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Black Mountain
Black Mountain
· 01 Jan 1970 · 00:59 ·
Black Mountain
Black Mountain
2005
Jagjaguwar


Sítios oficiais:
- Black Mountain
- Jagjaguwar
Black Mountain
Black Mountain
2005
Jagjaguwar


Sítios oficiais:
- Black Mountain
- Jagjaguwar
Convidei o complexo Octávio Machado a trepar comigo a montanha negra. Sabia de antemão que apontaria o dedo a cada vez que fosse necessário enumerar os responsáveis por marcas reconhecíveis ao longo da escalada. Trato então de atribuir um correspondente factual à suspeição reticente do treinador de futebol que já assumiu o comando dos dois grandes de menor porte. A palavra a Octávio: ”Andou por aqui rock de envergadura numerosa, traço sinfónico dimensionado à escala de colectivo alucinado, psicadelia a rodos, abundância capilar. Vocês sabem de quem eu estou a falar...”. Sim, Octávio. Electric Light Orchestra, The Groundhogs, Led Zeppelin, Sly & Family Stone (em versão musculada e recuperados à era Stand!). Podiam até ser uns Bellrays a suportar as chagas destas comparações, fossem menos sublimes ou mais directos na assumpção de referências. “Impiedosos riffs colossais, odor intenso a asfalto, jams de fim incerto. Conheço bem o rosto dos senhores que desbravaram esta montanha.” Nós também, honrado agricultor. Os suspeitos do costume Black Sabbath e Blue Cheer; mais recentemente, os Corrosion of Conformity ou Comets on Fire. Ou seja, nada que Brant Bjork (figura de proa do stoner) não readaptasse à actualidade entre dois chás de erva. Até ver, Stephen McBean não aparenta um terço do talento de Brant Bjork.

Contudo, Stephen McBean goza da vantagem de se encontrar sedeado em Vancouver, uma das Mecas do novo rock canadiano, a partir de onde gere a acção criativa aos tentáculos do Black Mountain Army, que, além dos que aqui abordo, engloba em comunidade Jerk with a Bomb e os Pink Mountaintops (espécie de positivo intimista do seu oposto obscuro). A livre transição entre bandas parece tão ideal quanto a lei de Bosman (que facilitava as transferências entre clubes de países pertencentes à União Europeia), sem envolver o aspecto materialista próprio do desporto rei. Circulam sem entraves as ideias de gente que, com a anexação a um determinado aglomerado, pode duplicar os resultados de uma banda. Imagine-se os efeitos que pode ter génio à solta na Vancouver de hoje (não é esse o caso de McBean). Os canadianos agigantam-se na música, como, se com isso, procurassem confrontar a agressiva política externa da vizinha administração Bush com um militante: ”They got the guns. We got the numbers!”. E parece essa ser uma das primeiras características a constar do padrão genético do rock canadiano: o elevado número de executantes ou a fabricação de uma densidade coral que provoque a impressão de estarmos perante alguém que se debate com o seu próprio complexo de inferioridade (tal como referia Vitor Belanciano recentemente, em reportagem do <>Y). O novo sentido de comunidade é um convite aberto a quem se queira juntar à caravana sem ficar de braços cruzados. Admitem-se expressões musicais isoladamente simples, que, aos ombros da conjugação colectiva, contribuem com a mesma quota para a complexidade almejada. O som que emitiu a última caixa registadora de Toronto a vender um par de Maracas pode bem ser o do sucesso à escala mundial.

O som que se escuta à investida iniciática “Modern Music” é o de alguém familiarizado com as capacidades incendiárias do saxofone que os Stooges soltavam na divisão de Fun House pertencente a “1970”. “Modern Music”, aliás, teria obrigatoriamente de ser vigoroso e enérgico (e até o é quando extrai por força ao gospel), já que representa o primeiro período da escalada montanha acima que Black Mountain descreve até metade. Fica esclarecido que tal bipartição simétrica ganharia maior funcionalidade se aplicada às duas faces do vinil. De funcionalidade que baste dispõem os dois momentos que tornam merecida a passagem (mesmo que breve) por Black Mountain: com “Don’t Run Our Hearts Around” a ocupar as despesas do calibrado épico stoner que sabe exactamente a distância a manter entre o seu coro suplicante e um centro que deixa os sentidos em cacos e “Druganaut” no lugar do tónico perfeito para romaria pela Route 66 (com os dados suspensos no retrovisor) que tomaria a Brant Bjork mais que o intervalo entre dois chás “quitados”. A metade descendente é proporcionalmente decadente. Excepção feita à celebração "No Hits", condenada a fazer balouçar em esquizofrenia os ossos mais adormecidos de quem aguardou pacientemente a passagem do furacão stoner para se deparar com uma aberração quase disco. “No Hits” é faixa para baralhar as contas a peregrinos que possam equacionar descer a montanha pela rota que usaram para escalá-la. A melhor opção – acrescente-se - será mesmo essa. “Heart of Snow” e “Faulty Times” são desérticas no seu desinteresse boçal e não há muito fazer perante o cansaço que acusa o disco nessa altura.

Dos escaparates que servem de montra ao stoner, passará, a partir de agora, a constar uma divisão dedicada à sua variante mais light. Black Mountain serve nem que seja para firmar a noção de que o género não remete exclusivamente para os mais entediados residentes da Califórnia comandada pelo fumo intensificado de um bongo.

Se é o amor que realmente move montanhas, presumo seja necessário uma paixão cega para fazer do cume desta um lugar habitável a longo prazo. Tal como vinha a tentar comprovar, a metade descendente de Black Mountain nunca chega a apresentar viável equilíbrio ao seu par de clímaxes madrugadores. Ao invés disso, perde-se na tentativa de emular aqueles hinos pacifistas do rock de 60 e acaba por cobrir de arranjos floridos o que de mais bombástico havia armazenado até aí. E ninguém gosta de ver um contagiante riff enclausurado num caixão de pretensiosismos revivalistas, tal como nunca ninguém chegou a entender bem a quem se referia Octávio Machado nas suas paranóicas conferências de impressa.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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