DISCOS
Mission of Burma
Onoffon
· 24 Ago 2004 · 08:00 ·
Mission of Burma
Onoffon
2004
Matador


Sítios oficiais:
- Mission of Burma
- Matador
Mission of Burma
Onoffon
2004
Matador


Sítios oficiais:
- Mission of Burma
- Matador
Pelo início do presente ano, a vinda dos Pixies ao nosso cantinho parecia utopia, e eles aí estiveram. Não há banda que se reúna sem ter de se submeter ao cepticismo de uma legião de puristas prontos a bradarem: "Vendidos! Já não é o que era..." Haja fé, amigos. Façamos de Boston a nossa Meca, pois é essa a cidade que serve de solo sagrado às duas bandas – Pixies e Mission of Burma – cujo regresso ao activo pode equivaler a um inesquecível ano de bem-vindas ressurreições, se ainda não o é. A "cantera" do pseudo-rock anda a precisar de uma lição de história, e, sozinhos, os Sonic Youth (também eles com novo disco em mãos) não dão conta do recado. Não estará reservado a cada banda o direito a renascer das cinzas para provar que ainda é capaz de cumprir o que se lhe pede? Fazer do velho sangue novo? Repararam na coça que o Yoda deu ao Conde Dooku no "Star Wars – Episódio II"? Pois, e tem 874 anos... Velhos são os trapos. Aí estão os Mission of Burma para gáudio de todos nós.

Certo dia, os Mission of Burma foram os Puntzel e Heizel - de porte maior - que marcaram a sua rota com migalhas extraídas a um recém-nascido indie rock, com dentinhos de leite, mas com garras (e atractivos vários) para resistir ao processo de selecção da indústria e salvaguardar o seu lugar. Onoffon pode ser interpretado como o celebrar de uma vitória sobre um meio hóstil como era o cenário musical da década de 80. Não é por isso de estranhar que o disco seja editado com significante pompa e circunstância por uma das discográficas que maiores dividendos arrecadou no pós-indie underground (pós-Nevermind, se preferirem): a grandiosa Matador Records.

Não há como negar a Vs. (único longa-duração editado até aqui) o estatuto de documento vanguardista cujo enorme valor permanece ainda parcialmente camuflado. Por sua vez, Onoffon massaja as mnemónicas de quem procura colmatar um vazio a preencher com enérgico indie da velha escola. "The enthusiast" deve servir e satisfazer os mais exigentes aficionados. Há também lugar para clássicos como "The setup" - reminiscente do igualmente memorável "Laugh the world away" no seu baixo vibrante. "Nicotine Bomb" é R.E.M. sem tirar nem pôr, e seria capaz de jurar que oiço a voz de Michael Stipe naquele refrão. Um mimo a ser entoado a uma só voz em romaria balnear.

O que mais impressiona neste novo registo dos Mission of Burma é a forma descomplexada e despretensiosa com que os seus autores parecem querer compor o melhor disco de rock do novo milénio; mesmo após vinte anos de interregno e conscientes de que, nos dias de hoje, são mais os lançamentos do género que os cogumelos. Rejuvenescidos por uma produção actualizada e ideias assimiladas ao pós-rock da última década, os Mission of Burma preservam intacta a vincada identidade que influenciou bandas como Dag Nasty ou Fugazi. As rugas só são visíveis em dois momentos nostálgicos: "What we really were" e o intimista "Prepared". Tudo o resto é brio e desmesurada vontade de suar as calorias acumuladas ao longo de vinte anos.

Superadas as expectativas, Onoffon prova ser muito mais que o mero resultado de uma fortuita reunião. É uma valente empreitada de abrasivo indie destilado a partir das estranhas de quem anda nisto por gosto. A confirmação de uma verdade escondida: foram os U2 a arrecadar os louros da década de 80, mas eram os Mission of Burma que tinham os tomates. Missão cumprida.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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