ENTREVISTAS
Pop Dell´Arte
Poptimismo
· 09 Mai 2007 · 08:00 ·
Depois do lançamento de POPlastik e do regresso aos concertos há um novo motivo de grande satisfação para quem assinaria por baixo num documento que afirmasse os Pop Dell'Arte como uma das bandas portuguesas mais importantes de sempre: a edição de um maxi de comemoração dos 20 anos de "Querelle", enquanto não chega o há muito prometido novo disco de originais. Esta é a banda que assinou uma das mais produtivas (mais em qualidade que em quantidade) e interessantes biografias que a música portuguesa conheceu até hoje. João Peste fundou a banda responsável por algumas das melhores canções que este nosso Portugal teve a oportunidade de ouvir. Exemplos? “Querelle”, “Sonhos Pop”, “Janis Pearl”, “Rio Line”, “O Amor É... Um Gajo Estranho! ”, entre outras.

Dias antes do concerto no Lux (que conta com a presença dos Glimmers), na próxima sexta-feira, dia 11, entrevistamos o inconfundível João Peste que abordou não só temas relativos aos Pop Dell'Arte mas também o que os envolveu no passado e o que os envolve no presente. Sem arrependimentos. Falou de escolhas pessoais, de coisas boas e coisas más e de sentimentos visíveis em relação a factos concretos. E do futuro, que com os Pop Dell'Arte é, como se sabe, uma coisa sempre imprevisível.
Como é que surgiu a ideia de lançar POPlastik? Parece-lhe a melhor forma de celebrar 20 anos de carreira?

Não se trata de ser a melhor forma de celebrar 20 anos de carreira – aliás porque nem sequer foi a única –, mas uma das formas de fazer chegar o nosso trabalho (ao longo de 20 anos) a um maior número de pessoas. Houve muita gente, principalmente pessoal mais novo com menos de 20 anos, que só através do P0Plastik ficou a conhecer melhor a obra dos Pop Dell'Arte.

Como se sente a observar as fotografias que se encontram no booklet do disco? O que é que lhe ocorre primeiramente?

Sinceramente não sinto nada de especial. [risos] Talvez uma certa nostalgia – mas isso tem apenas a ver com a minha personalidade... Passados 20 anos está-se forçosamente melhor, no sentido de mais consciente, mais crítico e auto-crítico - podem-se ter perdido algumas coisas, mas ganharam-se muitas mais.

Como foi o desafio de juntar os três novos inéditos aos 17 temas de outros tempos? Como se deu a escolha daquela versão em detrimento de outras?

Não encarámos isso como um desafio... O desafio talvez tenha sido juntar 17 temas de outros tempos aos 3 temas novos.

Nos anos 80, bandas como os Pop Dell'Arte marcaram um momento criativo único na música portuguesa. Como vê esses dias?

Com distanciamento, apesar da inevitável paixão, mas também isso tem a ver com a minha personalidade... sou bué passional.

Hoje, pelas mãos de bandas como os Loosers de Tiago Miranda assiste-se a um novo e excitante movimento da música periférica portuguesa. Tem noção deste novo momento? Acha possível fazerem-se comparações entre os dois momentos?

Acho que esse tipo de movimentos – se o são realmente – nunca são periféricos. Eles são (ou serão) o epicentro da música mais importante que se irá produzir no presente (e no futuro). Claro que é sempre possivel fazer algumas comparações entre momentos diferentes, entre o presente e o passado, etc, mas não me parece que isso seja assim nem muito relevante, nem útil... Todas as épocas e momentos são interessantes e importantes... Sobre o presente sei que há várias coisas fixes a serem feitas: Panda Bear, Klaxons, Cold War Kids, Devendra Banhart, Lisa Germano, LCD Soundsystem, Patrick Wolf, Moodyman-Amp Fiddler, Holy Shit, Cansei de Ser Sexy, Antony, etc... Em Portugal soaram-me bem ou achei interessantes algumas cenas mais ou menos novas como os Old Jerusalem, Abstract Sir Q, Cais de Veludo, Loto, Norton ou mesmo os X-Wife ou os Buraka Som Sistema.


Como se explica a reduzida produtividade dos Pop Dell'Arte em 20 anos de existência? Voltaria a fazer algo de forma diferente se tivesse oportunidade para isso?

Não se explica. Não se explica porque não acho que a nossa produtividade tenha sido assim tão reduzida... Não estamos, nem estivémos nunca preocupados com a quantidade, mas com a qualidade e essa acho que não foi reduzida. Pá, foi o que teve que ser... Claro que se tivesse oportunidade de voltar a fazer algumas coisas agora, evitaria certos erros, mas teria na mesma fundado os Pop Dell'Arte. Nunca me arrependi de o ter feito.

