ENTREVISTAS
Nimai
Porto Sentido
· 25 Out 2007 · 08:00 ·
© Maria João dos Reis
A colaboração começou porque, como tantas outras vezes, dois músicos se identificaram com caminhos a seguir e uniram esforços no sentido de criar algo, acrescentar algo ao universo - neste caso musical. José Alberto Gomes e Luís Teixeira - os cúmplices - são dois músicos que nutrem um gosto pela música electrónica - em particular - e paisagens - no geral.

No myspace do projecto é possível escutar algumas das experiências de um duo que, apesar de ter nascido há pouco tempo, dá já passos decisivos com objectivo de uma maior consolidação. Na hora de dar outras cores à electrónica experimental entram em acção pianos, acordeões, melódicas, vozes e guitarras. Em tempos de apresentação de intenções, Luís Teixeira desenha uma hipótese possível para explicar a existência dos Nimai.
Comecemos pelo principio e directamente. Como e porque é que nascem os Nimai?

Bom, os Nimai nascem sobretudo duma vontade semelhante que eu e o Zé tínhamos em procurar caminhos e sons ligados à electrónica, mas nascem duma maneira muito natural... Eu tinha participado numa peça para o Zé, na qual tocava acordeão e ele electrónica... e a coisa foi começando, ambos já tínhamos vontade de ter um projecto musical mais sério.

Tiveram então projectos anteriores... O que é que nos podes contar acerca disso?

Bom, eu já andava a fazer umas coisas a solo com um pequeno teclado que me tinham emprestado, uma coisa íntima. O Zé é músico então sempre esteve ligado à música, pessoalmente para mim havia uma espécie de fascínio pela electrónica. Anteriormente tínhamos feito um trabalho de vídeo juntos, uma curta-metragem com um amigo nosso, foi nesse trabalho que começamos a criar empatia de trabalho acho eu.

Então os Nimai existem porque há uma convergência de gostos, especificamente na música electrónica...

Sim, ambos estamos bastante ligados a música electrónica, mas não só. Ouvimos muita coisa mesmo, a electrónica é uma parte importante mas somos bastante abertos a nível de gostos. Os Nimai nascem simplesmente porque ambos queríamos tocar, e como foi uma vontade que cresceu ao mesmo tempo e os caminhos que pretendíamos seguir eram idênticos foi inevitável...

E estas faixas que podemos ouvir no myspace… nasceu naturalmente ou foi alvo de discussão? São o real reflexo do que os Nimai queriam ser ou ainda andam a definir caminhos?

Depois de nos termos juntado eu fui para Barcelona um ano, nem tínhamos nome, tínhamos sim que conseguir lidar com o factor distância... Eu compunha partes e enviava ao Zé e vice-versa, discutíamos e íamos acrescentando coisas as músicas e quando eu vinha ao porto gravávamos e decidíamos, mas a coisa sempre foi muito natural. Agora que estou no Porto trabalhamos juntos e experimentamos coisas em tempo real o que é óptimo. Acho que sabemos o que somos, mas também não temos nenhum medo de experimentar seja que som for… Acho que em cada ensaio descobrimos mais um pedacinho de Nimai…

Tanto quanto sei utilizam uma série de instrumentos nesse sentido, de entrar por outros caminhos...

Sim, acho que o resultado das nossas músicas deriva também um pouco de tocarmos vários instrumentos… Claro que sempre que se pega num novo "objecto de som" se abre uma pequena porta que pode dar num beco ou numa avenida...

E os concertos... Como funcionam os concertos? Funcionam na base da improvisação? Isso é uma forma de levar os Nimai para outros caminhos?

Não funcionam muito na base da improvisação, ou seja, temos o esqueleto da musica definido, mas sabemos que dentro daquilo somos mais ou menos livres para fazermos o que quisermos e gostamos de tornar a coisa mais ou menos única… Acho que em nós, essa improvisação é um modo que temos de incutir mais do instante aquilo que tocamos... Mas se disso surgir algo que nos pareça interessante ou bonito, agarramos...

Quantas vezes tocaram até hoje?

Uma vez. [risos]

Na Casa da Música, tanto quanto sei. Como é estrear assim?

Não, a nossa estreia como Nimai foi no Milhões de Festa da Lovers & Lollypops, em Braga. Dois dias depois tocamos na Casa da Música a peça que mencionei de acordeão e electrónica, peça que inicialmente fazia parte do projecto mas que depois decidimos deixar de parte... Pessoalmente, para mim foi único, a última vez que tinha entrado la tinha sido para ver Animal Collective. [risos] Para o Zé foi também uma experiência óptima, mas já tínhamos tocado aquela peça duas vezes na sua apresentação no ano passado.

