DISCOS
Liars
They Were Wrong, So We Drowned
· 21 Mar 2004 · 08:00 ·
Liars
They Were Wrong, So We Drowned
2004
Mute


Sítios oficiais:
- Liars
- Mute
Liars
They Were Wrong, So We Drowned
2004
Mute


Sítios oficiais:
- Liars
- Mute
Em 2002, as calças de ganga, os crachás e as Converse eram ornamentos essenciais nas capas das publicações musicais. O rock, dizia-se, havia renascido, como se alguma vez tivesse morrido. O mercado da música faz-se de ciclos e o "novo rock" foi apenas mais um deles ou uma forma de vender discos e criar fenómenos. Porém, bons discos foram editados no meio do turbilhão de bandas com nomes começados por "The". Os Liars não tinham o "The" no nome e o seu disco de estreia, Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top, é um grande álbum e fará sentido ouvi-lo em qualquer ano, esteja o rock na moda ou não.

Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument on Top inspirava-se nos Gang of Four, mas havia ideias e um som que se distinguia do arquétipo punk-funk mastigado até à exaustão pelos Radio 4, por exemplo. O rock'n'roll era urgente - como devia ser sempre - e exigia a participação física do ouvinte: dança, air guitar, poses estranhas. "This Dust Makes that Mud", o tema não estruturado - baixo denso a envolver outras deambulações numa redoma sonora - que fechava o registo de estreia parecia adivinhar já uns Liars menos dados ao ritmo e mais propensos ao drone.
Os Liars de They Were Wrong, So We Drowned são outros Liars. Mentiram aos que esperavam um disco rock como fora o primeiro. A saída do baixista (força motriz do ritmado primeiro disco) pode explicar o súbito interesse dos Liars pela dissonância e pela repetição - a composição dos novos temas é simples e a complexidade encontra-se antes no "conceito" que lhes subjaze.

Para ajudar ao ambiente críptico do álbum, os Liars fizeram um disco que não sendo uma narrativa linear (o que seria muito pouco punk da parte deles), é perpassado por uma temática comum em que habitam bruxas, crianças, aranhas, florestas e montanhas, como num livro de histórias infantis que um maníaco tratou de transformar em filme de terror. Inspiraram-se no Walpurgisnacht, que se celebra a cada 30 de Abril na região montanhosa de Brocken, na Alemanha. Nesta noite, as bruxas voam até à montanha e fazem rituais que coincidem com a vitória da Primavera sobre o Inverno.

"Broken Witch", o primeiro tema, é manchado de feedback irritante, com súbitos ataques de bateria e guitarra indecifrável. Angus Andrew repete em tom arrastado "I no longer want to be a man / I want to be a horse / Men have small hearts / I need a tail / Give me a tail" e, possesso, "We are the army you see through the red haze of blood". A palavra "blood" é, no final do tema, repetido até à exaustão, e funciona como falso refrão de um tema desestruturado. "There's Always Room On The Broom" é festa dance-punk na floresta e consegue-nos arrancar a dança e "They Don't Want Your Corn They Want Your Kids" segue a mesma linha, mas com sintetizadores manhosos a dar o toque electro. "If You're a Wizard Then Why Do You Wear Glasses?" instiga o medo, com a bateria processada e gritos a irromper da cacofonia, enquanto Angus canta qualquer coisa não compreensível. Mais calma é "We Fenced Other Houses With the Bones of Our Own", uma espécie de dub profundo com um baixo grave e coros em delay a preparar o sono, interrompido pelo ataque em modo pára-arranca. "Hold Hands and It Will Happen Anyway", o tema mais próximo do primeiro disco, é uma cantilena negra sobre um tamborilar primitivo e a guitarra em caos sónico. No final, o tamborilar permanece - esteve sempre lá - e Andrew brinca com palavras simpáticas como "choke choke, the devil we evoke". O disco termina com "Flow My Tears The Spider Said", nova cantilena, mas desta vez para filme de terror com escuteiros cercados por monstros numa noite fria e um órgão spooky a repetir a melodia vocal.

They Were Wrong, So We Drowned é um disco que, se não agarra o ouvinte à primeira, deve ser ouvido novamente até que do caos dissonante e indistinto surjam, mais evidentes, o impulso e o ritmo endiabrado que eram mais explícitos no registo de estreia, mas que existem ainda, devidamente pervertidos, neste álbum. Desprezando as multidões sedentes de mais punk-funk, os Liars fazem um disco que, não sendo tão viciante como o primeiro, confirma-os como uma das bandas criativamente mais excitantes da actualidade.
Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com
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