DISCOS
Sigur Rós
( )
· 18 Nov 2005 · 08:00 ·
Sigur Rós
( )
2002
Fat Cat


Sítios oficiais:
- Sigur Rós
- Fat Cat
Sigur Rós
( )
2002
Fat Cat


Sítios oficiais:
- Sigur Rós
- Fat Cat
Em defesa da inflexão parentética (ou “Como inverter o propósito a oito pregos embutidos sobre o mal-amado ( )”)

Em 1986, reuniam-se em Reykjavik, capital da Islândia, Ronald Reagan e Mikhail Gorbachev. O encontro tinha como objectivo estabelecer bilateralmente medidas de desarmamento que reduzissem o risco e devolvessem um sono descansado ao mundo ocidental. Após uma maratona de 11 horas de negociações, o mundo ficaria a saber que pouco ou nada tinha resultado da aproximação entre as duas partes. Entre a imbecil tradição republicana de Reagan e a consolidação pré-Perestroika de Gorbachev, apenas um enorme vazio de números, rodriguinhos diplomáticos e todo um Carnaval mediático que normalmente acompanha estas ocasiões. Dezasseis anos depois, os Sigur Rós optam por dar um uso bem mais inteligente e proveitoso a uma oportuna aproximação de extremos (aquela que uniu quatro islandeses aos quatro cantos do mundo na digressão de Ágaetis Byrjun. ( ) descreve em oito capítulos a paz de espírito do bom filho que a casa torna.

Quando alguém é confrontado com sucessivas interpretações alheias para uma visão cultivada em estufa personalizada, é natural que recolha a um espaço que a permita reflectir sobre o mais apropriado encaixe a dar a todo esse volume de interpretação excedente ao que primariamente tinha estabelecido para um grupo de dez a quinze pessoas (por estimativa, o número de envolvidos directamente em Ágaetis Byrjun. Não será fácil assimilar em apenas doze meses teorias mais ou menos fundamentadas sobre elfos com cio, anjos assexuados a braços com dependências e toda uma elite académica norte-americana desprevenida. Por mais que fossem as esperanças depositadas no tal bom começo (se equacionarmos o universo fechado de Von), é óbvio que nem o mais esperançoso membro dos Sigur Rós perspectivava a aclamação generalizada de que Ágaetis Byrjun foi alvo. No regresso a casa, o lar escuta atento as radiantes novidades. Em “Vaka”, a voz de Jonsi termina distorcida e exposta a efeitos, como que para simular um discurso nervoso, desconexo e sentimentalmente empolgado de quem não sabe por onde começar o relato das maravilhas que descobriu ao mundo. Inserido num esquema conceptual que incidia quase exclusivamente sobre a música (o grafismo de ( ) é regido por um elegante minimalismo), o teledisco de “Vaka” permite a quem se evadiu à intimidade do disco confrontar o exterior desde que com máscaras de gás. Por sua vez, a extensão conhecida às três faixas do EP que promoveu a primeira faixa do disco pode ser tomado como um derrame vertido por ( ), por influência de uma criatividade que não coube entre os parênteses.

A segunda faixa, que devia ser a primeira (“Fyrsta” significa “Primeira canção”), revela mais flagrantemente ( ) como um disco mapeado pelas as cicatrizes da mutação: uma grande parte das composições incluídas no terceiro disco dos Sigur Rós sofrera significantes mudanças ao longo dos 2/3 anos de digressão que as manteve em laboratório. Sem nunca ceder pantanosa margem a uma imposição vincada, “Fyrsta” é a multiplicidade de que os Sigur Rós são capazes sem se esforçarem demasiado em delinear um cânone (quem sabe se, como Robin Guthrie dos Cocteau Twins, algum dos quatro não fará um dia um brilhante disco a solo). “Fyrsta” insinua-se fluidamente e comete a digna proeza de em si encerrar as qualidades que fizeram dos Sigur Rós uma exportação apreciável em todo o mundo: numa só implosão estabelecerem a banda-sonora ideal à hibernação, sonambulismo e uma melhor vida através do uso moderado de químicos.

“Samskeyti” encontra Chris Martin dos Coldplay às portas do céu a tentar convencer São Pedro de que não foi por vontade dele que, para garantir credibilidade imediata, a sua banda produto um dia se disfarçou de uma maltrapilha amálgama tecida a partir dos U2, Radiohead e Pink Floyd (?!?!). A alguns passos da nuvem que serve de berço ao piano em torno do qual tudo gira em “Samskeyti”, Chris Martin suplica por genialidade e essência que um dia lhe permitam a tocar com tamanha graciosidade nas teclas de um instrumento. Em lágrimas, escreve “Estou livre de pecado” na mão direita com marcador roxo , promete passes de backstage para os concertos privados da sua banda a todos os funcionários das várias repartições do purgatório e chega mesmo a garantir que se ocupará de mudar as fraldas à filha Apple caso São Pedro esteja interessado num jantar a dois com a sua esposa Gwyneth Paltrow.

