DISCOS
Vashti Bunyan
Heartleap
· 27 Nov 2014 · 11:04 ·
Vashti Bunyan
Heartleap
2014
FatCat Records / Popstock


Sítios oficiais:
- FatCat Records
Vashti Bunyan
Heartleap
2014
FatCat Records / Popstock


Sítios oficiais:
- FatCat Records
Canto do cisne.
A história de vida de Vashti Bunyan parece saída de um verdadeiro conto de fadas. Encantou-se com a folk nos anos sessenta, através de Bob Dylan, contava ainda uns tenros dezoito anos; pouco tempo depois editaria o seu primeiro single, um tema escrito por Mick Jagger e Keith Richards ("Some Things Just Stick In Your Mind"); acabaria numa comuna com o seu namorado de então e o amigo Donovan, onde compôs aquele que viria a ser o seu primeiro disco, hoje objecto de verdadeiro culto e de muitos milhares gastos no eBay - Just Another Diamond Day, onde a sua voz soa ao mesmo cristal de que são feitos os sapatinhos da Cinderela. Desolada com a parca audiência que alcançou, abandonou a música durante trinta anos...

...e, na viragem do milénio, reencontrou finalmente o seu príncipe, na forma de Devendra Banhart, que foi o primeiro da nova vaga folk a contactá-la. Sucederam-se elogios e declarações de influência por parte de Joanna Newsom, Piano Magic ou Animal Collective; estes últimos fizeram um EP com Bunyan (Prospect Hummer, de 2005) e, indiscutivelmente, fixaram a sua presença na geração indie. O segundo álbum viria nesse mesmo ano, gerando boas palavras por parte da crítica e possibilitando a sua reaparição ao vivo. Lookaftering parecia um sonho; era a prova de que à música, hoje em dia, não importa a idade ou o tempo em que surge; era a primeira grande redescoberta arqueológica, à qual se sucederam Linda Perhacs (que editou igualmente um belíssimo disco este ano) ou até mesmo Lewis.

Finda a festa, findas as bodas com os seus príncipes, Vashti Bunyan pode finalmente adormecer feliz, sem ressentimentos ou arrependimentos. O seu primeiro disco não cansa de nos assombrar; o seu último, ainda que o não faça, surge como um óptimo canto do cisne de uma Cinderela que o merecia ser. Pois é: Heartleap será o último disco da cantora britânica, segundo a própria. É como se houvéramos reencontrado um familiar há muito perdido, que após cinco minutos de conversa se despede e ruma novamente ao desconhecido. Da minha parte, só me resta agradecer-lhe o concerto que deu no Lux, há uns anos, sem o qual eu muito provavelmente não estaria aqui a escrever estas linhas.

Mas passemos a Heartleap: está aqui a melodia terna, a voz docinha de Bunyan a pairar sobre as águas e as cordas na canção com que abre o disco, nome cristão ("Across The Water") para que pensemos que a Cinderela era, na realidade um anjo - e logo de seguida uma "Holy Smoke" para o comprovar, a respiração a bater no microfone, quando nos diz I sigh with every breath I'm breathing, numa canção que é um embalo maravilhoso. Heartleap não precisa de mais do que meia hora e uma mão cheia de belas canções para nos deixar embevecidos, como "Jellyfish" ou o piano em "Blue Shed". Curiosamente, não soa como um adeus; é um objecto próprio que pode ou não ficar estacionário, pode ou não desaparecer na aurora, nas folhas de outono, no sol de verão. Ainda bem: nunca lhe perdoaríamos se nos fizesse essa desfeita de ir embora dizendo "até nunca mais". Antes ficar com a saudade e a esperança que existe dentro dela.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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