DISCOS
Scout Niblett
It's Up To Emma
· 13 Set 2013 · 20:43 ·
Scout Niblett
It's Up To Emma
2013
Drag City


Sítios oficiais:
- Scout Niblett
- Drag City
Scout Niblett
It's Up To Emma
2013
Drag City


Sítios oficiais:
- Scout Niblett
- Drag City
Tão cru quanto essencial: possivelmente o melhor disco de Scout Niblett até hoje.
Quando há pouco mais de vinte anos a granada grunge rebentou, lançando detritos na direcção de todos quantos estavam suficientemente perto para ser apanhados pelo choque, ninguém poderia ter imaginado que dos cérebros de um conjunto de hipsters desajeitados, fãs tanto do punk como do metal como do mestre Neil, surgiria o som que definiria toda uma nova geração e influenciaria inúmeros emuladores póstumos - póstumos, sim, porque como todas as gerações passadas, a do grunge não é hoje mais que um marco histórico na longa travessia do rock, as camisas de flanela estendidas ao lado das ancas de Elvis Presley, do LSD com sabor a sessentas e dos cabelos espetados de uma Londres circa 1977. O rock adoptava, então, uma postura, como se tal fosse possível, ainda mais adolescente que a dos seus predecessores: a jovialidade substituída pela apatia, Janie Jones escorraçada por Polly, o desejo de mudança relegado para segundo plano porque na realidade ninguém quer saber, o mundo é uma merda há milénios; teenage angst calcorreando as ruas e as guitarras como um cancro. Se André Breton havia escrito décadas antes que o mais simples acto surrealista consistia em sair à rua empunhando um revólver e disparando indiscriminadamente contra a multidão, uma horda de miúdos na década de 90 tê-lo-ia feito de bom grado - se estivesse para se chatear.

Scout Niblett descobriu Kurt Cobain e Courtney Love aos dezassete anos, as maiores influências musicais (por intermédio dos Nirvana e das Hole) de uma carreira que já leva doze anos e seis discos, sem que a norte-americana tenha alguma vez abandonado a premissa inicial de que "o mais simples é o mais autêntico", algo que de Sweet Heart Fever ao magnífico The Calcination Of Scout Niblett é mais do que óbvio; guitarra em serviços mínimos, bateria quando calha, os Shellac numa versão menstruada, e letras que poderiam vir, tal como há vinte anos em Seattle, do caderno ou bloco de notas de um qualquer puto aborrecido em pleno liceu. Esse é o argumento principal que torna Scout Niblett em algo tão importante: consegue falar a linguagem oficial da adolescência e dos velhos que sonham retornar à adolescência, já que a seguir aos baby boomers nenhuma geração terá falado mais alto do que a X. Ainda para mais quando acordamos desse sonho idílico no meio de uma crise que não despoletámos.

It's Up To Emma é todo ele escrito nessa língua, disco conceptual-sem-o-ser sobre uma relação amorosa que acabou mal. "Gun" não poderia abrir o álbum da melhor forma - e de repente voltamos à citação de Breton: I think I'm gonna buy me a gun / A nice little silver one / And in a crowd someday / You won't see it coming anyway, toda uma psicose contida em apenas quatro versos, porque o amor magoa as pessoas dispostas a nele cair (que, francamente, somos todos nós). Ao longo do disco somos confrontados com a demência imposta a Scout pela crueza do abandono: "Can't Fool Me Now" é enganadora ela própria, uma tentativa de compreensão do fim auxiliada por guitarra e cordas gerando tensão; "My Man" procura a mais ténue das esperanças envolta num nevoeiro de nostalgia; "Second Chance Dreams" vê-la voltar à carga ilusória de que acabará tudo bem. Não vai, claro, pelo menos até todo o alcatrão que a alma acumulou for despejado da boca para fora.
Até é possível que It's Up To Emma seja autobiográfico. Mas, tal como fazem os adolescentes, existe a tentação de nos apropriarmos dele e dizermos, letra por letra: este disco é sobre a minha vida! Estas canções são eu!. Porque o são, ou porque o foram, ou porque um dia haverão de o ser, já que ninguém escapa à claustrofobia inerente à rejeição. Porque à pergunta da última faixa - "What Can I Do?" - não existe uma resposta que se possa considerar universal. Em cerca de 45 minutos, Scout obriga-nos a enfrentar cara a cara, corpo a corpo, todos os fantasmas que pensávamos já não existirem, a repensar a solidão por via de cada um destes poemas cegos que o compõem. Cru e essencial, álbum para se ouvir repetidamente até esgotar o choro: não só é o melhor disco de Scout Niblett até à data como é um dos melhores discos do ano. Quem diria que algo que nos faz tão mal se pudesse ouvir tão bem.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
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