DISCOS
Pega Monstro
Alfarroba
· 10 Nov 2015 · 11:33 ·
Pega Monstro
Alfarroba
2015
Upset! The Rhythm


Sítios oficiais:
- Pega Monstro
- Upset! The Rhythm
Pega Monstro
Alfarroba
2015
Upset! The Rhythm


Sítios oficiais:
- Pega Monstro
- Upset! The Rhythm
Obrigado por tudo.
Uma hora antes de ter começado a escrever este texto, recebi um e-mail de alguém a solicitar uma credencial para o concerto das Pega Monstro com o B Fachada, no Maus Hábitos - concerto esse com o qual, naturalmente, nada tenho a ver, nem eu nem o Bodyspace. Um pequeno engano, como uma chamada para um número que não o que queríamos, um equívoco facilmente solucionável - e foi - mas que dá azo a uma série de teorias, a principal sendo

- sabes que és o fanboy quando isso acontece

e com alguma razão - eu sou fanboy das Pega Monstro, admito-o, admitem-no todas as pessoas que me conhecem, desde a primeira vez que as vi ao vivo, o qual ainda me lembro como se tivesse acontecido ontem

- as Pega Monstro, um duo de riot grrrls que fazem canções a puxar a Wavves (embora, sendo miúdas, mais valha falar de Best Coast) com temas e letras tão hilariantes quanto eu vi um macaco ou ainda uma ode ao festival de Paredes de Coura. Nem o nervosismo admitido pela vocalista, nem a honestidade da mesma quando revela não saber ainda tocar bem as músicas nos demove: as canções delas pegam-se ao ouvido

escrevi eu inocentemente naquela noite de Março, 2011, após o concerto com os Glockenwise no Musicbox, numa altura em que ainda começavam a dar os primeiros passos. Passos em jeito de pulo, passos em volta, passos de quem quer o mundo mas que ao mesmo tempo e paradoxalmente se está a borrifar para o mundo - o género de passos que eu invejo não dar, nunca ter dado, não ter apostado em tê-los dado quando tinha idade para isso; hoje sou só um jovem adulto ou um adulto jovem (nunca consegui muito bem distinguir[-me] entre os dois), soterrado de trabalho, receoso do futuro - porque é desconhecido - e cujos melhores momentos da sua vida tiveram as Pega Monstro enquanto banda-sonora, como por exemplo

- mijei à porta do Ministério das Finanças

que era o título de um artigo na VICE que eu escrevi acerca de um concerto delas no Lounge, tendo, no caminho para casa, realmente mijado à porta do Ministério das Finanças - um acto que é tão infantilo-subversivo que me faz rir, que me deixa orgulhoso por não haver nada de que me orgulhe nisso, que é sem dúvida um dos melhores momentos da minha vida - e elas, as Pega Monstro, estão-lhe intimamente ligadas, porque se não tivessem dado esse concerto eu nunca o teria feito. Tantos concertos, tantos, desde que lançaram o primeiro EP até hoje, desde aquela festa Bodyspace na extinta Trem Azul

- a vergonha, meu Deus

comigo deprimido por causa de gajas, sendo importante salientar que

- as gajas do Porto são todas mais giras do que eu

sendo este o verso mais importante da história do rock português, o verso onde o fascínio começa, a mítica "Paredes De Coura", que se serve no volume máximo e de braços bem abertos em direcção ao infinito - e que ainda hoje bate com tanta força que nem sabemos para onde nos haveremos de virar. "Paredes De Coura" era o eixo central, e a partir daí descobre-se toda uma Cafetra: Éme, Kimo Ameba, Passos Em Volta, Go Suck A Fuck, 100 Leio, etc., etc., etc., discos grandes, discos belos, discos essenciais. "Paredes De Coura" era e é aquele sorriso lindo que se tem ao escutá-la, aquele choque que se sente devido à sua energia, embrulhada numa mortalha feita de algodão-doce. Era o mundo, e o mundo era nosso; do outro lado erguia-se já a barricada

- arranjem mas é alguém que vos dê umas caralhadas a sério para ver se param com esta parvoíce

lia-se num dos primeiros vídeos que foram parar ao Youtube, e este até nem era dos comentários mais insultuosos, eram tantos mas tantos que um tipo já perdeu o fio à meada da quantidade de vezes que ouviu não sabem tocar ou as letras são uma merda, de malta que só está bem se fizer com que alguém se sinta um pária por gostar de alguma coisa; mas o mundo era nosso. E o mundo era nosso porque éramos felizes e esta era a banda-sonora da nossa felicidade, as Pega Monstro eram aquela banda que, na adolescência, nós ouvimos e pensamos

- esta é a *minha* banda

e nada nem ninguém te tira essa merda, não há um único filho da puta que te possa dizer, olhos nos olhos, que a *tua* banda é uma merda porque os ouvidos se fazem moucos e o sorriso não desaparece naqueles minutos em que aquelas canções ecoam quarto fora e rua fora e faculdade fora - não há nenhum filho da puta, quero eu dizer, que te imponha a tua própria vida. E aquelas canções, aquela "Akon", aquela "Lisboa-Porto", aquela "Suggah", eram a tua vida.

