DISCOS
Bohren & der Club of Gore
Piano Nights
· 11 Fev 2014 · 10:42 ·
Bohren & der Club of Gore
Piano Nights
2014
Ipecac Recordings


Sítios oficiais:
- Bohren & der Club of Gore
- Ipecac Recordings
Bohren & der Club of Gore
Piano Nights
2014
Ipecac Recordings


Sítios oficiais:
- Bohren & der Club of Gore
- Ipecac Recordings
E de repente sozinhos, na vida como na morte.
Preciso de palavras para cumprir um dia de trabalho. Não as conheço a todas – nem quero – e as palavras nem sempre estão onde deveriam (na ponta da língua), mas vou-lhes reconhecendo algumas idiossincrasias. A minha favorita é a que mostra que não existem duas palavras iguais em significado e em sentimento (saudade é o exemplo mais recorrente). Assumido o falhanço de não encontrar sinónimo, tenho na repetição o último recurso de expressão. Tem tudo a ver com a expressão e, pelo imediatismo, ainda não encontrei nada como a palavra. Mas há outros veículos de significado e sentimento e, porquanto todo o mundo tenha a sua saudade, a música ainda é o melhor.

Piano Nights, o novo dos Bohren & Der Club of Gore, é assim. É um veículo em trânsito, apinhado com tantos sentimentos que nenhuma palavra teria estrutura para aguentar. Ouve-se a primeira vez e daquela lentidão sofrida fica-se com a certeza que solidão é o sinónimo escrito deste disco, mas a verdade é que é muito mais o que aqui vai. Logo a abrir, “Im Raum” empurra-nos em torpor para um cenário esquecido, mal iluminado por uma meia luz e quase despido: apenas uma mesa e uma cadeira num vazio imenso. “Bei Rosarotem” faz surgir os teclados que, em lugar central e a par do saxofone, ajudam a erguer uma tensão etérea e inquieta.

É mais ou menos aqui que, naquele lugar com apenas uma mesa e uma cadeira, deslindamos também uma alma solitária a habitar em Piano Nights. Esta espécie de gente pode muito bem ser Morten Gass, deixado ali nas noites inquietas em que o piano surgiu como o lugar ideal para procurar diferentes expressões para o mesmo sentimento. Não está ali para a assombrar, mas apenas e somente para deambular. Esta ideia de caminho sem rota sente-se em “Irrwege” e arrasta-se, em acto-contínuo e ominosamente, por “Ganz leise kommt die Nacht” adentro. Uma espécie de aviso prontamente ignorado, posto ali para nos lembrar do perigo que é andar-se sozinho por estes lados.

“Segeln ohne Wind” (que significa qualquer coisa como navegar sem vento) encarna esse perigo pouco depois e espelha-nos. A mim, a ti, a eles e a todos nós: um conjunto de almas à deriva e que, mesmo na ausência de uma rota, se vai encontrar no mesmo fim. Mesmo que nada possa fazer quanto a isso, Piano Nights sugere outras expressões e palavras para este sentimento desolador que é a deriva. E sob a forma de um lânguido opiáceo, dá-nos tempo para aceitar a rendição e contemplar esta estranha antecâmara de espera que é a vida.
António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com
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