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A Naifa
3 Minutos Antes de a Maré Encher
· 16 Mar 2006 · 08:00 ·
A Naifa
3 Minutos Antes de a Maré Encher
2006
Zona Música


Sítios oficiais:
- A Naifa
- Zona Música
A Naifa
3 Minutos Antes de a Maré Encher
2006
Zona Música


Sítios oficiais:
- A Naifa
- Zona Música
A Naifa pode não ter sido o primeiro projecto nacional a tentar uma fusão entre o fado e elementos diversos da música pop contemporânea mas, num registo que bem se poderia etiquetar de trip-fado, foram os primeiros a conseguir coerência e solidez nesse intento. Depois de um primeiro disco em que moldaram a sua matriz, ninguém esperava uma revolução. Para o bem ou para o mal, A Naifa é um daqueles projectos (e daí até ser mais correcto aplicar este substantivo do que “banda”) que encontra a sua existência numa estética muita específica, e quando dela fugir deixa de fazer sentido. O desafio para este segundo álbum passava claramente por uma “evolução na continuidade”. Que saídas havia para dar a ideia de um upgrade?

A resposta d’A Naifa parece ter sido simples: as canções. Fazê-las mais refinadas, mais perfeitas, com um sentido pop mais apurado. Como “Da uma da noite às oito da manhã”, em que a guitarra portuguesa está lá, mas até podia estar outra guitarra qualquer que a coisa resultava na mesma. O tema, minimalista, com um baixo marcadamente pós-punk e com Mitó a limitar-se a pouco mais do que ler o texto (provando que se consegue libertar facilmente dos tiques fadistas, se necessário), é um belo exemplo do processo de depuração em termos de composição por que A Naifa parece ter passado. “Monotone” (single do álbum, em que curiosamente há um verso que diz “esqueces essa canção que já não passa na rádio / mas que vive secretamente dentro de ti”) prossegue dentro do mesmo estilo: ritmicamente plana, poucos acordes. A Naifa já não é um “estalo” vindo do nada, como em Canções Subterrâneas, e optou por uma redução ao essencial, dando espaço para a voz segura de Mitó e para as letras.

Sim, as letras. Não nos esqueçamos disso. A Naifa tem pelo menos o mérito indiscutível de dar um destaque à palavra, em português. E consegue-o sem que isso soe forçado e com momentos de algum brilhantismo. Tal como no primeiro disco, os textos são de jovens poetas portugueses, desde os mais mediáticos José Luís Peixoto e Adília Lopes, passando por Rui Lage ou Tiago Gomes. A temática dos textos permanece a mesma: a infelicidade urbana, o dia-a-dia, o quotidiano, a solidão, e uma luz a querer entrar pela janela das personagens das canções.

A Naifa não é um projecto de renovação do fado (ou pelo menos só isso), mas se a compararmos a sua música com a típica canção portuguesa há aqui um toque de modernidade: a Mariquinhas já não canta as suas desgraças de janela aberta, já não vêm para a rua em pranto para que as vizinhas a acudam num momento de aflição. As pessoas sofrem mais sozinhas, debatem-se moralmente consigo próprias. Porém, debaixo de várias camadas, parece estar nos textos o desespero e a dor que são a alma do fado, dentro de uma nova portugalidade, urbana, que bem pode ter como expoente “Fé”: um exercício sobre a religiosidade, de quem assiste “a uma vígilia via TV”, mas depois pede a Deus “que consiga não se masturbar”. No fundo, é a parte dois (e talvez aqui a coisa até soe demais a repetição) de “Queixas de um Utente / Deus é a nossa mulher a dias”.

Na sua segunda parte, o disco vai-se aproximando de um registo mais próximo do fado, como em “Quando os nossos corpos se separaram” e “Todo o amor do mundo não foi suficiente”. Esta última faixa é uma espécie de balada pop em invólucro fado, sendo o tema mais emocional do álbum. Para lá da guitarra portuguesa, há um arranjo de violoncelo discreto e a lírica mais convincente do disco (e não dizemos isto por ser de José Luís Peixoto). Mais para a frente, “A verdade apanha-se com enganos” começa com um ritmo que parece roubado ao folclore português, para depois ser contaminada por um baixo sujo. É um dos melhores temas, onde A Naifa mostra que não está parada na sua mescla de fado e de elementos rítmicos modernos. Há mais caminho por percorrer, há mais influências por assimilar. Queremos mais disto.

“Calças vermelhas” e “Porque me traíste tanto” fazem uma divisão já clássica na banda: a voz e a guitarra portuguesa são fadistas, a batida cava e a linha de baixo apontam para o trip hop. No caso da faixa de encerramento, traços subtis de cordas e a aparição de um sintetizador contribuem para um final doído, quase uma síntese perfeita, acompanhando o poema de Adília Lopes.

3 Minutos Antes de a Maré Encher está bem enquadrado no público alvo a que se destina A Naifa: urbano, 25-40 anos, cosmopolita, culturalmente acima da média (a temática dos poemas não será por acaso). O álbum “soa” inevitavelmente menos forte (e menos imediato) do que Canções Subterrâneas, pelo simples facto de que este constituiu um momento fundador. Mas Varatojo e companhia não se importaram muito com isso e construíram um longa-duração que pede várias audições até se entranhar no ouvinte. Por vezes, sente-se que falta levar o confronto entre influências para um nível mais radical, mas não haja dúvidas de que estamos perante um disco de canções bem polidas, mas ainda assim com muito espaço para a descoberta de subtilezas várias.
João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net
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