ENTREVISTAS
Jacinta
Mama’s Got the Blues
· 20 Abr 2007 · 08:00 ·
Se o jazz vocal feminino está agora na moda, Jacinta será sem dúvida uma das maiores responsáveis por este fenómeno. A popularidade alcançada com o seu disco de estreia, o belo Tribute to Bessie Smith, levou a sua voz envolvida em arranjos ajazzados a um público alargado e abriu novas portas a esta música. O segundo álbum, Day dream, produzido pelo saxofonista Greg Osby, apresentou novos elementos resultando num trabalho mais diversificado. Senhora de notáveis recursos e técnica irrepreensível, Jacinta agarra na tradição do jazz injectando-lhe um toque pessoal. Depois de uma longa tournée que percorreu todo o país, a cantora fala-nos - sem grandes improvisos - do seu trajecto, do presente e do futuro.
Quando foi o primeiro momento em que teve consciência que queria ser cantora? A evolução até ao estatuto actual foi trabalhosa?

É muito difícil de precisar esse momento. Sou estudante de musica desde os 4 anos de idade e canto em público desde os 11. O canto sempre fez parte da minha formação como músico e as actuações ao vivo eram sempre um hobby, um extra, uma brincadeira. Aos 13 informei os meus pais que a seguir ao 9º ano pararia de estudar e tornar-me-ia numa cantora de Blues. Nunca aconteceu, claro, continuei sempre os estudos até completar mestrado... Aos 18 apaixonei-me assolapadamente por Ella, Billie e Sarah que ouvi numa colectânea de jazz num disco de Natal. Pela mesma altura ouvia bastante Barbra Streisand – os primeiros discos - e vi a Maria João ao vivo. Creio que foi por aí que comecei a inclinar-me para o canto e para o jazz a sério. A evolução foi demorada, algo custosa e acidentada. Sinto-me a chegar neste momento a um grau de maturidade que me dá algum “conforto” e segurança como cantora profissional de jazz.

O disco Tribute to Bessie Smith teve um grande impacto. Ficou surpreendida com o sucesso do primeiro disco?

Sim! Todos ficaram surpreendidos, até a editora! Se bem que foi na altura ideal em que as cantoras de jazz estavam super na moda.

Será uma pergunta difícil, já que todas elas são amplamente louvadas, mas pessoalmente quem mais gosta de ouvir cantar: Ella Fitzgerald, Billie Holiday ou Sarah Vaughan?

As três têm um encanto especial e características diferentes que torna cada uma delas arrebatadora. A nível técnico podem-se ir buscar pormenores e material de trabalho totalmente distintos a cada uma. Ouvir cada uma delas irá apetecer-me conforme o ambiente e o meu estado pessoal. Mas creio que de um modo geral, e numa audição pessoal, a Sarah acaba por ganhar-me sempre o maior número de vezes. Técnica perfeito, domínio total do instrumento, expressividade e timbre cheios de emoção. Arrebatadora, de cortar o fôlego. A Divina, mesmo!


Como viu a reacção ao seu segundo disco, Day dream? Como percebeu as reacções às adaptações de standards para português?

Creio que a verdadeira reacção a um projecto, a um repertório e explicitamente à interpretação dos clássicos do jazz em português se vê directamente com o público e através do publico real e não só dos três ou quatro conhecedores e críticos de jazz. A tournée de 22 concertos com o programa Day dream que correu Portugal de Norte a Sul no final de 2006, mostra-nos uma reacção de um público efusivo que encheu as salas, que aplaudiu de pé e que cantou connosco alguns refrões. Creio que o balanço é altamente positivo e a nossa aposta nas adaptações em português resultou no que esperávamos: aproximar mais o jazz do público português.

Anteriormente trabalhou com os músicos Laurent Filipe e Greg Osby. Com quem trabalhará no próximo disco?

Terei uma banda fixa à qual espero juntar vários convidados de gabarito internacional. São muitas as propostas, há que escolher os que melhor criarão simbioses musicais connosco.

Como tem observado o surgimento de uma nova geração de novas cantoras de jazz - Joana Machado, Marta Hugon, Angelina…?

Já tive o prazer de ver algumas ao vivo. É óptimo sentir este fogo e esta força e vontade de criar nova música, de pôr a alma toda cá fora através do canto, é algo que me arrepia e que é tão diferente dos intrumentistas. Bem hajam!

Como vê o actual panorama do jazz português e o papel das editoras nacionais como Clean Feed e Tone of a Pitch?

Creio que serão a solução para o jazz. As grandes editoras estão a colapsar. O jazz, como música de minorias, será sempre legado para segundo plano nas grande editoras; creio que é pelas pequenas editoras com vontade de elevar o jazz e com o gosto verdadeiro por esta música que o jazz continuará a chegar a casa de muitos admiradores.

Foi a primeira portuguesa a editar pela prestigiada editora Blue Note. Como analisa esta ligação? Tem planos para continuar ligada a esta editora ou tem outros planos?

É um carimbo de prestigio absoluto, não há duvida! O futuro só aos deuses pertence, por enquanto...


Ultimamente percorreu todo em país numa longa digressão. Prefere actuar em grandes salas (para públicos mais abrangentes) ou em espaços intimistas como pequenos bares (para públicos mais especificados)?

Os dois tipos de espaço têm abordagens diferentes da parte dos músicos e que levam a entregas algo distintas, mas no fim é a música a ser criada no momento e que depende fortemente daquela audiência específica, que chega a todos nós, músicos e publico e nos transforma e nos deixa mais leves e mais altos.

O jazz masculino nunca teve tanta atenção como as vozes femininas, mas ultimamente têm surgido jovens vozes (Peter Cincotti, Jamie Cullum, Michael Bublé) que tem alcançado grande popularidade. Como vê este fenómeno? E que vozes masculinas a entusiasmam?

Gosto bastante desses três meninos – carregam uma tradição forte e predominantemente masculina do jazz vocal. Mas no fundo é a sua grande entrega e alma que os distingue e os torna grandes intérpretes, seja qual o estilo que desenvolvam. Bobby McFerrin esté para além de todos os intérpretes masculinos ou femininos, elevando a música e a improvisação a um nível de inspiração divina ou espiritual, rompendo fronteiras de medos ou de tradições ou de limitações vocais ou interpretativas. Para além dele admiro bastante Jon Hendricks, o grande improvisador bebop que canta com um swing tremendo e sabendo usar o silêncio como ninguém.

Que projectos artísticos ambiciona ainda realizar?

Tantos! Estou super entusiasmada com o meu projecto novo com música do Zeca Afonso. Nunca pensei que conseguíssemos dar-lhe um cunho tão pessoal e jazzístico. É difícil uma abordagem nova à musica deste grande compositor. Creio estarmos a conseguir dar-lhe uma lufada de ar fresco e torná-la apetecível para ouvidos jovens, tal como agradável para os seus grandes admiradores. Vamos ter duas apresentações públicas: dia 21 em Santarém e no dia 24 Abril em Gaia. Depois vamos retirar o projecto para estúdio pois talvez se desenvolva para disco!

Em casa ouve apenas jazz ou ouve também outras músicas? Que discos tem ouvido ultimamente?

Não me sobra muito tempo para outro tipo de música, é verdade, apesar de acontecer às vezes. Tenho ouvido muito Zeca. Cassandra Wilson, Bobby McFerrin e Pat Metheny estão sempre entre os meus favoritos para “relaxar” da música de trabalho. Metheny Meldhau, piano e guitarra, tem sido a minha escolha de eleição nos últimos dois meses. Chego a ouvi-lo quatro vezes seguidas.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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