ENTREVISTAS
Josué `O Salvador´ em busca da Perdição
O caminho até Satã
· 19 Jun 2007 · 08:00 ·
Josué 'O Salvador' em busca da Perdição é o nome que um trio de Coimbra (em tempos um duo) escolheu para dar face a um stoner de raízes de seguras que procura cada vez mais uma maior liberdade. Mudanças de estrutura da banda levaram a mudanças estéticas, consumadas no disco a ser editado em breve pela Scumbag Tapes. Estes Josué 'O Salvador' em busca da Perdição dizem-se liderados por forças maiores e são, com certeza, seguidores de uma certa obscuridade que se revela nos títulos e nas suas explorações. Manuel Pereira, um dos membros do trio saído de Coimbra aceitou responder a algumas perguntas que tiram um pouco mais os Josué 'O Salvador' em busca da Perdição do anonimato. Josué 'O Salvador' em busca da Perdição actuam no último dia do Outfest, no Barreiro. Fazem-no no dia 23 com os CAVEIRA.
Bem, não existe muita informação acerca da banda na internet. O que é que nos podes contar acerca de Josué ‘O Salvador' em busca da Perdição?

Josué ‘O Salvador' em busca da Perdição começou, há alguns meses atrás, por ser um duo e praticava na altura um som mais solar, algo mais próximo do stoner rock. A ideia geral sempre foi a de praticarmos som lento, pesado e psicadélico, mas com a entrada do segundo guitarrista na banda houve uma certa reformulação da sonoridade. Passámos a abranger um leque de influências mais vasto, aliado talvez a uma reforçada vontade de experimentação.

Achas que os temas que gravaram até hoje já reflectem essas duas fases?

As primeiras gravações reflectiam uma fase de transição, já que remontam à altura da entrada do Pita na banda. As gravações mais recentes penso que sim, que conseguem espelhar essa maior versatilidade e algum definir do que será a sonoridade de Josué ‘O Salvador' em busca da Perdição. Ainda assim o futuro passará pelo permanente explorar daquilo que gostamos de ouvir e pretendemos fazer, que pode ir do doom mais primitivo até ao space rock mais suave.

Recentemente lançaram um disco. O que é que nos podes contar acerca dele? É já o concretizar dessas movimentações de território?

Esse lançamento ainda não saiu, deverá estar para breve. Essa possibilidade partiu do contacto que foi estabelecido connosco por parte do Eric da Scumbag Tapes, via myspace, depois de ter ouvido alguns excertos dessas primeiras gravações que falo. Pareceu-nos uma ideia bastante interessante, além de termos gostado muito do que nos pareceu ser a filosofia e a estética da editora e de muitas das bandas editadas por ele até agora. Quanto à segunda pergunta, penso que sim, que reflecte aquilo que pretendemos para este lançamento e penso que musicalmente consegue ser um delírio coeso. Como registo de uma primeira etapa satisfaz-nos.


Já actuaram muito ao vivo até aos dias de hoje? Os concertos serviram para activar ainda mais essa componente de experimentação?

Até hoje demos uns quantos concertos na nossa zona. Os concertos foram provavelmente o factor que mais intensamente despoletou essa complementaridade e também todas as cedências na procura dessa identidade. Neste momento aliam esse processo com o de tentar distender e subverter aquilo que já vamos conhecendo de nós mesmos.

Como é a cidade de Coimbra para vocês? Trata-vos bem, dá-vos muitas oportunidades?

Como cidade alimenta muito do tédio que acaba por ser importante para a nossa vontade de tentar fazer algo. Musicalmente diz-nos muito pouco e as oportunidades são escassas. É uma relação que acaba por ser algo distante.

Então a vossa vontade é explodir por esse país fora, presumo. Parece haver cada vez mais oportunidades para este tipo de projectos em cidades como Braga, Porto e Lisboa. Concordas?