Eram. Já se passaram três anos e não estás a ficar mais novo. Já se passaram três anos e o pedaço de mesa que o Rudolfo partiu continua na garagem, já se passaram três anos e o mundo mudou e as Pega Monstro mudaram com ele. Esta era a *tua* banda, a banda pela qual te apaixonaste no dia um e que, entretanto, se tornou a banda de muito mais gente - e isso é óptimo, isso é excelente, foi por essa aceitação e expansão que tu lutaste, tu escreveste, tu entrevistaste e reportaste estes anos todos. De certa forma continua a ser a *tua* banda, a banda de um determinado período da tua vida que tu recordas com todo o carinho e nostalgia. Mas já não te podes agarrar a ela. A barricada cedeu - houve um Günter Schabowski que anunciou que todos poderíamos passar para o lado de lá - e foi exactamente isso que a malta fez. E por Günter Schabowski leia-se Alfarroba.

Foi-se muita da sujidade porque uma pessoa cresce e ganha outras noções de higiene. A atitude, as canções, a maravilha, continuam todas por lá porque o que se sente em Alfarroba é uma evolução, facilmente comprovável ao vivo - tanto a Maria como a Júlia deram um passo de gigante, tecnicamente falando. Continuam lá porque de outra forma não seria Pega Monstro. Mas Alfarroba já não é só para mim. É para uma geração inteira, para um país inteiro que parece ter vontade de acordar, aos poucos, é para uma Europa e uma América onde shoegaze e dream pop não se escrevem a bold ou em itálico. Depois de anos a escrever que as Pega Monstro iriam conquistar o mundo, aqui está: Alfarroba, o mundo conquistado por duas irmãs

- branca(s) como tu

conforme o dizem em "Branca", mas também já disseram que houve um senhor, cabo-verdiano, que se aproximou delas a chorar após o concerto na Zona J, mostrando que este rock, esta pureza, é para todas as culturas e subculturas e raças e povos. O mesmo choro que eu tive quando ouvi, à medida que escrevia isto, a "Amêndoa Amarga" pela décima ou vigésima ou trigésima vez. Já nem sei. Mas poderia morrer feliz a ouvir essa canção, o corpo estendido, o rosto a fitar o céu. Porque a "Amêndoa Amarga" é um exemplo, em seis minutos, de tudo aquilo que eu amo nas Pega Monstro: uma bojarda fenomenal de ruído saído de uma guitarra, um verso delicioso de se colar à cabeça (cheiras a alfarroba...) e um galopar rítmico que soa à coisa mais urgente alguma vez feita, como se a terra fosse desaparecer antes que as Pega Monstro tivessem oportunidade de lá espetar a sua bandeira.

Não, esta banda já não é *minha* - é de e para todos, independentemente da sua faixa etária, independentemente de terem ouvido - ou gostado - do primeiro EP ou não, é dos críticos e dos casuais. Há uma certa mágoa que fica, claro que há. A evolução das Pega Monstro é um sinal de que há uma adolescência tardia que se perdeu para o tempo e que não volta mais. Mas mesmo essa mágoa é vista com um sorriso nos lábios, com um foi tão bonito, não foi? que se cola ao céu da boca e por lá fica até derreter como o rebuçado pop que é "És Tu, Já Sei". Um sorriso nos lábios porque foi bonito - mas a partir de agora sê-lo-à ainda mais, porque agora há mais gente que nos compreende, mais pessoas a fazer parte desta enorme comunidade, e mais malta que percebe que é possível gostar tanto de uma banda que a divisão que separa a "vida" da "arte" se despedaça em mil bocados.

Não, esta banda já não é *minha* - mas ao mesmo tempo será minha para sempre porque não há nenhum filho da puta que me possa apagar ou insultar as memórias.

Não, esta banda já não é *minha* - mas o Alfarroba é o disco do ano.

Assim como elas são a banda-sonora dos melhores momentos da minha vida.

Obrigado por tudo, manas.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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