DISCOS
Radiohead
Kid A
· 01 Set 2002 · 08:00 ·
Radiohead
Kid A
2000
Capitol


Sítios oficiais:
- Radiohead
- Capitol
Radiohead
Kid A
2000
Capitol


Sítios oficiais:
- Radiohead
- Capitol
Descobri os Radiohead lentamente, e ainda bem. Ainda bem que tinha doze anos quando ouvi o “Creep” a primeira vez, e que ouvi “OK Computer” numa tarde perdida numa loja de música. Conhecia muito vagamente o nome. Estávamos em 1997. Tive, assim, três anos para descobrir as três guitarras, a voz do Thom Yorke, os booklets geniais, enquanto esperava por Kid A. E da primeira vez que o ouvi esqueci tudo, mas tudo o resto. Esqueci-me das críticas dos GYBE! à alegada hipocrisia anti-comercial-pseudo-alternativa dos Radiohead. Esqueci a postura em palco de um vocalista em poses teatrais, quase a roçar o artificial. Esqueci-me das roupas brancas e dos refrões pop e das previsões de “one-hit wonder” que circulavam à volta de “Pablo Honey”. Esqueci-me das guitarras arrepiantes em “Airbag”, e das tentativas de moldar as letras surreais aos nossos próprios acontecimentos. Porque, finalmente, já não era preciso. Estavam lá as horas futuras de exorcismos abstractos e de levitações imaginadas.

Lembro-me da primeira vez que ouvi (ouvi?senti?absorvi?) “Morning Bell”. E estava tudo no seu lugar certo. As batidas tensas, prontas a explodir, o piano enormemente mínimo, os silêncios e a voz. Lembro-me também da música a entrar por mim dentro, muito devagar, e das batidas ecoarem na minha cabeça, da percepção do baixo e do piano e da voz a transformar-se em sensações diversas e infinitas.

Lembro-me, também, e dando um pouco de ordem à minha descrição, que comecei a ouvir Kid A numa noite. O começo foi avassalador. O orgão de “Everything In Its Right Place” varre qualquer tentativa de pensamento extra-música, é demasiado forte, percorrendo o negro do fundo com finos traços azuis e vermelhos, hipnotizando-nos sem darmos por isso.

A seguir vem “Kid A”. O fundo continua negro, surgindo agora um mistura de órgão infantil e batida IDM (idm?), muito Múm, até chegar a voz e a tarola. Nada de refrões, nada de estrutura. Kid A assenta em camadas sonoras de repetições hipnóticas e quebras suaves. Penetramos cada vez mais em fios de pensamento surrealistas e profundos, como se chegássemos ao útero. Já não sabemos se somos nós que estamos dentro da cabeça dos Radiohead ou eles dentro de nós.

“National Anthem”. Subitamente acorda-se, e apercebe-se que tudo à nossa volta é diferente. O baixo é agressivo, e combinado com a tarola parece estar em êxtase. Como eu. Os sons sem nexo aparente, e o Thom Yorke a calá-los e eles a aparecem novamente e a dominar o tema.

E a seguir à tempestade, a bonança. A quase-canção-de-embalar. “How To Disappear Completely” protege-nos. Deixo-me levar. Deixo-me embalar e levar para as atmosferas tensas e paradoxalmente leves. Não estamos aqui. Nada nos atinge. Estamos seguros.

Chegamos, finalmente, ao útero. É abstracto e calmo. “Treefingers” é o útero, onde podemos descansar para o resto de Kid A.

É-nos proposto um regresso ao passado, ao passado de OK Computer, de guitarras distorcidas e de uma vocalização que deve ser o único momento rock de todo o álbum. Estranhamente ou não, não destoa a passagem. “Optimistic” abre assim espaço para “In Limbo” e, principalmente, “Idioteque”. A primeira, construída com motivos repetidos até à exaustão, é a nave que nos leva até ao presente. Passamos pelas guitarras, pelo refrão “you’re living in a fantasy”, pela melodia tensa, e atingimos “Idioteque”. “In Limbo” transforma-se numa espera. Estávamos à espera de “Idioteque”. Se Kid A tivesse “singles”, este seria o primeiro. Se existe realmente o conceito de pós-rock, é isto. É a batida tensa, tensa, quebrada pelo fio melódico da voz que, impotente, luta contra a passividade da batida. Para, de repente, descobrirmos que todos os sons cabem em Thom Yorke. As acalmias e os zénites. Acabou “Idioteque”. Tudo se cala, excepto o ruído histérico que continua indefinidamente. Começa uma batida, perfeita, pensa-se, o que se poderia modificar. Chegámos a “Morning Bell”. É demasiado belo.
Kid A acaba com “Motion Picture Soundtrack”.
Mas, entretanto, adormeço.

Para quem quiser saber mais:
Boards of Canada – "Music Has The Right To Children"
Aphex Twin – "Selected Ambient Works, 85-92"
Múm - "Yesterday Was Dramatic - Today Is OK"
Isan - "Beautronics"
Nuno Cruz
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