DISCOS
Efterklang
Tripper / Springer EP
· 09 Jun 2005 · 08:00 ·
Efterklang
Tripper / Springer EP
2004
Leaf / Flur


Sítios oficiais:
- Efterklang
- Leaf
- Flur
Efterklang
Tripper / Springer EP
2004
Leaf / Flur


Sítios oficiais:
- Efterklang
- Leaf
- Flur
Quando há uns meses assisti a um agradável concerto dos finlandeses Dalindèo na Casa da Cultura local, proporcionou-se um cenário linguístico tão distinto quanto cómico. Nesse sábado, os Dalindèo presentearam um composto auditório com um jazz simpático, que dificilmente surpreenderia, mas que mais dificilmente ficaria aquém das expectativas mínimas. Jazz para sorrisos de noite amena. Tudo no lugar certo. Tudo excepto as palavras. Entre standards e originais apresentados, o porta-voz dos Dalindèo dava uso ao seu finlandês para – ao que se suspeita – informar o público acerca dos títulos e trivialidades referentes às faixas. Depois, a estranheza invadia a sala em consonância com a voz de uma intérprete que parecia traduzir tudo menos o que há pouco tinha sido proferido em palco. Podia até o front-man dos Dalindèo referir-se ao resultado do jogo a ocorrer entre o Futebol Clube do Porto e o Penafiel, que ninguém daria por isso. Com um sotaque irreconhecível, a tal voz dispunha-se a comentar antes de uma bossanova: ”Vejamos como estes finlandeses de sangue frio se orientam com os ritmos quentes do Brasil.” Entre a melancolia nórdica e o entender ibérico perde-se alguma precisão e arrecada-se, através de uma terceira via, uma nova interpretação. Afinal, e enquanto conjugação de extremos opostos, o frio e o quente traduzem-se num dialecto ameno.

Escutar os discos dos Efterklang é como assistir a um filme numa língua estrangeira sem legendas. Passa a percepção a dedicar uma maior atenção aos signos visuais espalhados por paisagens glaciares e a partir desses obter acrescentos ao código que, à medida que se compõe, permite acesso a espaços ocultos entre os casulos fossilizados que compõem os discos da banda dinamarquesa. Dispõem-se os Efterklang, através do seu tarot geológico, a aguçar a imaginação de quem estiver propenso a olhar pelo óculo do microscópio. Decerto que encontrará vozes etéreas, electrónica de pijama (olá, Múm), fetos de glitch e drum n’bass, harmonias sonolentas, instrumentos de sopro dispostos em formação interventiva e tudo o mais que adense a corpulência do monstro de pedra adormecido. Como bónus, Tripper conta com o quarteto de cordas Amina (colaboradoras frequentes dos Sigur Rós) e um total de 34 músicos – o número necessário de intervenientes para despertar o titânico ser rochoso.

A grandiosidade microscópica do universo Efterklang reside pois no paradoxo: enquanto o seu fluxo faz remar no mesmo sentido a pop ceremonial e a sensualidade de quem recolhe ao leito às 6 da tarde (hábitos nórdicos), a electrónica e os elementos orgânicos parecem pressionar a essência em direcções contrárias. Temos música para uma saga galáctica onde carícias e demonstrações espontâneas de afecto substituem duelos entre sabres. A cumplicidade em vez da virilidade. Pela forma como cobre de tons cândidos o pessimismo industrial (Trent Reznor é um bicho papão), a desarmada mão estendida pelos Efterklang convida à natalidade e hibernação.

Apesar de ser apenas sugestivo na forma como expõe os traços que um ano depois viriam a ser desenvolvidos pelos Efterklang no primeiro álbum, Springer é um EP com aspiração a maioridade LP, exposição de slides em que o benjamim se atreve a andar de bicicleta mesmo antes de saber orientar perfeitamente a locomoção. De forma destemida, Springer atreve-se a sobrevoar territórios sagrados como Amnesiac (Radiohead) e Homogenic (Björk). “Redrop”, por exemplo, quase parece contar com a voz de Thom Yorke. Despenha-se o EP na sua ambição, mas deixa entre os conspiradores a sensação de que podem vir a ser muito mais apreciáveis os ecos de Springer que a sua presente demonstração.

Afirmativo. Tripper ressoa de forma ampliada os atributos oníricos do seu antecessor (agora reeditado pela Leaf). Torna-se fábula a música intermitente dos Efterklang e passa a ser urgente reconquistar a inocência que estes discos baseados na inocência exigem. Tripper depende essencialmente da curiosidade de cada um, da vontade que reste de levantar pedragulhos para encontrar bichinhos, ou, neste caso, um reino de Oz digitalizado por uma batuta sinfónica que passa de mão em mão entre os membros nucleares dos Efterklang. O resultado é envolvente, mas demorada e exigente a adaptação às condições atmosféricas. Trata-se afinal de um épico para o qual contribuíram os tais 34 músicos, e um sapo deste tamanho não é fácil de engolir.

Talvez por isso, não é assim tão improvável que as pernas do batráquio fiquem de fora. Algum excesso (e até mesmo pretensiosismo) e a ligeira sensação de déja-vu impedem-me de ser fervoroso em relação a Tripper. Contudo, estou ciente de que a cada 20 escutas ambos os registos arriscam-se a somar mais um ponto na minha escala (Tripper 7/10, Springer EP 6/10). Enquanto não se adivinham todos os segredos à relíquia, fica o prazer lúdico facultado pela trailer e respectiva versão sci-fi de um Lost in Translation filmado em Copenhaga com escala em Reykjavík. O limbo entre o sono e o acordar é um lugar estranho.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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