DISCOS
Joanna Newsom
Ys
· 24 Nov 2006 · 08:00 ·
Joanna Newsom
Ys
2006
Drag City / AnAnAnA


Sítios oficiais:
- Joanna Newsom
- Drag City
- AnAnAnA
Joanna Newsom
Ys
2006
Drag City / AnAnAnA


Sítios oficiais:
- Joanna Newsom
- Drag City
- AnAnAnA
Com o segundo disco, Joanna Newsom mostra-nos mais um pouco do seu coração romântico.
A propósito do lançamento do álbum de estreia em 2004 - The milk-eyed mender - referi-me a uma evidente qualidade felina na voz de Joanna Newsom. Na altura escrevi que se um dia as gatas pudessem cantar, provavelmente soariam assim. O tom do registo vocal desta cantora, harpista e compositora norte-americana de 25 anos, nascida em Nevada City, California, e oriunda de uma família de músicos, é de tal forma invulgar que depressa se tornou num doce encanto acústico para todos aqueles que, como eu, tiveram tempo para sonhar acordados ao som da sua música. Apesar de ter estudado profundamente a harpa do Senegal e do Mali, Joanna Newsom afasta-se de qualquer conotação "world music", confessando-se fascinada pela música folk norte-americana e influenciada tanto pelos Lomax Brothers como pela obra para piano de Terry Riley, compositor que de resto foi seu vizinho de infância. Acredita que fazer música é um acto mais relacionado com uma necessidade de catarse do que com a simples vontade de editar um disco ou actuar perante uma plateia.

Partindo da ligação que a harpa tradicionalmente possui com um certo imaginário celestial, refere aceitar que alguém não goste das canções ou da sua voz mas não consegue conceber uma reacção negativa ao som da harpa: Joanna Newsom toca uma enorme harpa celta, sua companheira inseparável a quem chamou Stacy. Para a história, fica também uma célebre viagem de carro ao longo de Portugal com a sua amiga e flautista Ariella, uma das raras pessoas com quem Joanna Newsom já tocou em palco, por ocasião de uma aparição ao vivo no nosso país.

Na capa do novo disco intitulado Ys, o seu segundo numa carreira ainda curta mas de ascensão meteórica, Joanna Newsom é retratada por Benjamin Vierling como uma princesa renascentista, num estilo aparentemente influenciado pelo movimento germânico Nazareno do século XIX, uma espécie de escola paralela aos Pré-Rafaelitas ingleses. Repleta de emblemas e alegorias, dificilmente poderíamos conceber melhor imagem para adornar uma música tão romântica como esta e que literalmente foi inspirada (e talvez até transmitida...) em sonhos. Numa entrevista à conceituada revista The Wire, a jovem artista confessa que durante um tempo sonhou com as letras Y e S, descobrindo pouco depois que Ys é o nome de uma cidade mitológica mandada construir na baía de Douarnenez, na Bretanha, por Gradlon, Rei da Cornualha, para a sua filha Dahut. De acordo com uma das lendas, Ys foi construída abaixo do nível do mar, protegida por um dique. Apenas o rei detinha as chaves do dique mas Satanás fez com que Dahut as roubasse e lhas desse: depois de abertos os portões, Ys foi inundada. Nalgumas versões do mito, Satanás foi enviado por Deus para punir os habitantes corrompidos da cidade. Outras versões da história indicam que Dahut roubou as chaves a pedido do seu amante, para que pudesse entrar na cidade e assim estar perto de si. Seja como for e ainda que os sons que escutamos neste disco estejam longe de ser tão tempestuosos como a batalha divina enunciada no mito, Joanna Newsom demonstra um impressionante poder de efabulação, de certa forma conotado com a literatura fantástica do século XIX.

O seu interesse pelos lugares inquietos da poesia reflecte-se no imaginário profundamente romântico com que nos faz emergir à superfície dessas estranhas eternidades apenas possíveis de contemplar em sonhos, e, de forma mais concreta, no próprio compasso de algumas letras, numa cadência reminescente de Edgar Allan Poe. Mas a música de Ys não é adornada pelas rendas escuras desse tipo de romantismo frenético: a contextualização em paisagens imersas numa quietude matinal que nada tem de natural, é feita pelo lado luminoso da magia e do mistério. A sua voz de criança desceu algumas oitavas, sendo agora menos estridente e a estrutura dos temas tornou-se mais complexa com o acompanhamento orquestral, mas nesse sacrifício da simplicidade (da inocência?) nenhum encanto se perdeu. Pelo contrário, as pequenas alegorias cantadas em The milk-eyed mender transformaram-se no novo Ys em longas narrativas, cheias de deliciosas inflexões linguísticas e doces armadilhas onde gostamos de nos deixar capturar pelas melodias.

Baseando a composição musical numa notação muito particular em que descreveu sensações, cores, imagens, cenas e conceitos que pretendia projectar em cada tema, Joanna avançou para um trabalho esteticamente mais ambicioso e arrojado, passando do intimismo inocente das baladas escritas à sombra de um bosque encantado, para a composição de temas a espaços orquestrais, que têm mais a ver com as atmosferas quase épicas de um mundo que não existe fora da nossa imaginação. A sua música, mais esclarecida que nunca, assenta agora num fluxo constante que percorre todo o disco, demonstrando uma inteligente combinação de literacia sinfónica/clássica com experimentalismo e fluidez analógica. Para tudo isso muito contribuiu o considerável aumento de instrumentação utilizada na gravação do novo disco em relação ao primeiro, dominado quase exclusivamente pela harpa: acordeão, guitarra eléctrica, banjo, marimba, bandolim, secção de cordas e sopros bem como vários instrumentos de percussão que incluíram o crânio de um cavalo! Porém, não fiquem intimidados os puristas pela aparente grandiosidade do registo pois é ainda a voz e a harpa que comandam as operações, apenas ornamentadas com os motivos florais do coração.

A rapariga de cabelos compridos e olhar doce e vago, toca harpa como quem colhe estrelas na abóbada celeste e canta como uma cinderela cintilante, à procura de um lugar onírico dentro de nós, algures entre o conto de fadas para arregalar o ouvido de uma criança que se prepara para adormecer, e as fantasias crepusculares oriundas das raízes mais profundas do cancioneiro folk norte-americano. Por isso voltamos a acreditar. Deixaremos de dormir durante o resto das nossas vidas. O futuro é luminoso e o passado apenas um reflexo dessa luz. Se um dia as fadas pudessem cantar, provavelmente soariam assim.
Jorge Mantas
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