ENTREVISTAS
Pelican
A leitura invertida do Dossier Pelicano
· 06 Jul 2006 · 08:00 ·
The Fire in Our Throats Will Beckon the Thaw define ao percurso dos Pelican o momento em que é invertida a transitoriedade ao estreito que separa os dois compartimentos da ampulheta que comporta um rock instrumental que, como um ser evolutivo, vai ganhando aptidões em conformidade com os obstáculos. E aí o progresso dos Pelican faria Charles Darwin elaborar uma nova tese que registasse o conjunto de manifestos comportamentais que foram sendo verificados à banda de Chicago à medida que foram solidificando as fundações de uma carreira sem vestígio de mácula até ao presente momento. Épicos de 20 minutos capazes de conferir um tom acastanhado às cuecas de alguma Kranky mais suspeita, um hercúleo calendário de concertos e o disco que, por inversão da marcha cronológica, oferecia as costas a uns tempos pouco amigáveis. Nesse enquadramento, é ver como “Last Day of Winter” devolve ao céu todos os flocos de neve vertidos por uma temporada de clima rigoroso (aquela que viu os Estados Unidos de mira apontada a alvos externos). O melhor mesmo é dar conta de como o último disco de Pelican sobrevive ao progredir do mesmo tempo que desafia. Conviver com ele durante vários meses e reparar que rejuvenesce a cada escuta. O efeito Pelican inverteu o andamento aos ponteiros do relógio de parede do Bodyspace no decorrer de uma entrevista que encontra a banda em fase de transição.

Fale-nos da digressão até aqui, acerca dos seus pontos altos e baixos.

Agora estou fora de digressão. Os dois estilos de vida – em digressão e caseiro – são tão diferentes que se torna difícil reflectir sobre um deles a partir do outro. As últimas digressões foram indubitavelmente bem sucedidas no aumento de confiança entre o grupo. Estamos a aprender a ser menos duros connosco mesmos e a concentramo-nos apenas no prazer de tocar música.

Desde que iniciaram a rodagem de The Fire in Our Throats Will Beckon the Thaw, crê que as faixas já sofreram uma mutação que resultaria num disco completamente paralelo se reunidas num disco gravado no presente momento?

Não, as músicas estavam totalmente pensadas e estruturadas assim que entrámos em estúdio. Daí que qualquer mudança ocorrida terá sido apenas subtil. Nunca percorremos as estruturas das músicas com improviso ou como se numa jam session. Quando uma música chega ao palco, permanece bem perto da forma que lhe antecipámos.

Os dois discos fundiram-se ao longo da digressão ou houve um cuidado especial em abordá-los separadamente?

Não dispusemos de muitas oportunidades para rodar os discos anteriores (Australasia e os inúmeros EPs) em concerto, por todos tínhamos. The Fire in our Throat Will Beckon the Thaw foi o primeiro disco a merecer uma digressão motivada pela necessidade de promovê-lo. Dependemos muito das músicas desse discos nas últimos digressões, porque todas essas nos parecem frescas e repletas de energia. Tentámos incorporar algumas das músicas mais antigas para os fãs, mas é impossível agradar a todos. Creio que algumas pessoas se sentem frustradas por terem deixado escapar a oportunidade de nos ver a tocar esse material antigo, mas espero que aceitem a nossa situação actual e o que decidimos tocar.

Que diferenças estabelece entre os festivais South by Southwest e o All Tomorrow Parties? Tive conhecimento daquela edição do ATP em que cada nome integrado escolhia um disco para reproduzir na integra. Fossem desafiados a isso, qual seria o álbum escolhido?

P:A grande diferença reside no facto do SXSW ocorrer no Texas e o ATP em Inglaterra. Ou seja, a diferença entre um lugar onde todos são muito simpáticos e delicados e outro onde todos são muito simpáticos e brutalmente sarcásticos. O SXSW tem uma dimensão muito maior, que comporta centenas de espectáculos a ocorrer em simultâneo por toda a cidade durante 18 horas. Se tivesse de optar entre os dois, escolhia o South by Southwest de imediato – é de loucos a quantidade de música. Viéssemos a tocar um disco na integra e seria o último, porque abarca as canções que ainda tocamos, e não as mais antigas que, de certa forma, já superámos.

Têm gravado novo material? Pode revelar um pouco que seja sobre o que nos reserva os Pelican?

O material em que temos vindo a trabalhar é mais veloz do que o anterior. Como já havia mencionado, temos tentado cultivar uma forma forma mais divertida de trabalhar e meios directos de alcançar a energia das músicas, o que nos leva a escrever canções mais rápidas e energéticas. É importante coincidir uma entrega física e mental à música. Partindo do principio que isso faz sentido. Ainda não gravámos nada de novo.