Ultimamente os Pop Dell'Arte andam bastante activos no que diz respeito a concertos. Qual é a sensação de estar de volta aos palcos com esta assiduidade?

[risos] Essa assiduidade também não foi assim tão grande – demos uma média de dois concertos por mês em Portugal em 2006. O país é pequeno e não nos queremos repetir muito... O ideal era começar a tocar mais lá fora. Já tivémos concertos em Londres, Barcelona e Vigo; e alguns convites para tocar em França e Itália. Pode ser que estas colaborações com os Glimmers (o “No Way Back” no CD da Fabric ou o “Querelle” na compilação da Eskimo) nos abram mais algumas portas...

Os Pop Dell'Arte sofreram bastantes alterações de elementos na sua estrutura de banda ao longo dos tempos. Como vê esta formação actual?

Da mesma forma que vi as outras formações. De momento é a que nos/me interessa, mas com o tempo isso poderá obviamente mudar. Nos Pop Dell'Arte nenhuma formação é definitiva. Aliás nos Pop Dell'Arte nada é definitivo.

Sei que se considera um "não-músico". Quais são as implicações desse facto numa banda com outros "músicos"?

Andarmos muitas vezes á cabeçada... [risos] Mas eu também sou um músico, só
que sou um músico não-músico...

Alguns dos músicos que fizeram parte dos Pop Dell'Arte ao longo dos tempos formaram ou integram alguns projectos – alguns deles bastante distintos – com bastante sucesso. Como vê o percurso dos seus ex-colegas de banda?

Com bastante agrado, obviamente. Orgulho-me de ter trabalhado nos Pop Dell'Arte com pessoas com provas dadas em várias áreas musicais, desde o Rafael Toral ao Tiago Miranda passando pelo Sei Miguel, o JP Simões ou o Sapo. Congratulo-me com o êxito de todos eles...

Acredito que o Rock Rendez-Vous seja uma "entidade" especial para si. Tanto quanto sei essa "entidade" está de regresso. Está a par disso? Como é que vê este regresso?

Confesso que não estou a par disso... Huum, acho interessante tentar recuperar o conceito que imperou o projecto Rock Rendez-Vous, mas creio que não será nunca a mesma coisa... Mas como disse, não estou a par do assunto.


Diz-se que se encontra-se de momento a escrever o livro Os últimos dias da vida de Taríntio Gin com as suas memórias pessoais… o que é que nos pode contar acerca disso?

Os Ultimos dias da vida de Taríntio Gin era uma ideia para um livro ou um romance, chamemos-lhe assim. Quanto ao projecto possível de escrita das minhas memórias pessoais seria uma outra coisa... De qualquer modo ambos estão adiados. Para já estou a trabalhar no projecto de um livro para a Objecto Cardíaco que compilará letras minhas para canções (dos Pop Dell'Arte, Acidoxi Bordel ou mesmo de outros projectos) e no qual, se houver espaço, contarei, de um ponto de vista pessoal, a história da minha carreira musical de não-músico...

Os Mão Morta têm já um livro biográfico intitulado Narradores da Decadência, escrito pelo Vítor Junqueira. Se chegar a altura dos Pop Dell'Arte, quem gostaria que escrevesse esse livro e qual é o titulo que gostaria de ver na capa?

Uma vez falou-se no Nuno Galopim – e acho que isso seria interessante, claro!

Os Pop Dell'Arte vão editar em breve um maxi de comemoração dos 20 anos de "Querelle". O que nos pode contar acerca desse lançamento?

A ideia surgiu inicialmente da discoteca Flur – um dos poucos espaços interessantes e onde se pode ainda comprar música de jeito num momento em que a dita crise da indústria discográfica nos deixou quase sem sítios onde comprar/consumir e discutir música em Lisboa. Depois a editora Bloop mostrou-se interessada, os Glimmers também e foi-se para a frente com o projecto. De momento, estamos em ruptura com a Difference, a editora que editou o P0Plastik, pois eles ainda não nos pagaram sequer os direitos de autor de reprodução mecânica – o que devia ter acontecido em Janeiro de 2006 – não nos apresentaram contas e nem sequer se dignaram a assinar um contrato connosco. A situação é totalmente ilegal. De qualquer modo, neste momento estamos envolvidos com a Bloop e posso afirmar que a situação é completamente diferente e transparente. Os contratos foram assinados, as contas que havia a liquidar foram liquidadas e há um bom ambiente de trabalho. O disco inclui o original de “Querelle” e ainda uma remistura dos Glimmers. Os Glimmers actuarão como DJs no Lux após o concerto dos Pop Dell`Arte.

After the Future, o próximo álbum dos Pop Dell'Arte está previsto para ser editado há já alguns anos. Quais são os planos para esse lançamento?

Está marcado para algures depois do futuro...
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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