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Weezer
Weezer (Blue Album) [Deluxe]
· 03 Mai 2004 · 08:00 ·
Weezer
Weezer (Blue Album) [Deluxe]
2004
Geffen


Sítios oficiais:
- Weezer
- Geffen
Weezer
Weezer (Blue Album) [Deluxe]
2004
Geffen


Sítios oficiais:
- Weezer
- Geffen
Decorria o ano de 1984, quando estreou Revenge of the Nerds. Fermentou a sua base de admiradores na obscuridade do circuito vídeo e hoje goza de um enorme culto entre os nostálgicos dessa década. Os nerds tinham razões para sorrir, visto terem triunfado sobre os jocks. A genuína cápsula temporal prolongou-se por três sequelas, que nunca alcançaram o impacto do original - dono e senhor da alma da saga. Dez anos mais tarde, são demasiados os paralelismos que podemos estabelecer entre Weezer (Blue Album) e o clássico de culto: o reconhecimento tardio, o factor surpresa que suscita estranheza; enfim, o plano secreto daqueles que optam pela penumbra ao padrão cool. Também Blue Album não foi superado pelos três registos seguintes (ainda que Pinkerton o ultrapasse na sua peculiaridade e conceito). Na ressaca do grunge, quando caíam no esquecimento as efemérides exploradas durante a febre do ouro, os Weezer surgem em cena com óculos de massa e cabelo curto (atentos ao conselho dos Pavement), em vez do traje tradicional da época - a camisa de flanela e calças esburacadas.
O destino estalou os dedos e proporcionou aos quatro membros a oportunidade de saborearem o sonho americano. Confeccionaram a influência omnipresente dos Pixies (quase parece cliché citá-los) num molde untado de refrões talhados para estádio à Kiss, que mereceram uma sentida homenagem em "In the Garage". O ingrediente secreto acabou por ser a forma como aliaram as melodias desavergonhadamente orelhudas aos riffs resultantes da duradoira exposição aos efeitos prejudiciais (ou não) do hair metal. Quando a maioria dos lançamentos remetiam para uma melancolia pouco credível (os Bush lançariam o seu debut em Dezembro desse ano), os Weezer atreveram-se a colorir o acinzentado cenário musical da altura. Nem que para isso tivessem de ressuscitar as harmonias de uns Beach Boys e a ingenuidade dos anos 60. Blue Album brindou a juventude com dez inesquecíveis hinos a serem entoados a caminho de um piquenique e não no ambiente tenso do mosh. Desta vez, eram os geeks a terem razões para sorrir. Nerds? Geeks? Só mesmo os americanos reconhecem as diferenças.

Reunidas as condições necessárias (timing perfeito e uma mão cheia de temas merecedores de figurar nos anais da música pop), foi pela abençoada mão de Ric Ocasek (The Cars) que Blue Album tomou a passadeira vermelha que o conduziu ao estatuto de clássico menor, contornando a banalidade e a maldição de serem para sempre uma one hit wonder (un exito maravilla, como dizem os espanhóis).
O álbum homónimo dos Weezer conta com muitos mais êxitos além de "Undone - The Sweater Song" ou "Buddy Holly" - singles responsáveis pela súbita ascensão, à qual se adivinhava a correspondente queda. Isso não aconteceu, e progressivamente o mundo vergou-se perante o apelo irresistível dos Weezer, sustentados pelos preciosos telediscos de Spike Jonze (o mago que os projectou na MTV) e um disco onde cada faixa tem auto-suficiência para ser single (a excepção é "Only in dreams", devido à sua longa duração). "My name is Jonas" é o grito de guerra nostálgico de quem ainda guarda os bonecos do He-Man e Skeleton para umas lutas quando ninguém está por perto. O embaraço está ultrapassado, o orgulho old-school torna-os imunes à chacota. Nos anos em que tudo em Portugal era radical, nada seria tão adequado aos auto-rádios como "Surf Wax América". Blue Album faz do ouvinte mais vulnerável um refém para, à sétima faixa, roubar parte da sua concentração. Poucos terão conseguido escapar a "Say it ain't so", absolutamente avassalador já que munido de um refrão e simultâneo riff capazes de mudar a preferência musical de uma geração (talvez esteja a exagerar...). Previnam-se os mais susceptíveis.

Que novidades nos traz esta edição comemorativa do décimo aniversário de Weezer (Blue Album)? Além do interessante livrete, um segundo CD intitulado Dusty Gems and Raw Nuggets que vale pelo seu peso documental e peca pela escassez de novidades propriamente ditas (seis das faixas aqui incluídas são variantes das incluídas no álbum). Em todo o caso, fãs e curiosos podem começar a esfregar as mãos pois aqui moram os lados b da ordem: "Mykel and Carli" - sentido in memoriam dedicado a duas fãs que perderam a vida num trágico acidente a caminho de um concerto da banda -, "Susanne" - David capaz de fazer frente aos Golias do álbum - e "My Evaline" - perfeita na sua harmonia e candura quebra-corações. "Jamie" e "No one else" merecem tratamento acústico e provam que Rivers & Companhia não se deixariam abater por um inesperado "apagão". "Jamie" também tem direito a versão eléctrica, quem sabe, por ser a marginal mais acarinhada entre fãs. O baú esconde também algumas das músicas pertencentes às míticas Kitchen Tapes que farão as delícias dos que procuram completar a caderneta Weezer. "Lullaby for Wayne" e "I Swear It's True" são as mais empoeiradas faixas incluídas nesta compilação de raridades e pouco mais que curiosidades. O grande ponto de interrogação é mesmo a mistura original de "Say it ain't so" que encerra o disco. Descubram as diferenças.

Weezer merece o carimbo "deluxe" por ser um flagrante exemplo de como um disco pode gerar um fenómeno capaz de conduzir as massas a uma porta traseira que apanhou a indústria de surpresa. Canónico para toda uma nova escola de college rock, há-de continuar a acariciar muitos ouvidos e a suscitar paixões pelas Universidades de todo o mundo. Uma década depois, ainda brilha como ouro sobre azul.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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