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Part Chimp
Chart Pimp
· 03 Dez 2004 · 08:00 ·
Part Chimp
Chart Pimp
2004
Monitor


Sítios oficiais:
- Part Chimp
- Monitor
Part Chimp
Chart Pimp
2004
Monitor


Sítios oficiais:
- Part Chimp
- Monitor
Talvez porque acelera a circulação sanguínea, submeter a pele a pequenos cortes de lâmina é pelo menos excitante. Demonstrações corporais como o bocejo, o riso e o urinar são altamente contagiosas - tal como o "fuzz", qual vírus a que só os imunes ao magnetismo do ruído escaparão ilesos. Os Part Chimp desparasitam os bichinhos fofos que seguem o trilho da melodia em fila indiana. A aberração - resultante do cruzamento entre o chimpanzé e o sanguessuga - tem como habitat ideal o palco abafado e uma alimentação baseada em "riffs" sujos e carcaças de um legado sónico recente.

Sedeados em Londres, os Part Chimp apresentam uma série credenciais a ter em conta: o vínculo às editoras Rock Action (propriedade dos "padrinhos" Mogwai) e Monitor ("power-house" indie localizada em Baltimore). Não esquecer a John Peel Session (vamos ter saudades...) a que tiveram direito e que normalmente actua como excelente presságio para qualquer banda.

O nome dos Part Chimp insere-se numa tradição de abençoados "noise junkies" que estão dispostos a morrer em palco se for necessário. A actual casta de sanguinários tanto deve à crueza psicótica de uns Jesus Lizard como à angústia de cave dos primeiros discos dos Sebadoh. Os picos sónicos de In utero, em que as palavras deixavam de ser perceptíveis, surtem agora um interessante efeito secundário: a livre exposição da emoção em carne-viva como forma pura de fazer música passa a estar instaurada. A voz mucívora canta as entranhas e o clímax deve sempre passar por um qualquer acto de flagelação (seja ele física ou sentimental). Um bilhete de elevado valor pode até dar acesso à parafernália audio-visual que serve de suporte ao espectáculo de uma diva, mas permanece sempre a sensação de que aquela foi só mais uma data a cumprir no calendário. Uma noite imersa em ruído e tonalidades rosa-carne é invariavelmente inesquecível (pelas melhores ou piores razões). Chart pimp é o convite que deixa essa promessa.

A voz de Tim Cedar é o alfinete que faz estoirar os balões em festa de aniversário de miúdo mimado, a restante substância que compõe a densa massa sonora assemelha-se àquilo que poderia resultar de uma jam-session entre Visigodos e membros da Al-Qaeda com um fraquinho por distorção. Abrace-se o terrorismo sónico dos Part Chimp como um magnífico "update" da estética Mudhoney coordenado por uma sensibilidade "arty" mais presente e distorcida. O azedume do verde seco contorce-se na desesperada tentativa de abocanhar o vermelho. Ruído a rodos que faz a cabeça rodar.

O ensurdecedor lamento da máquina-animal parece disposto a confessar tudo o que viveu entre quatro paredes de motéis baratos. A abrasiva descarga denuncia demasiadas dependências por parte dos seus emissores. O ruído branco é tóxico e pode muito bem causar dependência. Chart pimp é organicamente sincero pela forma como expõe as suas intenções aos ouvidos de quem o escuta. A etiqueta da indústria musical proíbe que os seus operários lancem um disco passível de ser o primeiro e último, mas custa-me a crer que os Part Chimp se preocupem em obedecer a regras e muito menos me parece que tenham reservado trunfos a serem jogados num futuro próximo. O jogo está na mesa e, caso o "mainstream" dê com isto, o êxtase proveniente de cada um dos ases de "fuzz" ("Exladyboy", "Iron Pond" - piscar de olho aos Bardo Pond -, o cartão de visita "Chimp happy" e "Cover me")seria suficiente para que a livre comercialização do disco se tornasse ilegal. O fruto proibido é sempre o mais apetecido, mas nem todo o estômago se dá bem com a acidez da cidra mais pura.

Ficamos com a ideia de que os Part Chimp se estão a cagar para os anjos. A convicção demonstrada é a mesma de quem não hesitaria em mijar para cima dos membros de um júri maldizente e absurdamente peremptório. Será longo e árdua a espera por novidades desta rapaziada. Tyler Durden teria adorado sabotar o progresso ao som de Chart Pimp.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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