DISCOS
Julie Doiron
Goodnight Nobody
· 06 Fev 2006 · 08:00 ·
Julie Doiron
Goodnight Nobody
2004
Jagjaguwar / Popstock


Sítios oficiais:
- Julie Doiron
- Jagjaguwar
- Popstock
Julie Doiron
Goodnight Nobody
2004
Jagjaguwar / Popstock


Sítios oficiais:
- Julie Doiron
- Jagjaguwar
- Popstock
No que diz respeito à imensa variedade de escolha em termos de escritoras de canções, o sentimento que me afecta é semelhante ao de “Girls On My Mind” de David Byrne ou “Girls, girls, girls”, o tema digressionista que Jay-Z celebrizou no Unplugged que gravou para a MTV. Tantas e tão interessantes. Tão escasso o tempo para atender a cada uma. Acontece que há uns anos assumi um compromisso com Chan Marshall (Cat Power), quando a sua voz sulista e os meus ouvidos se casaram sob o luar figurado. Isso faz com que desenvolva um sentimento de culpa a cada vez que passo um par de semanas sem regressar ao seu regaço. Durante o tempo que me ocupa a tendência marialva, deixo-me seduzir pelo kitsch soviético da Regina Spektor, procuro escape no espanhol da Juana Molina, assumo flirts sólidos com a Shannon Wright e Mary Timony. Faço os possíveis por estabilizar o affair com a Joanna Newson, mas qualquer coisa de perturbante naquele tom élfico-traquina condena a nossa relação a um curto prazo (até porque o Bill não é assim tão liberal). A Julie surgiu-me numa altura perfeita. Com a revelação dos seus dramas, desdramatizou a temperatura insuportável do Inverno rigoroso. Juntos, permanecemos com suficiente regularidade sobre a camada de neve cândida que este seu Goodnight Nobody forma instantaneamente à primeira faixa “Snow Falls in November. O degelo é um espectáculo natural digno de se contemplar.

A familiaridade inspira a simpatia. Ainda este ano, Julie Doiron havia ensaiado com Francisco “Old Jerusalem” Silva um par de temas no Mercedes (acontecimento singular que conheceu a abordagem do André Gomes aqui no BS). Não soa a despropositado o cruzamento entre os dois universos, pois também Julie concede primazia à canção sobre as implicações que a sua partilha implica (e as interpretações que isso suscita). E cada canção conhece a singularidade própria dos cristais de neve: além da discrição zen, pouco terão em comum o anti-hino de proletariado “Dirty Feet” e a auto-referencialidade à flor da pele de “The Songwriter”. Goodnight Nobody exorciza o cinzento ao Outouno, para com renovado à vontade moldar melodias à neve de Inverno. Fá-lo incumbindo o aspecto rotineiro dos factos relatados de conferir mundaneidade à música que escolhe para ilustrá-los. E por mundaneidade entenda-se o conjunto de instrumentos que possam estar espalhados pela casa de um artista folk tradicional.

A ex-baixista dos Eric’s Trip depende essencialmente da(s) guitarra(s) e voz. Até porque, na sua maior parte, foi gravado como se fosse um disco ao vivo, Goodnight Nobody vê-se abençoadamente obrigado a manter o seu songwriting cristalino à altura de voos rasos (a produção é transparente). "Banjo", por exemplo, é tão simples quanto o seu título faz suspeitar: o categórico instrumento de cordas e voz singela confessam-se mutuamente em jeito de prognóstico enlaçado pelos ruídos espontâneos dos veículos que transitam as ruas de Toronto (onde, de resto, foi gravada). Subsiste “Banjo” como exemplo máximo da essência iluminada própria das canções que sobrevivem impunes à captação num gravador de quatro pistas. Goodnight Nobody é um daqueles discos que podia até conhecer maior eficácia se contasse apenas com as demos ou ensaios das faixas representadas.

Goodnight Nobody circunscreve-se descomplexadamente à sua condição de retrato intimista da vida familiar (o cônjuge da cantautora canadiana, Jon Claytor, assume a responsabilidade de ilustrar o disco). Não saca coelhos da cartola, porque nunca se atreveria a despertá-los do sono hibernante. Como se de uma família de recurso se tratasse, Goodnight Nobody transparece na sua entrega as portas que ficam abertas para futuras visitas. Prepara-me um chá de tília, Chan. Liga o cobertor eléctrico da nossa cama. Não devo tardar a voltar a casa.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
RELACIONADO / Julie Doiron
Ao Vivo
Old Jerusalem+ Julie Doiron + Berg Sans Nipple
18 Mar 2005: O Meu Mercedes é Maior Que o Teu, Porto
ÚLTIMOS DISCOS
Sound Of Lapland
Scapes
· POR Paulo Cecílio ·
Feliz Natal.
ÚLTIMAS

Parceiros