DISCOS
Amélia Muge
Não Sou Daqui
· 24 Abr 2007 · 08:00 ·
Amélia Muge
Não Sou Daqui
2006
Vachier & Associados


Sítios oficiais:
- Vachier & Associados
Amélia Muge
Não Sou Daqui
2006
Vachier & Associados


Sítios oficiais:
- Vachier & Associados
Pode haver música tradicional portuguesa à frente do seu tempo? Pode e não há prova maior disso do que Não Sou Daqui.

Desvendar a matriz e os códigos da música de Amélia Muge neste tipo de textos que a norma tem consagrado por “críticas”, procurando sempre ir além do que outros já perceberam, não tem sido uma actividade a que se possa chamar de fértil. Perceba-se: ninguém como ela própria consegue abrir tantas portas para a compreensão daquilo que faz, o que é aliás natural. Mas quanto mais densa é a obra do artista, de mais explicações ela precisa. Não Sou Daqui consegue ser benemérito em certo sentido, há à superfície uma componente que pode ser apreendida sem grande esforço. Mas tentar fazê-lo leva esta voz e esta música até à carne e ao osso.

De que se fala quando se fala da música de Amélia Muge e, mais precisamente, deste seu novo álbum, – irmão mais novo de um conjunto de três, dois deles ainda por parir – Não Sou Daqui? Fala-se de canções que nunca são assim-assim. Mas também de música tradicional portuguesa longe de caravanismo selvagem, de fado sem xaile – ela diz que “Fadunchinho” não é para ser levado a sério, ou pelo menos faz crer pelo título –, de jazz vindo de um piano que por vezes até parece ter carta branca para experimentar, de moços morenos com T-shirt de alças a tocar percussão para música que auspicia a ser do Brasil sem ser brasileira (alô, “Não Sou Daqui, Mas...”). E também o brasileirismo mais descarado que é “Escutar Caetano”, baladas lindíssimas como “Na Noite Escura”, muitos pormenores a reluzir ali, outros aqui, uma deliciosa e viciante “Parece Maio” acolá, quando passa uma grua que assusta a passarada. Vrum!

Vrum, têm-se ideias como dúvidas que zumbem na cabeça. Porque na raiz está a exploração da canção, não como estilo musical mas como ideia, sítio com identidade própria que não se sabe se pode ser um lugar de todos. Há sempre, parece, um poema (que belos poemas, e fica-se na dúvida se se pode mesmo estabelecer uma diferença entre isto e “letras de música”, de António Ramos Rosa, Eugénio Lisboa, Hélia Correia, Sophia de Mello Breyner Andresen e também da própria Amélia Muge) sobre o qual se arquitecta a música, parecendo impossível traçar um fio condutor melhor do que aquele que é dado a ouvir, onde coabitam ou, mais que isso, vivem dentro, parasitam sem sugar, os instrumentos que a acompanham e onde há uma sempre ténue incitação ao sonambulismo prazenteiro que é fechar os olhos e fazer do centro da coluna o eixo principal de um movimento ameno que o corpo reclama e que existe mesmo sem existir. Por cima de tudo, projectado, um sorriso que se escuta e uma lapidação musical que talvez não fosse tão possível sem os arranjos e percussão de António José Martins, os pianos de Filipe Raposo, a guitarra de José Peixoto, os baixos de Yuri Daniel e o “gaiteiro” José Manuel David.
Tiago Gonçalves
tgoncalves@bodyspace.net
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