DISCOS
Josephine Foster
Hazel Eyes, I Will Lead You
· 15 Nov 2005 · 08:00 ·
Josephine Foster
Hazel Eyes, I Will Lead You
2005
Locust


Sítios oficiais:
- Josephine Foster
- Locust
Josephine Foster
Hazel Eyes, I Will Lead You
2005
Locust


Sítios oficiais:
- Josephine Foster
- Locust
Logo nos primeiros segundos de Hazel Eyes, I Will Lead You - aquele que é no fundo o primeiro disco a solo de Josephine Foster - torna-se óbvio que algo mudou. Aquela voz saída dos contos de fadas, do misticismo das florestas e dos sonhos continua presente. A sua guitarra também. De All The Leaves Are Gone (gravado com a sua banda, os Supposed) para os dias de hoje o rock foi dar uma volta e ficou o folk mais ou menos freak, mas sempre com um olho na tradição. E por isso mesmo, Hazel Eyes, I Will Lead You vem ao mundo com contornos de livro antigo e empoeirado onde se guardam histórias, lendas e mitos; vem, depois de aberto, com a voz quase teatral, quase operática – não tivesse Josephine Foster andado na escola de ópera há alguns anos –, que, passe o lugar-comum, é adequadíssima a cantares de fogueira acesa e a histórias de embalar – mais ou menos macabras, mais ou menos carregadas de um misticismo infrangível. Josephine Foster é nata-freak da folk que teve em 2004 um espírito de infiltração e disseminação considerável.

Perdida então que está a electricidade de All The Leaves Are Gone, Josephine Foster achou por bem construir este novo disco tendo por base a sua voz e uma guitarra acústica, mas também a ajuda de harpa, flautas de aluno do 6.º ano em exame de Educação Musical, ukulele, sinos, assobios e todo o tipo de sons provenientes da floresta encantada ou de locais e meios não identificados. Hazel Eyes, I Will Lead You é, portanto, um disco que nasce algures na Natureza, não só porque quase se pode sentir o cheiro da madeira, das árvores e ouvir o som dos rios, mas também porque Josephine Foster se serve dela mesma para, especialmente nas suas letras, envolver este disco numa espécie de floresta de sons cuidadosamente combinados. Josephine Foster canta aqui às árvores, às folhas, às pedras, às árvores, aos céus, às árvores e ao inferno. Canta como se o seu mundo fosse ainda o dos anos 60 e 70 e não se conhecesse outra forma de elogio à essência do mundo.

Canções como “The Siren’s Admonition”, “The Pruner’s Pair” e mesmo “Hazel Eyes, I Will Lead You” exploram ao mesmo tempo a estranheza e a doçura, a luminosidade e escuridão da folk, quer a nível dos instrumentos utilizados, quer a nível da voz de Josephine Foster. É que apesar de tudo, a voz de capuchinho vermelho pela floresta fora enquanto apanha frutos silvestres de Josephine Foster é ainda mais desafiadora do que ao início se poderia pensar. Há até quem diga por aí – concorde-se ou não – que Josephine Foster é o Devendra Banhart feminino. “There Are Trees Above” e “Trees Lay By” – a obsessão com as árvores, as folhas e a natureza, o familiar apego aos tons do Outono, aos aromas dos chás quentes e às mantas – são provavelmente duas das melhores canções que Josephine Foster alguma vez escreveu. Em “Crakerjack Fool” convida os pássaros, as galinhas e o resto das aves para lançar uma série de avisos a uma criança, numa estranha e bizarra canção de embalar: “Hush little baby don’t say a word/ Mama’s gonna buy you a mockingbird/ Ma ma ma ma, caw caw caw caw/ La la la lock your door, it’s unfurled”.

Em O Outono em Pequim, Boris Vian traça uma história surrealista em que nem o Outono nem a própria cidade de Pequim – onde a referida estação do ano é conhecida pela sua extraordinária beleza e brevidade - estão presentes. Aqui, Josephine Foster pinta o Outono da queda das folhas, das vindimas e das castanhas com as cores da solidão e do infinito – há qualquer coisa neste disco que prende tudo e toda a gente aos tons sépia. Mas não é uma solidão que lhe fique mal, antes pelo contrário. Josephine Foster parece mais ela própria longe do rock que tingiu o disco com os Supposed - e isso já se tornou óbvio desde o momento em que “Little Life” surgiu por entre as 20 faixas de Golden Apples of the Sun. Num ano de aparente acalmia para a folk (pelo menos para alguns daqueles que figuram no abraço feito por Devendra Banhart), Hazel Eyes, I Will Lead You dá a todos um pouco mais em que acreditar.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net
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