que é que Covil tem que as outras não têm?

O facto do panorama discográfico estar corrompido ou até mesmo monopolizado não se resume só as editoras, mas sim na própria gerência que existe dentro dos meios de comunicação, e das casas que vendem os discos. Por exemplo, a tua projecção vai depender daquilo que a comunicação social diz de ti, logo, se tiveres uma editora (obviamente) com “parcelas” na comunicação social terás algum direito e exclusividade de antena. O conteúdo da música cada vez mais é menos importante e é bem visível na maior parte das bandas que aparecem nos media em Portugal. Se tu não tiveres um selo “de qualidade” (editora) não tens critério perante os media e isso prejudica a música, pois são exigências demasiado burocráticas que ultrapassam a essência da produção e composição. Eu não critico quem tem sucesso, eu critico quem destrói os seus ideais para obter sucesso. Ponto dois, a covil não é nenhuma editora, logo nem existe comparações com editoras. A covil é um grupo de manos que se reúnem com o objectivo de fazer música e sempre que existam condições para editar trabalhos, avançamos, mas que fique bem esclarecido que estamos a falar de edições de autor, pois eu não tenho nenhuma estrutura que permita colocar os discos/artistas junto das “estrelas”. Digamos que é “Música profissional, feita por amadores”, eu não tenho qualquer interesse em industrializar nem afirmar o Covil como editora comum, mal a mal chamemos-lhe de Freelancer, o nosso objectivo é dar “asas” a quem não as tem, agora se as pessoas conseguem ou não “voar” não sabemos.

Como vês a evolução da música? Existem cada vez mais formas de promover a música e de lançar discos de forma, digamos, independentes. Há quem avance já com o final dos direitos de autor e do lançamento gratuito de discos – para que os músicos vivam apenas dos concertos. Como é que vês isto tudo?

Vejo que estamos perante uma mudança e temos de nos adaptar consoante as mutações, isto é, amanhã os discos vão só servir para que as pessoas (re) conheçam os teus temas no espectáculo porque já não existe a cena de fazer dinheiro na venda do disco e até mesmo aqueles que só procuravam promoção vem o seu trabalho facilitado, pois todas as pessoas têm acesso aos sons com a pirataria, com a Internet, com os myspaces. Se acho bom ou mau, ainda não sei! Mas que vai “obrigar” os músicos a serem mais fortes ao vivo, vai! Nesse aspecto pode ser positivo, mas por outro lado desmotivante, porque ao fim ao cabo perdes a noção se o pessoal está ou não a aderir ao disco e se por ventura tiveres uma má promoção e até poucos conhecimentos no meio, não consegues avançar para concertos ao vivo e aí podes sofrer bastante com um óptimo disco nas mãos. Isso faz com que te tornes (também) dependente da indústria e dos meios de comunicação, logo, ou te tornas “profissional de mainstream” e ganhas nome ou ficas para sempre com o teu disco e com o teu espectáculo na sala de ensaios. A música está a atravessar uma fase muito perigosa, porque os concertos já não são como antigamente, ou seja, hoje em dia os eventos são mais premeditados e organizados, logo, se o promotor do evento cria condições para ter um Boss Ac, não opta por um Suarez, entendes? As pequenas organizações estão, ou a “morrer”, ou a profissionalizar-se e faz com que diminuam aqueles eventos feitos em cima do joelho que todos se queixavam das más organizações, mas que eram importantíssimos para os novos valores e até para promoveres novos projectos. Terminando esses rituais é o “salve-se quem puder” e aquele que mais conhecimentos tiver irá ter a oportunidade para mostrar o que vale. Digamos, que nesta altura, todas as aparições ao vivo são fulcrais para o futuro duma banda ou músico. É a fase do “ ou comes ou és Comido”. [risos] Já não depende só da qualidade mas sim da forma que geres a cena.

A canção “Obrigado” parece agradecer a muita gente mas muitos desses agradecimentos são claramente irónicos. Tens mais amigos que inimigos?

Sim, tenho mais amigos que inimigos! Aliás até acho que não tenho inimigos [risos], agora sei que existem pessoas que me dificultam a vida (nem quer dizer que me conheçam). O ser humano para adquirir uma determinada coisa necessita de passar por cima de algo até mesmo quando esse algo lhe é indiferente e por vezes nós somos esse algo que está a ser pisado, não guardo rancores e em vez de odiar essas pessoas e/ou indústrias agradeço-lhes porque “aquilo que não me mata, torna me mais forte” e como ainda estou vivo tenho de agradecer às pessoas que me deixam viver e tornam mais forte, é uma questão de educação, a minha mãe sempre me disse.

Talvez seja demasiado cedo para perguntar, mas… já pensas num segundo disco? Pensas muitas vezes no futuro de Suarez?

Sinceramente, sinceramente (acho) sim, aliás já tenho alguns temas mais ou menos arranjados [risos], temas que quero abordar num outro trabalho meu, mas estou a colocar numa caixinha e depois quando achar que é a altura certa vou coscuvilhar isso tudo. Epa…. se penso muitas vezes no futuro? Penso muito no futuro, mas no futuro do Luís, porque por vezes há momentos que nós não conseguimos viver o presente em condições, porque estamos a tentar criar um bom futuro! Mas será que no futuro vou ter essas condições que me prejudicaram o passado (presente)? Irei continuar a procurar um outro futuro mais acolhedor? [risos] Resumindo, na realidade não penso no futuro, mas filosoficamente penso!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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