ENTREVISTAS
Cristina Branco
Uma voz do Mundo
∑ 23 Jun 2006 ∑ 08:00 ∑
Em Portugal n√£o √© detentora de um reconhecimento mais do que merecido, mas em pa√≠ses como a Holanda, Cristina Branco desfruta de sucesso consider√°vel. Um sucesso que lhe permite vender bastantes discos e tocar ao vivo com grande regularidade. Chamam-lhe cantora de fado mas o seu √ļltimo disco, Ulisses, um dos melhores discos portugueses a sair com marca 2005, demonstrou que, embora parta dele, Cristina Branco √© mais do que fado: √© alma, can√ß√£o, saudade, voz, algo indiscutivelmente portugu√™s mas da mesma forma indubitavelmente universal. Cristina Branco √© uma filha de Portugal, mas cidad√£ ‚Äď e voz ‚Äď do mundo. Em entrevista, Cristina Branco fala (ainda) abertamente ‚Äď e com vis√≠vel paix√£o e orgulho ‚Äď de Ulisses e abre um pouco o v√©u a um poss√≠vel pr√≥ximo disco. Al√©m disso, e antes de tudo o mais, descreve com pormenor alguns dos momentos cruciais que a levaram a ser aquilo que √© agora: uma das maiores vozes de Portugal no mundo.

Quando e como é que se aproximou do fado, visto ter nascido longe das casas de fado e da ideia de se tornar uma fadista?

Foi aos 18 anos, quando o meu av√ī me ofereceu um vinil da Am√°lia Rara e In√©dita, mas na altura estava ainda longe de imaginar que viria a fazer da m√ļsica a minha vida. H√° de facto uma aproxima√ß√£o ao fado mas n√£o uma certeza na ‚Äúest√≥ria‚ÄĚ da fadista. Deixo isso nas m√£os de outros que reclamam com veem√™ncia esse t√≠tulo. A mim basta-me ser cantora para ter a liberdade de cantar o que me apetece. Se isso √© ser a ‚Äúenfant terrible‚ÄĚ do fado como j√° ouvi por a√≠, ent√£o que seja! Abomino r√≥tulos‚Ķ

Como foi escolher entre uma carreira na √°rea do jornalismo e a m√ļsica?

Um processo natural. No fundo os caminhos cruzam-se, a determinada altura apareceu a bifurca√ß√£o e sem mesmo dar por isso j√° estava toda mergulhada na m√ļsica, no acto de criar e interpretar.

O seu primeiro disco, Cristina Branco in Holland, foi, como o próprio título indica, gravado na Holanda em 1997. Como é que tudo aconteceu?

Havia o interesse por parte do ‚Äúcentro de cultura portuguesa na Holanda‚ÄĚ, de levar fado e sangue novo at√© essas paragens. Foi o caminho l√≥gico depois de por l√° terem passado nomes como Jos√© Afonso, Am√©lia Muge e outros. Visto a esta dist√Ęncia, acho que era tempo de preencher o abismo que se instalou entre a nossa cultura e outras de pa√≠ses como a Holanda. Tudo foi um acaso. Nesse ano dava eu os primeiros passos na experimenta√ß√£o da voz, (a convite de um amigo passei pelo programa da manh√£ da RTP1), foi visionado na Holanda e dias mais tarde entravam em contacto comigo perguntando se estava interessada em ir at√© aquele pa√≠s para cantar nas comemora√ß√Ķes do 25 de Abril desse ano, para a √≠nfima comunidade portuguesa local da altura. Disse que sim. Portugueses eram 4, todos foragidos da guerra colonial e completamente imbu√≠dos na cultura local mas conscientes e orgulhosos da sua.

Definiu Ulisses, o seu √ļltimo registo, como um ‚Äúdisco de viagens, encontros e desencontros‚ÄĚ. Este disco funciona como o retomar do rumo que desejava?

Nunca fiz um desvio ao curso natural das coisas. Tamb√©m nunca tracei rotas, √© certo! Ulisses √© a consequ√™ncia de tudo o que j√° cantei, j√° ouvi, pessoas que conheci, culturas‚Ķ tudo! Ulisses sou eu e n√£o a Pen√©lope. Sou eu que parto e quero mais. A curiosidade e necessidade de conhecer √© f√©rtil e impar√°vel no meu. √Č tudo assumido.

Em Ulisses o fado tem menos express√£o do que em registos anteriores. Como surgiu a aproxima√ß√£o a outros registos musicais? Considera-se ainda, apesar do conte√ļdo mais universalista de Ulisses, uma fadista?

A proposta √© mesmo a viagem, assim √† descarada! N√£o h√° fado em Ulisses, no entanto ele est√° sempre l√°. A pr√≥pria viagem j√° √© fado, saudade. Cheira tudo a mar, a destino. Foi essa a ideia, brincar com a nossa tem√°tica tr√°gica e universalizar. Mesmo o tema ‚ÄúGaivota‚ÄĚ, aparece enquanto refer√™ncia ao meu av√ī, porque me costumava ‚Äúdizer‚ÄĚ esse poema quando eu era pequena.

Al√©m da universalidade das can√ß√Ķes, Ulisses possui uma universalidade de linguagens: portugu√™s, franc√™s, ingl√™s, espanhol e at√© o portugu√™s do Brasil. A juntar a tudo isto, no booklet de Ulisses as letras das can√ß√Ķes surgem em portugu√™s, ingl√™s e franc√™s. A universaliza√ß√£o da palavra √© uma preocupa√ß√£o sua?

