DISCOS
Vashti Bunyan
Lookaftering
· 12 Jan 2006 · 08:00 ·
Vashti Bunyan
Lookaftering
2005
FatCat / Flur


Sítios oficiais:
- FatCat
- Flur
Vashti Bunyan
Lookaftering
2005
FatCat / Flur


Sítios oficiais:
- FatCat
- Flur
A primeira audição que se faz de um disco não é igual à segunda ou à terceira. Ou à quarta ou à quinta. A primeira audição é especial, porque é o primeiro contacto directo que se tem com o objecto em questão e poderá condicionar todos os outros. Às vezes acontece ouvirmos um disco e não gostarmos, mesmo que gostemos do artista. Mas é esse gostar do artista que nos faz dar mais uma chance ao disco. É isto que acontece em Lookaftering, disco de Vashti Bunynan, 36 anos depois de Just Another Diamond Day, que fez da britânica, a par de outros nomes, tais como Linda Perhacs ou de Gary Higgins, uma percussora da relativamente recente vaga de freak-folk, free-folk ou todos aqueles nomes dos quais já estamos fartos. Foi recuperada por gente como Devendra Banhart, que incluiu temas seus na sua compilação Golden Apples of the Sun e a pôs a cantar na faixa-título de Rejoicing in the Hands, um bonito dueto, ou os Animal Collective, que com ela gravaram o excelente EP Prospect Hummer.

Estas são as descrições das minhas audições do disco:

1. A primeira vez: no quarto
Estava deitado. Acho que estava com sono. Talvez não estivesse. Não sei. Mas pus aquilo a tocar. A princípio estava a gostar mais ou menos. Sempre (ler-se “desde que ouvi o Rejoicing in the Hands”, que eu não tenho propriamente mais de 30 anos, ou de 20 anos, ou assim) gostei da voz de Vashti Bunyan. Mas as canções não eram as mesmas de Just Another Diamond Day. Os arranjos não eram os mesmos. Caiu-me algo mal. A meio parei. Não aguentava mesmo mais. Achei uma chatice. E, ainda por cima, uma foleirada.

2. A segunda vez: na sala
Há umas semanas veio cá uma criança a casa, filha de não-sei-quem, com os pais. O meu irmão – que, por alguma razão que desconheço, tem balões no quarto – encheu um balão para a criança brincar. Semanas depois, o balão continuava na sala. Pus a tocar Lookaftering na aparelhagem da sala. O meu irmão estava deitado no sofá e costuma queixar-se das minhas escolhas musicais. Desta vez não. O balão continuava na sala e olhei pela janela. Vi o meu subúrbio, vi a minha antiga escola, vi a melancolia dos dias de Inverno ou coisa-que-o-valha. Tudo isto a brincar com o balão. A parte triste é que não estou a inventar isto. Meti-me a pensar: “Esta slide-guitar é mesmo fixe. Pá, onde é que eu ouvi foleirice aqui?”

3. A terceira vez: no quarto
Estava deitado (notam algum padrão a desenvolver-se?). Quando começo a ouvir aquilo, descubro algo: que já conheço o disco mais ou menos de cor. Aquele murmurar no final, no tema convenientemente intitulado “Wayward Hum”, já estava totalmente dentro da minha cabeça. Isto é bom, visto que algum tempo depois de ouvir Just Another Diamond Day tinha a primeira faixa na cabeça, e não conseguia fazê-la sair. “Na Na Na Na Na Na” (não tenho paciência para contar os “na”, nem sequer importa).

