DISCOS
Ghost
In Stormy Nights
· 20 Mar 2007 · 07:00 ·
Ghost
In Stormy Nights
2007
Drag City / AnAnAnA


Sítios oficiais:
- Drag City
- AnAnAnA
Ghost
In Stormy Nights
2007
Drag City / AnAnAnA


Sítios oficiais:
- Drag City
- AnAnAnA
Feudo instigado entre géneros cilindrados provoca, como casualidade, o melhor álbum dos Ghost desde Snuffbox Immanence.
Mediante a impressionante capacidade de se renovarem a cada novo disco, não deixa de provocar algum incómodo ver os japoneses Ghost demasiado próximos da catalogação noise rock. Neste caso, noise rock se entendido como formatação mais convencional da prática ruidosa conduzida em obscurantismo por magos como Merzbow ou Aube. Os Ghost provêm de um Japão infame por essa arte, alguns dos seus membros mantêm semelhanças fisionómicas com o guru Shoko Asahara (que aterrorizou o metro de Tóquio com gás Sarin em 1995) e o magnânime opus “Hemicyclic Anthelion”, monstro que cedo desperta com o ribombar de In Stormy Nights, chega até mergulhar o seu pescoço digressionista em passagens mais ríspidas e hostilmente perfurantes que se enquadrariam no noise. Porém, o mais justo seria alegar que, nas circunstâncias mais frontalmente abrasivas, os Ghost arrastam até ao seu muito próprio dialecto psicadélico vestígios do que se descobre porventura a um limiar noise.

Até porque o fantasma - sujeito à ambiguidade que lhe incutiu a cultura japonesa dos contos kwaidan - pode ser um auxiliar benigno em certa ocasião, tal como um temível estupor noutra. E, verdade seja dita, os Ghost são muito mais simpáticos e amistosos do que o que fazem crer as fotos promocionais e o aspecto cinzento das ruínas em segundo plano. Ou não tivessem eles gravado uma bem humorada e quase exótica versão de “Living With Me" dos Rolling Stones para inclusão em Snuffbox Immanence. “Caledonia” reincide nas qualidades mais convidativas dos Ghost e escuta-se como um bacanal sonoro pronto a receber em euforia o regresso a casa de um qualquer clã vitorioso, que haveria de delirar com a cada vez mais visível pele feminina cedente aos sopros eufóricos e percussão pomposa conforme a ocasião.

Mas uma batalha que mereça ser coroada não se trava em apenas um dia e a suite instrumental “Hemicyclic Anthelion” dura quase meia hora sem quaisquer infiltrações entediantes ou mostras de virtuosismo vazio. Suando cada minuto da maratona com caleidoscópico usufruir de feedback e metais envoltos em bruma, captando o fôlego quebrado de um jazz moribundo e dissonante, gravitando, por vezes, muito próximo do autismo xamanista de Akio Suzuki. O exercício amnésico trespassa, sem quaisquer preocupações formais, todo o tipo de géneros com a confiança alheada de uns Baroque Bordello (turma conterrânea nascida a partir do Dark Revolutionary Collective). “Hemicylic Anthelion” ocupa, para já, lugar de destaque na estranheza conhecida ao presente ano.

Contudo, quando desperta desse imenso transe que faz parar o tempo, In Stormy Nights abre as comportas de uma segunda divisão bem mais imediata e inteligível, mas não menos grandiosa: escute-se ao assomo cinemático “Water Door Yellow Gate” um piano que parece tocado pelos dedos da mão que prolonga ou ceifa a vida ao firme gladiador, que, aqui, pode bem ser Masaki Batoh, o mais tentaculado membro dos Ghost, na verbalização do seu derradeiro discurso dramático perante a turba. Como se não bastasse toda esta vertigem para fazer salivar estóicos fantasistas, assiste-lhe uma secundária guitarra que, ao longe, torna tudo mais fatal com um fuzz que larga farpas. A sequela “Gareki no Toshi” é basicamente a vingança do sangue que derramou “Water Door Yellow Gate”. Bravos épicos que podem bem reavivar o pescoço à girafa embalsamada do Lux por onde os Ghost passarão no próximo dia 3 de Maio.

Sobram motivos mais que suficientes para estripar uns quantos macacos de Sheffield e escrever, em caracteres japoneses e com o líquido daí vertido, a seguinte frase na bandeira que anuncia a chegada do colosso Ghost a cavalo de In Stormy Nights: Tudo aquilo a que as pessoas me associam, é aquilo a que não me fixo. Voltam os Ghost a edificar um majestoso disco a partir das ruínas em que transformam grande parte das expectativas. O noise, folk psicadélica e outros que tais, abalaram com o sopro que faz sentir esta noite triunfalmente tempestiva.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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