O conceito que gere The Fire in our Throats Will Beckon the Thaw parece conduzir as estações a um retrocesso. Concorda? Até que ponto exploraram esse jogo sazonal?

Sim. Acabámos de escrever o disco e gravámo-lo durante o Inverno. O Inverno é especialmente rigoroso em Chicago, e, apesar de adorarmos a cidade, era frequente desejarmos que as estações recuassem a partir do Inverno. O nome do disco e o tema do retrocesso sazonal também representa uma metáfora para a política externa dos Estados Unidos que actualmente se encontram envolvidos numa segunda Guerra Fria, um Inverno por si só.

Acha que a versão mais longa de “March to the sea” podia ser enquadrada no álbum tal como surge no EP?

Não. A versão que se encontra no EP foi gravada um ano antes de nos entregarmos ao álbum, e achámos que a porção acústica (intermédia) não resultaria ao ser inserida no fluir do longa-duração. Também melhorámos no modo de tocar essa faixa e queríamos documentar esse progresso.

O último disco foi merecedor de reacções dispares. No que diz respeito ao vosso trabalho, aprecia mais um consenso ou algo que gere discórdia?

É um sentimento muito egoísta aquele que me motiva a fazer música. Acho francamente lisonjeador que alguém aprecie a música e representa muito para mim que alguém estabelece uma ligação emocional ao que fazemos, mas não deixaria de tocar se todos desistissem de escutar. Faço este tipo de música por necessidade e não importa realmente o que os outros acham.

“Angel Tears” ganhou uma intensidade enorme com a remistura de Justin Broadrick (que continua a gravar discos enormes sob o desígnio de Jesu). Em que outras mãos gostaria de ver uma das vossas faixas?

Bem... O James Plotkin de Khanate também remisturou “Angel Tears”. Prefuse 73 e o Kid 606 também ofereceram os seus serviços, e estou ansioso por escutar o que daí irá resultar. Se tivesse de escolher alguém de repente – não havia reflectido sobre isto anteriormente -, acho que adoraria escutar o produto final de alguém como o Madlib. Ou Autechre.

Sente que os Pelican podem resumir-se a uma experiência caseira autónoma ou recomenda a prestação ao vivo como um aspecto fulcral do vosso espectro sonoro?


Isso depende de quem escuta. Tentamos despender uma grande quantidade de tempo nos discos, na tentativa de, com isso, obtermos uma escuta maciça e espaçosa. Mas a criação das nossas músicas é feita a pensar nos concertos. Ideologicamente, acho que os discos são uma representação enganosa do que a música realmente deve ser – uma experiência visceral. Não acredito que possam ser equivalentes as intensidades de uma escuta na aparelhagem e ao vivo. Mas há quem discorde e respeito igualmente as suas opiniões.

Parece haver uma devoção peculiar reservada aos artistas da Hydra Head. Como explica isso? Sente-a pessoalmente?


A Hydra Head é gerida com um escasso sentido negocial pouco comum nesta indústria, e assim é porque fazem-no para eles próprios e para satisfazer um gosto pessoal. Não prestam muita atenção ao que está em voga ou a conhecer sucesso – podiam, por exemplo, ter acumular carradas de dinheiro se contratassem bandas parecidas com Cave In ou Converge quando essas estavam “em altas”. Mas optaram por investir nos Keelhaul e Harkonen. É natural que atraiam até si uma série de seguidores vorazes. Esperam uma audiência inteligente e crítica que possa estar apta a ser desafiada pelos seus discos. Tenho imenso orgulho na label onde me encontro inserido.

Era capaz de nos actualizar quanto à situação actual dos projectos TUSK e Chord?

Os TUSK (projecto que chegou a ser prioritário aos Pelican) gravaram um terceiro disco chamado Nighttime Stories, que conta com uma só faixa de trinta e cinco minutos que em muito difere dos dois álbuns anteriores. É menos grind(core). Parece quase a banda-sonora para um demente spaghetti western de terror. Aguardamos que o Jody termine as letras e grave os vocais. É bem provável que seja lançado pelo fim do ano. Os Chord contam com uma faixa numa compilação a ser editada pela Atomic House Recordings,Sound in a Vacuum Vol.2, mas não se encontram ou gravam há quase um ano. Contudo, há esperança de poderem vir a produzir novo material em breve.

Reparei no facto de citarem Helmet como uma inspiração. Que opinião tem do último disco, Size Matters?

Não o escutei. Acho que Page Hamilton devia mudar o nome da banda, já que não tem os membros originais.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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