DISCOS
Beastie Boys
To the 5 boroughs
· 23 Jun 2004 · 08:00 ·
Beastie Boys
To the 5 boroughs
2004
Capitol


Sítios oficiais:
- Beastie Boys
- Capitol
Beastie Boys
To the 5 boroughs
2004
Capitol


Sítios oficiais:
- Beastie Boys
- Capitol
Toca o telefone nos escritórios da Grand Royal. A secretária asiática atende com as palavras "Hello nasty" (em nome da produtora Nasty Little Men), que viriam a ser imortalizadas no título do quinto disco dos Beastie Boys. Passaram-se seis anos e muito aconteceu desde aí. A Grand Royal faliu, os Estados Unidos elegeram um babuíno para Presidente, a paisagem nova-iorquina sofreu uma mudança irremediável e Michael Moore persiste em denunciar o que de errado se passa por terras do Tio Sam. Não está sozinho. Após muita especulação sobre a saúde das relações pessoais entre os três rapazes, aí estão eles com To the 5 boroughs. O título e o desenho estampado na capa não deixa margens para dúvidas: este é um disco conceptual em torno da "Big Apple". Canta-se a Nova Iorque que viu nascer o hip-hop (a costa Este criou, a costa Oeste decorou), a mensagem de Grand Master Flash, a batalha territorial entre os pioneiros do "graffiti", os Knicks de outras glórias (e do logótipo clássico, em vez do actual); enfim, a cidade que Spike Lee filma sob o prisma da tensão racial, e não a Disneylândia do medo e paranóia pós-11 de Setembro que pode levar gerações futuras a julgarem que Abel Ferrara era um mestre de ficção científica. Não adianta chorar mais sobre a poeira, importa sim abraçar To the 5 boroughs como um eficaz tónico para a cicatrizada alma Yankee. Afinal, o hip-hop desde sempre teve uma tremenda utilidade no contornar de adversidades e insuflar de astrais (e não de egos, como hoje acontece).

To the 5 boroughs cai em seco nas expectativas do fã comum (ou assim se passou comigo). Durante a primeira audição, os ouvidos, que partem em busca de ecletismo, vacilam atordoados perante uma sobredose de puro hip-hop sem equivalente na discografia dos Beastie Boys. O novo disco rege-se pelas regras do old-school, daí que, ao longo da digressão mundial que se avizinha, o colectivo tenha optado por actuar munido apenas de microfone e Mix Master Mike a assegurar os "beats" nos pratos. Agora que o sexismo e juízos imaturos foram totalmente eliminados do léxico Beastiano, sobra espaço para um duelo verbal inteligente e incisivo, elaborado a partir da inesgotável cornucópia de rimas. Percorre-se o disco por mais duas ou três ocasiões, e é pasmar perante a forma subtil como os "beats" e "loops" da fábrica Mix Master Mike se infiltram na memória. Somem-se-lhe mais uma mão cheia de audições acompanhadas pela leitura das letras, e não há como negar a brilhante forma como os três MCs articulam as múltiplas referências aos imaginários televisivo e gastronómico (não recomendável a anorécticas). A cimentar todo este conjunto de características, um enorme brio bairrista e suado afinco perceptível em cada um dos quinze capítulos deste apaixonado manifesto. Mas alguém acreditava que os Beastie Boys nos deixariam ficar mal?

Os judeus mais famosos entre os apreciadores de hip-hop fazem desfilar exemplares demonstrações de como explorar o género de forma lúdica e inovadora. Sucedem-se potenciais adições ao já volumoso conjunto de clássicos acumulados pelos Beastie. "Ch-check it out" é uma avalanche de referências e primeiro sinal de que este poderá ser o mais labiríntico dos álbuns do colectivo nova-iorquino. "Three the hard way" mune-se de um dos mais celebrados samples do hip-hop (resgatado à voz de LL Cool J) para produzir um bombástico refrão "in your face". "It takes time to build" lança mais alguns ataques directos ao governo de Bush. Sem papas na língua. Que ninguém duvide da auto-suficiência que permite aos Beastie Boys lançarem um disco tão politicamente incisivo sem temerem a nada. Mais um sample "vintage" nas mãos de Mix Master Mike e vibrante refrão à Run-DMC transformam "Triple trouble" numa notável prova de aluno da velha escola. A franca homenagem aos renegados do hip-hop faz-se sentir mais que nunca e visa invocar as raízes humildes e genuínas do movimento agora convertido ao aberrante molde MTV: luxo e mulheres. A electrizante maratona encontra a sua recta final em "An open letter no NYC" - quase comovente na forma como homenageia Nova Iorque no refrão "larger than life". Um hino que só podia ter sido escrito por quem testemunhou a tragédia na primeira pessoa. Não há uma só faixa que destoe do sólido conjunto. Só o tempo fará dissipar as dúvidas dos mais cépticos.

Sim, porque To the 5 boroughs é um daqueles discos que demoram a assimilar, mas, mesmo assim, arrisca-se a ser um marco na discografia dos Beastie Boys e responsável por uma vaga de revivalismo old-school. Um passo em frente. O disco que o momento reclamava. Eles voltaram a triunfar. Sobre as expectativas, sobre um pesado legado, sobre a armadilha em que um disco como este se poderia converter. Há pouco tempo comentava com Mr. Mute (do colectivo de DJs Il Cru Fantástico): "Só ontem comecei a cantar ao som do disco." Ao que ele me respondeu:"Eu também...".To the 5 boroughs uniu as facções nova-iorquinas sob o signo do hip-hop e uniu-nos também a nós que já não conseguimos passar sem ele e sem o que a "Big Apple" nos tem para oferecer.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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