Desde sempre. N√£o por necessidade pessoal, mas sempre cantei para p√ļblicos estrangeiros e estes sempre tiveram a curiosidade de perceber o que vai sendo dito. Parece-me l√≥gico, a partir da compreens√£o do conte√ļdo partem para a compreens√£o do sentido de todo aquele acto c√©nico, da for√ßa da l√≠ngua portuguesa e do peso que tem na m√ļsica‚Ķ e √© ent√£o que surge o fado. Chamem-lhe o que quiserem.

Custódio Castelo, um dos grandes nomes da guitarra portuguesa, é o seu habitual acompanhante. Acha possível dissociar o seu nome daquilo que é o seu próprio mundo musical?

Olhando para tr√°s, n√£o. O seu papel foi fulcral naquilo que fa√ßo. O meu ‚Äúsom‚ÄĚ, a minha linguagem interpretativa nasce com ele e brota da sua m√ļsica. Agora transvazou, j√° n√£o chega (ou talvez seja o momento de recolhimento‚Ķ). Preciso de ‚Äúdesconstruir‚ÄĚ a m√ļsica, torn√°-la menos obtusa, mais fluida, n√£o esquecendo nunca onde nasci.

Para as suas can√ß√Ķes, recupera poemas de autores como Jos√© Afonso, Fausto, Vitorino, Alexandre O‚Äôneill, entre outros. Como procede √† escolha dos poemas e da musicalidade com que constr√≥i as suas can√ß√Ķes?

Os poemas s√£o as palavras que eu gosto ou quero cantar e depois s√£o os meus ‚Äúmeninos‚ÄĚ como lhes chamo e aqui refiro obviamente o Cust√≥dio e mais recentemente o Ricardo Dias, a dar asas √† minha escolha. A musicalidade √© inspirada do seu sentido musical e na capacidade de eu me envolver com um bom poema e com uma m√ļsica que case com ele. No fundo, eu sou a amante no processo criativo a que vai unir as partes ou instalar o caos.

As suas composi√ß√Ķes caminham tanto por entre terrenos melanc√≥licos como por paisagens de imensa alegria e luz. √Č inten√ß√£o sua demonstrar que o Fado n√£o cont√©m somente as perspectivas de tristeza e fatalismo que lhe costumam associar?

A minha interpreta√ß√£o nunca √© pac√≠fica. √Č o que eu vejo num poema, √© o que eu vejo na vida e √© isso que eu canto, a vida. A minha sobretudo, ainda que os meus autores estejam sempre presentes.

Ainda em Ulisses, recuperou ‚ÄúA Case of You‚ÄĚ, um tema de Joni Mitchell do mais do que obrigat√≥rio Blue. Identifica-se com a escrita e com as can√ß√Ķes de Joni Mitchell?


Absolutamente. Ulisses √© tamb√©m um disco carregado de impress√Ķes digitais, de mem√≥rias. Da√≠ m√ļsicas como essa terem que constar.

Como vê o surgir de novas fadistas - aquelas que operam dentro de Portugal - naquele que já é considerado o novo fado? Partilha da ideia que o fado necessitava de uma espécie de renovação que respeitasse, contudo, o seu passado?

Logo quando fala em ‚Äúoperam‚ÄĚ diz muito. Fala-se agora de fado como um fen√≥meno de marketing, √© como se o fado estivesse ‚Äúa dar‚ÄĚ! E nesse acto n√£o h√° qualquer respeito. Agora, √© verdade que ao falar de fado seja ele novo ou velho (e isso ainda est√° para ser discutido) √© preciso respeitar a sua raiz.

Esteve no ano passado em Portugal para uma digress√£o com sete datas pelo pa√≠s, algo in√©dito na sua carreira, e agora teve mais alguns concertos em Lisboa, em Faro e em Beja. Como √© tocar em Portugal para o seu p√ļblico?

√Č o meu pa√≠s mas infelizmente n√£o creio que seja o meu p√ļblico, esse fala holand√™s e franc√™s. Tocar em Portugal vem precisamente ao encontro da ideia de criar um espa√ßo, de encontrar esse p√ļblico, que julgo, deve existir. Mas √© verdade que se torna um pouco estranho dirigir-me em portugu√™s √†s pessoas. N√£o ter que explicar porque est√° l√° tudo!

Como explica essa ‚Äúpouca visibilidade‚ÄĚ em territ√≥rio nacional? Acredita que √© uma tend√™ncia que se inclina a esvanecer rapidamente?


O nosso pa√≠s gosta de ‚Äúher√≥is‚ÄĚ e para isso eu n√£o tenho perfil nem vendo a alma ao diabo. A visibilidade imp√Ķem-se pelos meios que atingem as grandes massas e essas gostam de reality shows e imprensa cor-de-rosa, ora, eu j√° dei para essa par√≥quia! Constru√≠ um caminho a pulso, baseado nos valores em que acredito, n√£o penso desviar um mil√≠metro. Lamento‚Ķ

A Holanda √© com certeza um pa√≠s especial para si: Ulisses vendeu um n√ļmero de c√≥pias assinal√°vel em territ√≥rio holand√™s, e em Maio de 2005, teve uma extensa digress√£o por v√°rias salas holandesas. Como √© que a Holanda v√™ a sua carreira e o fado em geral?


O meu caso é de eterno namoro com este país e há uma tendência para aclamar o exótico e místico… quer melhor que a saudade?

Quais são as hipóteses de 2006 ver nascer um novo disco da sua autoria? Tem trabalhado em material novo?

Segredo dos deuses. Posso adiantar que será uma dissertação sobre a alma e os seus diversos estádios. Onde se encontra a alma do fado e quanto pesa esse fardo? Qual a melhor palavra para descrever o sentimento que a guia quando canta? Fogo que arde sem se ver.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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