ENTREVISTAS
Mikado Lab
Centrifugação Jazz
30 Jan 2009 11:17
Com Coração Pneumático mesmo aí a chegar, os Mikado Lab assumem-se como uma das forças renovadoras do jazz em Portugal. Este colectivo lisboeta brinca (a sério) com o jazz de tal forma que consegue enfiar os Deerhoof lá dentro - se não acreditam ouçam a maravilhosa "300 pares de sapatos". Não é tarefa para todos mas Marco Franco, aqui entrevistado, assume as responsabilidades do cargo. Depois do bem recebido Baligo, há um novo episódio na vida dos Mikado Lab; de continua exploração do jazz e das linguagens próximas, de centrifugação musical, de um continuo trabalho de depuração de um som que é só deles. Os Mikado Lab são evidentemente, para além de tudo o mais, um dos nomes a ter em conta na nova música portuguesa e uma das propostas mais interessantes do jazz nacional actual.
Foi preciso trabalhar muito para chegar a esta mistura de rock, jazz e música electrónica? Ou pelo menos para aperfeiçoá-la?

Sim, temos trabalhado bastante o som do grupo e também o facto de a maioria das canções serem de universos distintos, isso ajuda muito como perceber que sonoridade/efeitos e qual o tipo de abordagem a utilizar em cada uma destas, assim temos mais possibilidades para fazer misturar os vários estilos que se fazem notar e que dão um som eléctrico ao grupo.

Acham que o jazz se devia mistura mais vezes assim, sair de casa, dar um passeio?

Porque não! Acho que acontece cada vez mais esta mistura! Os músicos em geral seja de que área forem, estão mais actualizados dos imensos projectos/bandas e interessam-se por tudo o que é expressão musical, pelo menos é o meu caso e isto deve-se ao cruzamento de informação constante como é o caso do sistema Myspace que contribui enormemente para se ficar a par do que existe musicalmente á escala global. E sim quanto ao jazz este já se mistura desde há muito tempo e o curso natural tende para cada vez mais misturado, quer no conceito bem como na interpretação.

Presumo que tenham trazido muitos ensinamentos dos vossos projectos anteriores. Tiveram de fazer uma espécie de filtragem para os Mikado Lab?

Sim, tem havido sem dúvida uma filtragem no sentido de encontrar uma voz colectiva para assim definir o som e dar personalidade a cada uma das canções. Em relação ao background musical é quase sempre diferente em cada caso. Por exemplo eu comecei por tocar metal e punk/core entre outros estilos como a improvisação livre, jazz tradicional etc. e incluo estes ensinamentos mesmo que sejam com diferentes abordagens dos mesmos. Por isso quanto maior for o background, maior será o interesse e liberdade para o por em prática. E os Mikado Lab são um bom terreno para cruzar diferentes estilos e também quem sabe alguns legumes!


Acham que o vosso álbum de estreia fez justiça a tudo aquilo que os Mikado Lab eram naquela altura? Era o disco que pretendiam?

Quero crer que sim! Ainda agora as pessoas tem dado um bom feedback do álbum e isso também reforça a ideia de que o disco espelha o momento em que a banda já tinha chegado a um som colectivo e optou por ir a estúdio e ver qual o resultado! E sim era o disco que pretendia e que também me motivou a querer fazer um segundo álbum e obviamente melhorar e fazer evoluir o espírito já encontrado. A própria critica também deixou esta ideia bem clara e fico satisfeito por isso.

Quando ouço a vossa música, nomeadamente a “300 pares de sapatos”, não consigo de deixar de pensar nos Deerhoof. A esquizofrenia desses americanos é uma influência assumida para vocês?

Os Deerhoof são uma influência no meu caso pessoal que sou fã dessa grandessíssima banda que espero ver em Portugal um dia! Não sei se a Ana e o André conhecem! Mas o Pedro adora e já ouvimos juntos algumas vezes! Por isso está na lista de influencias e com muito gosto.

A composição dos temas para os Mikado Lab é um processo lento e demorado ou rápido e natural?

A composição é sempre um processo que pode demorar mais ou menos tempo dependendo das horas de trabalho e capacidade deste, no meu caso como sou eu o autor/compositor tenho que trabalhar bastante para ter musica suficiente para depois nos ensaios se perceber o que pode ou não funcionar melhor em função da interpretação de cada um no resultado colectivo. Mas é sempre natural fazer musica, pelo menos para mim que estou habituado e dedico grande parte do tempo a compor com a guitarra que é o instrumento que me acompanha neste processo de fazer canções.

Como é que as pessoas em geral têm recebido a vossa música, sobretudo nos concertos? Os puristas do jazz sentem alguma indisposição?

Tem sido bastante positivo tocar ao vivo em situações diversas como festivais de jazz, cafés teatros, ou outros sítios sem estarem conotados com estilos, e estar com outros públicos de diferentes áreas e idades que se mostram interessados e que no fim vem falar connosco a perguntar se temos CDs ou para dizer que gostaram ou perguntar algo, dizer olá! Tudo isto tem sido fundamental para o grupo ganhar confiança e também adquirir fãs. Puristas…Não sei, talvez sim, talvez não. É apenas música e não religião e moral!


Ao vivo os Mikado Lab sofrem alguma alteração de maior ou respeitam bastante aquilo que é registado ao vivo. Há espaço para improvisação por exemplo?

Não existem alterações de maior no que toca á forma dos temas e sonoridade! Mas sim alguns dos temas ficam mais elásticos no que respeita a parte da improvisação e tocamos mais alto do que nos ensaios o que é muito mais fixe!

Vejo algumas datas no vosso myspace em salas importantes de Portugal. Sentem que podem começar a dar o salto não tarda nada?

Talvez possamos ir tocar a mais salas em Portugal, é muito difícil de perceber! Mas espero que sim, é esse o objectivo.

Têm um novo disco a chegar muito em breve. O que é que nos podem contar sobre ele? Qual é o sentimento geral?

O próximo álbum já está quase pronto e vai-se chamar Coração Pneumático. Tem a mesma formação do primeiro álbum e conta com os músicos Pete Rende/piano, Bernardo Sassetti/piano e o super talentoso jovem musico José Pedro Coelho em saxofone tenor como convidados. São também 14 Temas como no anterior disco e o sentimento é positivo e por isso quem ouvir este segundo disco já conhecendo o Baligo vai reconhecer o grupo imediatamente e descobrir outras abordagens diferentes numa mesma estética! A coisa boa de ter um segundo disco é poder ao vivo depois fazer um cruzamento de reportório e com isto ter uma dinâmica mais diversificada para quem estiver na sala a assistir e para nós próprios não ficarmos fartos de tocar os mesmos temas!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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