© Maria João dos Reis

Mas então o primeiro concerto terá sido na Casa da Música... Ou não "assinaram" como Nimai?

No concerto da Casa da Música não assinamos como Nimai até porque a peça surge como trabalho de composição do Zé.

O contexto, tanto quanto sei, era o Novas Músicas da Casa da Música, certo?

Sim, a peça que tocamos chamava-se "Distorção 16bit L2" e fazia parte do programa do festival. O acordeão e a electrónica foram o nosso início, mas ainda que de momento ele esteja encostado no quarto, a ideia é voltar a pegar nele para Nimai…

Falavas há pouco em "bonito" falando da vossa música. a procura da melodia é preocupação vossa esteticamente? Procuram ser catchy? Aquilo que se pode ouvir no myspace é bastante melodioso…

Catchy não direi, mas sim, temos algumas preocupações, o Zé tem noções de composição que eu desconheço mas acho que ambos gostamos de fazer músicas e no final olhar um para o outro e dizer ou pensar "ficou bonito", eu gosto de fazer ou criar sons que ache bonitos, depois vem a parte de resultar bem...

Resultar bem como?

Resultar no resto da música...as vezes, enquanto tocamos no estúdio improvisado no meu quarto descobrimos sons que nos agradam, que depois utilizamos noutras músicas ou simplesmente nos quais nunca mais pegamos...

Voltando agora às novas músicas, o que é que em Portugal acham interessante em termos de electrónica actualmente?

Eu pessoalmente tenho algumas referências mais ligadas as pessoas que conheço e amigos meus, nem que não sejam só electrónica... Fiquei surpreendido para bem com a apresentação do projecto a solo Yellow Land do Rafa dos Território, gosto muito também do trabalho a solo do Guilherme dos Lobster ainda que não seja só electrónica... Mas que há gente a trabalhar sabemos... os Tropa Macaca, os Calhau... Os próprios Território com quem vamos tocar... o Astroboy com quem tocamos em Braga... Pessoalmente é mais essa a electrónica que me interessa ouvir ou de que gosto...

Que achas então destes novos nomes da música periférica portuguesa? Que opinião tens acerca da produção nacional nesse domínio?

A minha opinião não pode ser outra senão positiva, acho que há muita gente, muita gente nova com vontade de tocar e a tocar e fazer boa musica efectivamente...se calhar muitas pérolas preciosas escondidas em quartos e laptops pelo nosso país fora… Eles que venham. Menciono novamente o festival Milhões de Festa em Braga, porque acho que é um exemplo vivo de como a coisa acontece e as pessoas se apoiam... Há muitos projectos com vontade de sair à rua e que talvez ainda não saibam como...

© Maria João dos Reis

E o Porto? Sei que tens uma relação muito próxima com a cidade. Não falo apenas em termos musicais, mas em termos de vida real... Acreditas que as coisas estão melhores do que, por exemplo, antes de ires para Barcelona?

O Porto é para mim uma cidade com imenso potencial, talvez por termos vindo a passar por tempos duros a nível cultural as pessoas se apoiem muito no pouco que acontece… Acho que antes de ir para Barcelona o pessoal estava um pouco desanimado, agora vejo gente com vontade de agitar e mexer com isto à séria! Ainda assim, acho que esta nas nossas mãos...

O Porto pode ser para Portugal uma espécie de Barcelona para Espanha, com as devidas diferenças e à sua escala?

Bom, eu conheço Barcelona melhor do que qualquer outra cidade em Espanha mas ainda que a escala seja diferente, acho que as pessoas se movem com uma energia semelhante. Se houver um concerto numa sala de jantar lá está cheio, se isso acontecer cá o cenário é semelhante...lá só acontece mais porque pode acontecer mais, a vontade cá e lá é a mesma... Mas acho que sim, que o Porto pode na sua escala significar para Portugal aquilo que Barcelona significa para Espanha.

Voltando aos Nimai, e para acabar, estes temas e outros vão aparecer em breve em disco? Nem que seja em CD-R ou numa netlabel? Pretendem marcar território nesses formatos se for necessário ou esperam pelo formato CD?

Sim, partilhamos o interesse da edição, em que formato não sei... Há pessoal interessado na nossa música e nós também estamos interessados, no momento certo acho que isso vai acontecer, mas acho que seja em CD-R ou em CD a coisa vai surgir naturalmente... Falando pelos dois, queremos é tocar e fazer músicas, concertos e edições são coisas que nos ajudam a mostrar aquilo que fazemos aos outros... e isso é bom.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

Parceiros