4. A quarta vez: na cozinha
Estava a fazer o jantar (não se metam com ideias, não sei cozinhar), ainda por cima antes de ir para um jantar. Entra a guitarra suave e aquela voz, suave, aguda e bucólica, das mais bonitas que já ouvi, e transforma aquela cozinha moderna daquela terra à beira-mar plantada no campo inglês. Ou não. Vou para a sala comer. Ligo a televisão e a SIC fala do “Avô Metralha”, um ladrão de 72 e anos. O piano meditativo deixa entrar a flauta, depois a guitarra, alguns efeitos sonoros e a voz. As melodias bonitas escondem letras imperceptíveis, mas não interessa, tal como não interessa aos estrangeiros (e não só aos japoneses armados com máquinas fotográficas) o que eles cantam no fado. Os sopros entram em cena; a operação da Judiciária para apanhar o tal avô e mais uns idosos chama-se “Operação Reforma”. A harpa, raios, a harpa. Porque é que há panaché no frigorífico? Porque é que há Imperial (a marca, provavelmente, a pior cerveja do mundo) no frigorífico? Deve ter sido o meu irmão a pôr lá. “A cavalo dado não se olha o dente”, pego numa e vou lá para fora. Está um frio de rachar, a terra está vazia. Passam uns três carros na rua. No Oeste, na capital do tuning, das rotundas e da construção civil, só um deles é que está quitado. O que é que se passa? Algo está errado. Será da Vashti Bunyan? Porque é que ela me lembra o Chelsea Girl da Nico com melhor canto (e, admitamos, com canções um pouco menores, mas mesmo assim óptimas)? A cerveja, curiosamente, sabe-me bem. Será também da Vashti?

5. A quinta vez (e última desta lista, não última): na Cidade Universitária, no metro, no Marquês de Pombal, e algures um pouco depois Amoreiras e um pouco antes de Monsanto, quando, pela lentidão dos transportes públicos em Lisboa, o disco chegou ao fim
Final de tarde. Há uma aula para assistir. Mas não. É uma aula extremamente aborrecida e 8 horas seguidas de aulas não são propriamente fáceis de encarar com poucas horas de sono. Ouço o disco na rua, saindo da faculdade, entrando no metro, e começo a reparar no reverse em “Here Before” (headphones são o melhor meio para conhecer mesmo bem um disco), a ver as pessoas passar, a carruagem a chegar e chego à conclusão de que Lookaftering não foi feito para ouvir debaixo da terra, onde ninguém pode ser feliz. Saio da estação, o Marquês de Pombal já tem os túneis à vista, as vias estão ainda mais cortadas e o trânsito é caótico, os transportes são lentos e isto não é novidade nenhuma. Espero pelo autocarro, vejo um tipo que parecia o Abe Vigoda em mais rechonchudo. E a Vashti continua a cantar. Algures depois das Amoreiras olho para a direita e estão adolescentes a sair do Liceu Francês, todos com hoodies que ora dizem Billabong, ora dizem GAP. Uma rapariga que não tinha mais de 13 anos pede ao condutor do autocarro, que está parado num semáforo e assim vai continuar durante tempo suficiente, para abrir a porta. O senhor não deixa. A crueldade é um dos requisitos para se ser condutor de autocarros em Lisboa, certamente. O glockenspiel, os murmúrios e os “Nanana” e “Ooooh” de “Wayward Hum” (a última faixa, revisão onomatopeica da terceira) apoderam-se de mim. Antes era o final de “Feet of Clay”, algures depois de só haver cordas suspensas no ar e se ouvir a guitarra lá ao fundo, suave, com harpa ocasional. Percebo que os 35 minutos de Lookaftering são muito poucos, passam depressa e não justificam só o registo de 5 audições. Mas, se estas 5 audições não eram propriamente as audições mais interessantes do mundo, as outras são ainda menos interessantes e, consequentemente, ainda menos justificação há para registá-las.

Veredicto final:
Não sendo Just Another Diamond Day (nem podendo, por razões históricas e temporais, ser), Lookaftering é Lookaftering, e não passa só por uma revisão da matéria dada. A produção belíssima do compositor Max Richter dá-lhe um toque especial, diferente do seu disco de estreia. Como é óbvio, durante os 30 e tal anos que Vashti esteve retirada da música em geral, do canto e das canções, cresceu. Lookaftering mostra-a adulta, mas sempre com aquela infantilidade adorável e doce. Nessa medida, é “mãe” de Joanna Newsom (bom exemplo, que até toca harpa no disco) e das CocoRosie (mau exemplo), mas com uma voz que mete as delas a um canto. Como Vashti, outros talentos antigos estarão adormecidos ou ainda por descobrir. Por sorte, o seu foi descoberto e reanimado de uma forma extremamente bem sucedida. E, no final, não queremos saber se foram 30 anos ou 30 dias, se foram só 5 audições ou se serão muitas mais, o talento é o mesmo e é isso que interessa.
Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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