A nossa vontade é continuarmos a tocar a música que gostamos e sempre que possível mostrá-la ao vivo. Pelo que tenho acompanhado, sim, esses são pólos importantes. Não só os mais óbvios Lisboa e Porto, como locais que são mais pequenos mas que acabam por mostrar muito mais vontade de querer fazer. A Coimbra instalada, continua sonolenta à sombra do seu próprio mito.

Já sentiste a cidade mais activa noutros tempos? É normal que uma cidade com tanta gente jovem seja assim tão pouco interessante?

Coimbra teve já uma maior actividade do que hoje. Nem sei se diria maior, mais rica de certeza. Não quero muito estar a falar desse passado, porque não posso dizer que o tenha vivido. Contudo, conheço muitas do que se fez por cá e mantenho essa opinião. Se é natural não sei, não me parece. Se calhar sou eu que sou exigente demais, mas o que é facto é que Coimbra me parece preocupantemente aborrecida e cíclica.

Mudando de assunto, com que tipo de bandas se identificam em Portugal esteticamente e em termos de métodos e forma de estar na música?

A nível de sonoridade será inevitável falar dos Dawnrider, embora pretendamos algo mais expansivo e não tão definido para aquilo que fazemos. Mais ao nível dessa postura e dessa forma de encarar a música posso mencionar, de entre alguns outros, Osso e Frango.

Este fim-de-semana actuam no Outfest. É o sítio ideal para vocês? O que esperam desse concerto?

Uma óptima oportunidade é com certeza, vamos ver as reacções. Esperamos essencialmente mostrar aquilo que andamos a fazer de momento e esperamos divertir-nos.


Os próprios títulos remetem a vossa música para terrenos obscuros digamos. É um imaginário que gostam de alimentar no seio da banda?

Para este lançamento na Scumbag Tapes, In the mood for satan, foi a nossa ideia abraçar mais declaradamente esse imaginário. É uma influência que assumimos, a herança de bandas como Pentagram, Pagan Altar, Witchfinder General, Saint Vitus, Hellhammer entre muitas outras. Mas, também a esse nível, há uma vontade de não ficarmos excessivamente presos a um determinado universo. É tão vasto e tão abrangente aquilo que nos influencia, a nível musical e não só, que seria redutor ficar compartimentado desde já. Se os terrenos obscuros são algo que nos interessa especialmente, digo que sim. Se os títulos ou outros elementos reflectirão sempre de forma tão declarada esse interesse é algo ao qual não poderei responder. Interessa-nos o lado mais negro e destrutivo desde a mente humana ao próprio cosmos. Há várias maneiras de lá chegarmos.

Ia precisamente agora falar de todas aquelas fotos de bandas que estão no vosso myspace. Queres falar-nos daquela malta toda e de quais deles são influências sérias para vocês?

Claro. Todas essas bandas que temos no myspace são de uma ou forma ou de outra uma influência importante para aquilo que fazemos. As nossas influências pessoais são muitas vezes díspares e tanto vão de Kyuss, Electric Wizard ou Sleep, até ao universo do doom mais extremo, com bandas como Thergothon, Necroschizma ou Moss, passando pelo mais obscuro da NWOBHM. é então exactamente a partir dos pontos de contacto comuns que somos capazes de fazer essa gestão entre todos e poder desenvolver e introduzir uma ou outra referência mais pessoal. Esta base comum de que falo passará invariavelmente por bandas como Blue Cheer, Deep Purple, Pink Floyd, Amebix, Pentagram, Saint Vitus, Hawkwind, Guru Guru entre muitas outras das quais somos ávidos ouvintes.

Tenho de te perguntar isto obrigatoriamente. De onde vem esse vosso nome?

O nosso nome foi-nos revelado por uma entidade misteriosa que aqui denominarei de a.h. Josué foi um indivíduo de porte distinto, um exímio caçador de baleias no mar do norte, para quem qualquer desafio era ultrapassável. Depois de ver os Coven ao vivo no Líbano em 1968 deixou de envelhecer e desde então poucos o voltaram a avistar. Josué provém do próprio caldo primitivo e diz-se que é o único ser vivo que sobreviria a três holocaustos nucleares seguidos. É com Josué e para Josué que tocamos.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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