DISCOS
Samuel Jerónimo
RIMA
· 01 Nov 2006 · 08:00 ·
Samuel Jerónimo
RIMA
2006
Thisco


Sítios oficiais:
- Samuel Jerónimo
- Thisco
Samuel Jerónimo
RIMA
2006
Thisco


Sítios oficiais:
- Samuel Jerónimo
- Thisco
Tentativa ambiciosa (e bem conseguida) de revisão pessoal da história da música, entre o barroco e o pós-modernismo.
Samuel Jerónimo não é, definitivamente, músico de ambição modesta. RIMA, este seu segundo disco, é o centro de uma trilogia (Trilogia da Mudança) que se segue ao anterior Redra Ändra Endre De Fase (2004) e que se encerrará no previsto Ronda. Ao primeiro álbum a atenção estava nos processos de mudança: contínuos, cíclicos e graduais. Agora, diz Samuel, foca-se a orientação para a sobreposição das consequências desses processos, tentando estabelecer a ligação possível entre passado, presente e futuro. Rapaz ambicioso, dizíamos.

Já se sabe, nunca saberemos por antecipação a música do amanhã. Mas conhecemos suficientemente a música do passado e do presente para saber que é impossível concretizar qualquer tentativa de resumo histórico num disco. Demasiadas correntes, músicos e músicas fazem qualquer tentativa de síntese soar sempre incompleta. A proposta de Samuel Jerónimo consiste na apresentação de uma dualidade que choca - o antigo e o contemporâneo - servindo isto de base para eventuais extrapolações do futuro.

Este objecto-síntese é composto por quatro versos que obedecem a uma estrutura simples de verso cruzado – o primeiro tem ligação no terceiro, o segundo tem correspondência no quarto. Os versos ímpares sintetizam a radicalidade da música erudita dos séculos XX/XXI, reflectindo uma abordagem minimalista, ambiental, com recurso a electrónicas. Já a forma dos versos pares remete para a opulência barroca dos séculos XVII e XVIII, em todo o seu excesso, com os órgãos a invocar sacralidade.

A abrir o disco somos levados a uma exposição de contemporaneidade: efeitos, repetições, processamentos, vozes fantasmagóricas, Ligeti (“Lux Aeterna”), Steve Reich (a aproximação ao ritmo). O choque surge à segunda faixa, uma chuva de notas velozes de órgão que vão crescendo em quase repetições até se transformarem subtilmente, de forma quase hipnótica. O terceiro verso traz-nos de volta ao presente/futuro. Vozes sussurrantes transformadas, mais fantasmas e ruídos que ganham formas e feitios e quase ameaçam a familiaridade. Mais texturado que o primeiro verso, chega quase a ser épico, ainda de forma ténue, pela reunião de elementos como a fragmentação electrónica (Iannis Xenakis?) ou a repetição/transformação de Reich (“Come Out” sonâmbulo?). A fechar a rima, o quarto verso volta à grandiosidade do órgão, num tema que por vezes chega a lembrar quase formas melódicas do progressivo.

Samuel Jerónimo idealizou a empreitada e arriscou do modo mais difícil: pelo confronto. Como se o choque seja a forma mais visível de expor a mudança, Jerónimo faz a sua síntese personalizada da evolução. Épico e majestoso, RIMA é um álbum incomparável no cenário nacional, é um dos mais ambiciosos projectos portugueses e conseguiu uma concretização de nível superior. Merece toda a atenção de quem esteja disposto a conhecer uma espécie de revisão da história da música, filtrada por um rapaz talentoso.
Nuno Catarino
nunocatarino@gmail.com

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