DISCOS
Filipe Felizardo
Volume IV - The Invading Past And Other Dissolutions
· 07 Jan 2016 · 01:40 ·
Filipe Felizardo
Volume IV - The Invading Past And Other Dissolutions
2015
four Records


Sítios oficiais:
- four Records
Filipe Felizardo
Volume IV - The Invading Past And Other Dissolutions
2015
four Records


Sítios oficiais:
- four Records
A violência tem um crescendo.
A violência pode assumir muitas formas - e a mais avassaladora não é, ao contrário do que se possa pensar, a violência física, seja ela subproduto da raiva ou da pobreza, esteja ela interligada a um grupo ou uma religião. Há uma violência invisível e brutal que se esconde na memória, uma bomba de fragmentação que rebenta ego afora, e que arruína a percepção do que somos, que parte a alma em mil bocados e que agiganta, como uma semente caótica, o lamento que existe pelo nosso passado, quer estejamos a tentar recuperá-lo ou a tentar esquecê-lo.

A memória é a mais bruta das violências. E não há senão memória em Volume IV, novo álbum - duplo - de Filipe Felizardo, encontro não-tão fortuito entre uma guitarra e um amplificador que evoca não só John Fahey como também os Les Rallizes Dénudés, estes bem perceptíveis na capa, estes de quem se escreveu: mais pesados que uma morte na família. Construções folk e ruído bruto, e está feito um álbum notável - e violento, tão violento quanto a invisibilidade. Embora o próprio tenha escrito que Volume IV foi criado durante "um dos mais maravilhosos períodos da sua vida", o som impede essa percepção.

Porque ao longo de quase hora e meia, a guitarra de Felizardo mostra-se em guerra aberta com a memória, os títulos dos temas invocando o carácter pessoal da obra: "Canção Para O Meu Pai", "A Conference Of Stones And Things Previous To You And Me", "Your Horrible Memory"... E se Volume IV merece ser ouvido, talvez a sua avaliação não possa passar pelos canais e trâmites habituais, pela simples razão de que nunca conseguiremos penetrar realmente neste limbo - já que não somos Felizardo nem sabemos o que terá a sua mente resvalado para os seus dedos. A única forma de escrevermos sobre Volume IV é usarmos e abusarmos da nossa própria violência; tomemos o disco como nosso e este dueto guitarra/amplificador como um instrumento para as nossas próprias memórias, para o passado que nos invade e que dissolve o retalho da nossa existência presente.

Ouvir Volume IV - The Invading Past And Other Dissolutions é, por isso, um acto de colonização; assumimos para nós, invadimos esta vibe que perpassa o disco e discorremos, palavra após palavra, sobre a dor que existiu e continua a existir. Ouvimos "Frog Princess Choir Pt. 2", uma slide guitar perdida no eco e uma América que nunca pisámos, e choramos os espectros que desapareceram ribanceira abaixo, numa noite de verão. "Canção Para O Meu Pai" é demasiado auto-explicativa; "Centrifugation At Casal Moinho" abala as fundações das nossas almas e fecha em décibeis o primeiro disco, com "Your Horrible Memory" a atirar-nos sem piedade para as margens do Aqueronte, onde nadaremos nus e miseráveis, mal se inicia o segundo.

E se "The Headache Of Eadweard Muybridge" injecta uma dança macabra naquele que era, até então, um disco contemplativo, o blues despedaçado de "Ain't Gonna Get Outta This Floor No More" (a melhor faixa do disco, jogo impressionante e imaculado entre som e silêncio) e os vinte solenes minutos de "Lament Of The Frog King" devolvem o disco à sua violência original: inexplicável, invisível, e tão pessoal quanto queiramos que seja - sendo que de outro modo será completamente impossível absorver Volume IV como este tem que ser absorvido. Mas como na violência também não existe senão humanidade, tenhamos este como o disco mais humano que ouviremos em muito tempo. Fazer um disco assim não está ao alcance de muitos.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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