Antes de ser obrigado a conter o fôlego, ( ) permite-se a uma última manifestação assumida de esperança e expõe-se gloriosamente a uma fotossíntese de subtilezas pueris (em antecâmara de Ba Ba/Ti Ki/Di Do) que assimile suficiente calor antes do disco puxar o colarinho até ao queixo e enfrentar o briol da sua segunda metade. Se fosse remisturado por Four Tet, “Njósnavélin” podia até servir de tema gerénico a uma Liga dos Campeões Celestial disputada por todos os craques futebolísticos (José Águas de braçadeira de capitão) que ascenderam ao céu e agora vivem aborrecidos por ser tão difícil por lá encontrar árbitros profissionais que lhes regulamentem os desafios. “Njósnavélin” acompanha os Pixies e David Lynch em fazer crer que no céu tudo é perfeito.

Numa cidade em que, para alguém que vive na cauda da Europa, é praticamente um luxo calçar os sapatos a um vulgar transeunte (tal é o seu custo de vida), torna-se economicamente vantajoso optar por aderir à orgia típica como prática comum de lazer. Assim levam a crer as revelações constantes de entrevistas a celebridades islandesas. Perante alguma falta de pudor (manifestação da naturalidade insular), o resto do mundo ficava a saber que por lá a juventude intercalava a frieza dos estudos matemáticos com um aquecimento colectivo. “Álafoss” (nome do estúdio-piscina em que os Sigur Rós gravaram o disco) é o lamento solene de alguém que parece não estar a conviver bem com ausência inesperada de um regular frequentar do serão colectivo. Repare-se como os restantes instrumentos acompanham a guitarra na sua descendência. Há ali um sólido pacto de compreensão que une ainda mais as balizas a ( ).

Por altura da sexta faixa, ( ) parece evidenciar - para bem da renovação dramática do disco - os primeiros sinais de fadiga – resultantes da longa caminhada até ao topo da montanha, onde a partir do cume (tal como acontece a meio-tempo de Kid A dos Radiohead) se acede a um contemplar privilegiado que permite ao transcendental (e lá está ele naquele efusivo clímax onde todos os instrumentos colidem alegremente testas com testas) . A distância entre “E-Bow” e o “voyeur” que só espreita o interior de ( ) (em vez de nele mergulhar) é a mesma que separa Maomé do cume da montanha. Sem que nada o fizesse antever, emancipa-se a quem devia caber a iniciativa e serve de antecipação épica ao que ( ) revela apenas no fim.

Convenientemente, a sétima faixa - “The Death Song” – podia até ser paralela a uma cena cortada ao episódio de Sete Palmos de Terra em que ficamos a saber que, antes de se decidir por permanecer com a família em Pasadena, Nate Fisher tinha percorrido o mundo em busca de si próprio. Quem conhece a série, sabe que, sempre que o seu principal protagonista arriscava pensamentos aprofundados, acabava por se perder numa projecção onírica do seu existencialismo, que, por sua vez, se ocupa de fazer desfilar as figuras representativas do seu medo da morte. Ao que parece, Nate Fisher terá passado ao lado dos glaciares e recordado os primeiros contactos com a lâmina que todos ceifa. “The Death Song” comporta um tom semelhante a esse tipo de reflexão, mas parece chorar uma perca ecológica em vez de familiar. Pode até parecer especulação, mas aquele predominante compasso fúnebre parece dizer respeito a qualquer coisa maior que a condição humana.

Como se não fosse suficiente a diversidade de emoções percorridas até aqui, os Sigur Rós acreditaram que um derradeiro forcing do conceito podia embrulhar todo a imensidão do disco e com isso conseguiram reservar o melhor para o fim. A última faixa procura evadir-se à redoma onde ( ) cumpriu a sua segunda metade a medir as probabilidades físicas às brechas, mesmo que esse derradeiro movimento implique confrontar frontalmente a vertigem. E aquele final avassaladoramente apoteótico consegue suster durante tempo recorde todo o tipo de estilhaços que ainda faltavam expurgar ao núcleo ( ): a tensão acumulada durante a exigente digressão de Agaetis Byrjun, a distorção restante da guitarras, o fantasma enclausurado na máquina, uma amostra de Godspeed You Black Emperor! em culminar de contenção tântrica e todo um impressionante caudal de sensações indescritíveis que ninguém se arriscaria a adivinhar até à hora em que os parênteses desabam sobre si. É nesse preciso momento que o exotismo passa a estar entranhado à direita do peito e o raciocínio a incluir todo um novo léxico extraído ao mais universal dos Esperantos: a pop.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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