DISCOS
Matmos
Rat Relocation Program
· 27 Set 2004 · 08:00 ·
Matmos
Rat Relocation Program
2004
Locust


Sítios oficiais:
- Matmos
- Locust
Matmos
Rat Relocation Program
2004
Locust


Sítios oficiais:
- Matmos
- Locust
Ah ah ah ah ah ah! O Joker soltou por aqui gás hilariante ou será que finalmente compreendi a razão de ser de Rat Relocation Program? Provavelmente ainda me estarei a rir da reportagem sobre a vida secreta do Jardel. Pois se o matador era infalível de cabeça, Andrew Daniel e Martin Schmidt (o duo que dá pelo nome de Matmos) estão cada vez pior da cabeça. Mantêm-se firmes como magos da arte de reciclar (o macaco Gervásio agradece), mas todos os que vieram aqui dar por mão de Björk bem podem dar meia volta e regressar a Medulla ou ao fabuloso DVD do concerto filmado no Royal Albert Hall, pois por aqui só mesmo o tóxico habita. Criar texturas sonoras a partir de uma gaiola ou de um baralho de cartas tem o seu charme, edificar uma torre de Babel infestada por ratazanas sob o pretexto do experimentalismo é capaz de não ser tão interessante, além de horripilante para os pêlos à superfície da área onde a coluna acaba.

O conceito passa por dar a escutar os ruídos habituais de uma ratazana através de duas formas distintas: no seu estado bruto e após o tratamento-Matmos. Os convertidos e os leitores da Wire têm gravada na memória recente a admiração por A Chance to Cut is a Chance to Cure - brilhante enquanto objecto singular e audaz -, mas quase quinze minutos de !!! [acrescentar a chiadeira que mais lhe convier] poderá levar muito boa alma à insanidade, ou a interromper a audição sem pensar duas vezes. Saliente-se pelo menos a ordem lógica das duas faixas, onde a primeira serve apenas de prova a ultrapassar por aqueles que procuram o categórico maná dos Matmos. Em todo o caso, é lamentável que o que aqui se encontra exposto não tenha metade do brilho de demonstrações passadas.

"A Coisa" (à imagem da criação de John Carpenter) tresanda a pretensiosismo a cada decibel. O metal que serve de gradeamento ao habitat da pobre criatura condensa a acidez dos ingredientes que vão sendo adicionados ao caldeirão: guinchos estridentes, magnos ambientes pseudo-taciturnos e frequências ensurdecedoras q.b.. Tudo isto leva a crer que haja um acordo secreto entre a dupla e os otorrinos espalhados por esse mundo. A certa altura a gaiola transforma-se numa pista de dança ao som de um standard funky intercalado com a tal chiadeira insuportável. A ironia de tal bizarria podia até deixar-nos com um sorriso nos lábios e ouvidos rendidos não fosse a certeza de que o duo compõe qualquer uma destas programações enquanto espera pelo pequeno-almoço no laboratório. Os traços típicos ("corte & costura" ou o drill n' bass) - que tanta devoção lhes tem garantido - permanecem intactos, mas dos Matmos espera-se apenas o superlativo do que se faz por aí em electrónica, daí que tal capricho de génio soe a meia-desilusão. "Meia" se atendermos ao facto de que Rat Relocation Program é o sexto tomo da série Met Life - montra de field recordings e revestimentos sonoros peculiares como este - e, por isso, serve um propósito específico.

É de louvar o destemido passo de gigante em direcção ao penhasco do mau gosto, assim como também há que reconhecer aos Matmos a capacidade de sempre encontrarem forma de desafiar a indiferença e o convencionalismo. A ironia deste "puzzle cerebral" prende-se ao facto de que os Matmos são de tal forma virtuosos e visionários que conseguiram descodificar o queixume da ratazana através da linguagem electrónica. Esqueci-me de achar graça... Além de que tal não justifica a existência de Rat Relocation Program - pronto a acumular pó nos cofres de coleccionadores e "completistas". Fará certamente as delícias dos fetichistas numa noite temática a acompanhar com passagens de Rat Catching: Studies in the Art of Rat Catching de Crispin H. Glover e visionamento do clássico de culto Willard. Jaz pronto a inebriar a libido dos que cultivam uma tara por roedores. Pronto jaz a representar um comprometedor turn off para todos os outros.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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