ENTREVISTAS
João Alegria Pécurto
Devagar, devarinho
· 25 Out 2011 · 23:37 ·
Tal como acontece com a sua música, João Alegria Pécurto (melhor nome de sempre?) chegou devagar, devarinho, mas com a força criativa de quem tem algo para dizer na música. Sem máscaras, sem gigantesco trabalho promocional, sem discurso feito, através de meios próprios. O músico acaba de editar nas internetes o belíssimo EP Um lugar de silêncio, para que tudo cante na tua ausência, feito de explorações predominantemente acústicas, hipnotizantes e celetiais, e existem já dois EPs prontos ou em preparação para os próximos tempos (que cheguem muito rápido). Faz música em casa, grava no seu quarto quando, depois de regressar do trabalho, se recusa a sentar no sofá e ver o mundo passar diante dos seus olhos. Fomos falar com João Alegria Pécurto que nos contou, devagar, devagarinho, como chegou à música e o que pretende fazer com ela. De forma descomprometida e transparente, como a sua música, e por isso autêntica e humana. Uma janela de oportunidade (e de beleza) a não desperdiçar.
Sabemos todos pouco sobre ti. Como começou a tua relação com a música e como é que chegaste até aos dias de hoje?

Lembro-me de em pequeno ir no banco de trás do carro dos meus pais e cantar de cor as músicas que passavam na rádio. Sempre tive ritmo, e a música era uma presença constante. Entretanto experimentei muito e em vários instrumentos, desde sintetizadores a guitarra portuguesa.

Sei que tens uma ligação sentimental muito forte com a música, em parte por causa de uma doença que te impediu de teres a estabilidade mental para completar um trabalho. Essa dinâmica de ultrapassagem da doença está muito reflectida neste teu disco?

A minha música, como em tudo, está também marcada pelas minhas vivências e circunstâncias, não será a música mais fácil de ser ouvida mas é nela que tenho uma sensação de conforto, é dela uma acção modificadora de que tanto necessito. É a criação de lugares mentais, de percepção, uma circunstância rica, psicológica, um fluxo, que me move e altera; criam-se lugares de sentimento, lugares de memória por vezes, lugares de silêncio…


Como acontece este EP? Como foi o processo de criação?

Durante aproximadamente dois meses, no meu quarto, depois de um dia de trabalho, alguns fins de semana, sempre que podia gravava.

A solidão criativa cai-te bem?

Sim, muito bem, procuro, quando posso, lugares o mais isolados possíveis. O meu ideal é o silêncio absoluto e poucas distracções.

Revês neste trabalho a tua personalidade musical?

É o primeiro trabalho, há quase sempre uma evolução de uns para os outros, uma maturidade acrescida. Este será bem representativo.

De onde é que retiras a inspiração para escrever mais música? Noutros discos, na experiência que te envolve, nas pessoas?

Na experiência que me envolve, certamente, onde tudo o que para mim existe está presente. E tocar tem de ser uma necessidade.

Que música é que te entusiasma hoje em dia? Ouves muita música nova diariamente?

Não ouço muita música nova diariamente, confesso que perco com isso, mas não costumo estar muito atento. Mas o que interessa acompanhar, mais cedo ou mais tarde, vir-me-á parar às mãos. Embora agora ande a explorar o soundcloud que me parece uma boa oportunidade para isso e ouça com frequência o Vidro Azul do Ricardo Mariano na rádio Radar e visite também sítios como o vosso. Continua a entusiasmar-me ouvir o Nick Drake, acho-o sempre perfeito. Há anos perdidos que o tenho comigo.

Sei que existe um próximo EP a ser lançado em breve e que já iniciaste inclusive um terceiro trabalho. O que nos podes contar acerca destes lançamentos?

O próximo EP está para breve, sim, de volta às guitarras. Já iniciei o terceiro também, quero fazer um disco mais longo e trabalhado que os anteriores.


Vais continuar a lançar música na internet? Retiras daí todo o feedback que precisas ou achas que vais precisar em breve de um maior reconhecimento, de uma maior exposição?

Não sei ainda, não cheguei a tentar editoras, foi algo pouco reflectido, conheço pouco esse mundo, mas pareceu-me, sim, que o meu trabalho iria ter pouca aceitação, uma ideia que se está a mostrar errada.

Sei também que procuras dois guitarristas para colaborarem contigo. Esperas levar este projecto para os palcos em breve?

Espero conseguir criar uma atmosfera o mais rica possível ao vivo para apresentar dignamente um trabalho pelo qual tenho uma estima imensa. Espero também que essas pessoas se identifiquem minimamente com o trabalho para poderem acrescentar alguma coisa.

Tens um nome incrível. Alguma vez te passou pela cabeça inventar um pseudónimo ou sentes-te bem na tua pele?

Não me passou pela cabeça, é o nome da minha família, faço questão de o apresentar.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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