DISCOS
Nirvana
Bleach
· 18 Set 2004 · 08:00 ·
Nirvana
Bleach
1989
Sub Pop


Sítios oficiais:
- Sub Pop
Nirvana
Bleach
1989
Sub Pop


Sítios oficiais:
- Sub Pop
É complicado escrever sobre uma coisa que nos diz tanto. Não há distanciamento possível nem desejável em discos tão importantes como é este Bleach. Um desvio do campo do puramente passional seria uma traição difícil de perdoar. E a memória das traições pende sobre nós como uma faca afiada, pronta a desferir mais um pequeno golpe no nosso crânio. Agora, à distância de alguns anos – e todos nós envelhecemos um pouco desde que esta coisa foi editada –, recordamos os dias passados com o disco nas mãos, a vontade de fugir de casa, de trocar de pais, de matar os nossos amigos e familiares.

Como odiávamos as pessoas nessa altura! Um pedaço da juventude (por mais pequeno) perdido entre os restos de um império nunca reclamado, as ossadas de um sonho interrompido cedo demais. Sabemos que quem gosta de Nirvana pode estar de mal com a vida mas, no fundo, é boa pessoa. Não poderia ser de outra forma. O ódio que sentimos sempre que falam da "voz de uma geração" quando se referem a Kurt Cobain dava para encolerizar uma nação inteira. A desfaçatez com que se atrevem a destruir o nosso pequeno castelo de cartas, tão frágil e ao mesmo tempo tão poderoso no sentido em que nunca nos deixou indiferentes, é imperdoável.

Gravado nos finais de 1988 e inícios de 89, por um punhado de dólares, nos Reciprocal Studios de Seattle, com Jack Endino, Bleach é uma câmara de horrores e medos da adolescência e parte da juventude. Seattle já era então a cidade maldita que havia engolido Jimi Hendrix, também aos 27 anos. O disco tem Cobain na voz e guitarra, Krist Novoselic no baixo e a bateria repartida por Chad Channing e Dale Crover – antes de Dave Grohl saltar para dentro do colectivo. A sua edição foi precedida do lançamento de Love Buzz, numa versão do original dos Shocking Blue, um single limitado a mil cópias e que, por estes dias, é uma peça de colecção.

A abrir, “Blew” canta "here is another word that rhymes with shame" e tem aprisionamento escrito por toda a parte. Depois é percorrer o rosário de temas: o receio freudiano de castração (“Floyd the Barber”), uma relação comprometida pelo desemprego (“About a Girl”) e um encontro dominical marcado por uma guerra de sexos (“Swap Meet”). Sem se perceber bem como, do punho de Kurt Cobain saíam poemas a que muitos não hesitariam atribuir uma conotação sociológica. Há a história das crianças trancadas nos seus quartos e dos pais negligentes, os problemas de integração e aceitação social, os ataques ao machismo e à autoridade dos padres e professores. São verdades e dogmas seculares estilhaçados, o discurso de toda uma tradição mesquinha posto a nu e espezinhado. E há “Downer” com os versos "Sickening pessimist hypocrite master / Conservative communist apocalyptic bastard" carregados de mensagem política, apesar de ser Novoselic, o amigo da adolescência de Cobain, o mais politicamente activo da banda.

Kurt Cobain era tudo menos virtuoso, e sorrimos ao pensar na forma desajeitada com que tocava guitarra, mas era um tipo impecável. Com ele voltou a ser possível usar calças roçadas, cabelos desgrenhados, raramente lavados, e barba por fazer. E partir a guitarra no final dos concertos ou espetar a cabeça contra os amplificadores. Chamaram ao som "grunge", um rótulo que perdeu o sentido com a mediatização do fenómeno. E o fenómeno começou com uns rapazes de Aberdeen que decidiram formar uma banda porque é isso que se faz quando não se tem mais que fazer. Quando se passa parte da juventude a fazer merda, a provocar os autóctones com mensagens pró-homossexuais escritas com latas de spray nos carros, a migrar de casa para casa depois de um divórcio nunca compreendido. Bleach, originalmente editado pela Sub Pop, significa "lixívia", depois dele veio Nevermind e, a partir daí, foi o inferno.
Hélder Gomes
hefgomes@gmail.com
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