DISCOS
Tom Waits
Real Gone
· 11 Out 2004 · 08:00 ·
Tom Waits
Real Gone
2004
Anti-


Sítios oficiais:
- Anti-
Tom Waits
Real Gone
2004
Anti-


Sítios oficiais:
- Anti-
Há festa na aldeia! Tom Waits regressa com o seu circo de figuras bizarras, crimes planeados e falhados e a sua visão deliciosamente enfeitiçada da realidade. O povo adora-o, pelo menos aquele que, longe de o compreender, o respeita e lhe bebe as palavras de um trago. Recentemente exibida na Cinemateca de Bergen, na Noruega, uma interessante retrospectiva do trabalho de David Lynch mostrava uma curta-metragem dos anos 70 que apresenta uma mulher sentada num sofá, ambas as pernas amputadas, a escrever uma carta e a narrá-la em off. A cena é de uma bizarria agonizante, sobretudo quando um médico entra e lhe começa a fazer os curativos, e o que resta dos membros inferiores da senhora começa a jorrar um líquido que não estanca. Tudo isto é repetido a seguir. Lynch e Waits, em diferentes mundos, é sabido, têm muito de um no outro. Quanto mais não seja por serem velhos artífices que andam nisto das artes há longos anos.

Mas há também um lado humorístico, bem menos negro, em Tom Waits. Ainda no ano passado, Café e Cigarros, um filme de relaxamento criativo na carreira de Jim Jarmusch, recuperava a cena que juntava Iggy Pop e Waits – uma tirada genial, uma conversa de loucos, com dois egos em confronto directo e uma jukebox que não passa as canções nem de um nem de outro. Nesse segmento, trazido de 1993 e intitulado Somewhere in California, Waits faz-se passar por médico para impressionar um dos xungas mais adorados da América. Mas é tudo muito circunstancial, essas migalhas residuais de prestações no cinema são ofuscadas pelos discos de Tom Waits, as contas oficiais já ultrapassam por um as duas dezenas, se contarmos em separado a edição simultânea de Alice e Blood Money, de há dois anos, e o score que compôs para Bunny.

Waits deixou-se de pianadas. Aquele que era, com a sua voz, um dos traços que mais apego à sua música provocava deixou de existir. E por isso o som tornou-se mais cru, mais primitivo, mais Waits com cafeína. Sem piano, Real Gone é uma incursão ainda mais profunda nos mais diversos e impressionantes registos de que a voz do músico é capaz. Diríamos que neste disco há mais espaço para a voz de Waits. Mas a voz de Waits sempre foi maior do que tudo o resto. O argumento não colhe adeptos, percebemos então. E depois afiançar que Tom Waits é um músico primitivo é não só perigoso, é sobretudo errado. É, antes de mais, cru mas com muito sal. Certo é que Waits nunca se perfilou como o Calígula que tudo quer e tudo perde. Não. Sempre ali houve um equilíbrio no momento de desfolhar as canções e libertá-las daquilo que estava a mais. Então agora, sem o piano, as canções são mais despidas? Também não. É que Waits aprendeu agora novas formas de trabalhar com a sua já poderosa voz de cachaça. Impressionante, mesmo.

Definitivo é que Waits deixou em aparentemente longo pousio o seu lado mais trovadoresco, e enfiou-se de cabeça e viva voz na esquizofrenia das suas letras, achaques moribundos de podridão, atalhados por uma lupa irónica, mordaz, às vezes cretina. É óptimo quando Waits é um cretino. Fica adorável nessa pele de lobo, agora que deitou às malvas a sua de cordeiro apaixonado. Há narrativas maradas de crimes na noite, claro, como em “Don’t Go into that Barn” e um repositório de pecados e contas a ajustar com Deus (é ouvir “Sins of my Father” para comprovar). A voz agora é um tambor mas é mais, é tudo ao mesmo tempo, é mais um instrumento, mas é a força de todos eles ao mesmo tempo, a voz é a maestrina deste tecido sonoro, que em certas passagens lembra funk suado.

Tomemos “Metropolitan Glide” como tese para chegarmos a uma síntese. Parece uma tentativa primária – sempre o mesmo adjectivo a sublinhar o estilo do senhor – de Waits rapar (pois, é mesmo isso), mas não. Parece só. E esta é a antítese. É que quase tudo em Waits é esperteza, uma leveza de espírito apesar da escuridão dos temas. Às vezes, vale apenas e só pela ironia, pela breve anotação nas entrelinhas. É assim “Metropolitan Glide”, quase a meio do disco e com um título que teria tudo a ver com a cena do hip-hop. Mas não. Conclusão: Waits é uma raposa matreira, tem tiradas geniais de ligeiro levantamento e esventramento de fronteiras, esta é só mais uma.

Em “Dead and Lovely”, volta para nós a voz de Waits, mais a descoberto, como se cantasse para nós, debaixo de um poste de iluminação – como um saxofonista numa noite muito escura – e estendesse o seu chapéu em jeito de pedir esmola. Mas é um memorial à pessoa amada. Mostremos mais respeito. Ah… e “Top of the Hill”, claro, a canção que abre o disco, as linhas de guitarra tortas, retorcidas, numa sangria de desarmonia, voz a puxar a um registo que não é habitualmente o seu. Pois, é Waits a deixar entrar outras influências na sua desmontagem das peças Lego, que devem ser as suas canções antes de ele se lançar a elas e estragar tudo, criando uma bonita confusão. Em “Circus” há ruído de cassete e lembra alguns dos contos mais assombrosos de Burroughs, e “Day after Tomorrow” é canção política a atacar Bush. E no final há tema-fantasma, essa criação tão em desuso no universo dos contadores de estórias.

Diríamos, em apontamento final, que Real Gone vai buscar a muito do que Waits fez no passado, faz uma visita a Swordfishtrombones, Rain Dogs e Bone Machine e outros, mas dá-lhe mais um toque singular, que no seu léxico significa qualquer coisa aproximada a rude, cavernoso ou Neandertal. Tom Waits é assim e esperamos que não mude, apenas siga em frente. E, se possível, se faça ajudar pela colaboradora e companheira de longa data, Kathleen Brennan. Uma relação faustosa, madura, cheia de frutos bons. Que sejam felizes para sempre. Nós sabemos que sim.
Hélder Gomes
hefgomes@gmail.com
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