DISCOS
Prefuse 73
One Word Extinguisher
· 17 Out 2003 · 08:00 ·
Prefuse 73
One Word Extinguisher
2003
Warp Records


Sítios oficiais:
- Warp Records
Prefuse 73
One Word Extinguisher
2003
Warp Records


Sítios oficiais:
- Warp Records
Quando nos chegava às mãos o primeiro disco de Scott Herren enquanto Prefuse 73, sob o selo da Warp Records, corria o ano de 2001 e havia já uma apreciável quantidade de galos confortavelmente instalados nos poleiros da editora britânica. Autechre saboreando a boa receptividade a um abstracto e angular Confield, Plaid regozijando-se de um aclamado Double Figure e a transição entre a ressaca de um inigualável Music Has The Right To Children e a ânsia pela chegada anunciada de um Geogaddi, no sector Boards of Canada. Como se não bastasse, Funkstorung e Kid606, por exemplo, eram nomes que já corriam de boca em boca. Decididamente, IDM há muito deixara de ser “aquele” palavrão e estava fácil de ver que Vocal Studies & Uprock Narratives abeirava-se de um julgamento ingrato e potencialmente implacável.

Lançado às feras, Prefuse 73 revela-se um dos bons discípulos de Shadow, com a nuance de fugir aos poucos cânones respeitados – será? - pelo mestre para se vestir do fato aerospacial dos referidos irmãos mais velhos. Vocal Studies & Uprock Narratives consistia numa série de películas hip-hop sobrepostas a outras tantas electrónicas, posteriormente polvilhadas de samples de natureza orgânica. Por fim, a mescla era literalmente devastada por uma espécie de efeito-gillete e reconstruída na forma de um breakbeat mais quente e amigável do que aquilo que a lâmina pode sugerir.

Prefuse não faz segredo que One Word Extinguisher é fruto de um período de isolamento, de solidão e alheamento. Nada como uma relação afundada para, chorando baba e ranho, abraçar uma viola como irmã confidente – ou um laptop, pois Prefuse é geek e a desculpa é excelente.
Candeia que vai à frente ilumina duas vezes, e One Word Extinguisher começa com falsa partida – mas no bom sentido. “The End of Biters – International” é um choque em cadeia envolvendo tarola, pratos, um piano e um MC que, pelo queixume, fica bastante maltratado. Diverse, que molha o pincel em One Word Extinguisher juntamente com Mr. Lif, Tommy Guerrero, Daedalus e Dabrye, é a cobaia em “Plastic”, onde o experimentalismo concentra-se no instrumental, permitindo assim a Diverse ser verdadeiramente mensageiro – dando sinal a Prefuse para fugir ao ricochete entre os velhos detractores do slicing vocal e os cientistas do glitch.
No capítulo das colaborações encontra-se aquele que é, facilmente, o melhor pedaço de técnica ao serviço do prazer: “Busy Signal”, menos de três minutos em que Prefuse e Daedalus esticam para longe do horizonte e bem perto do infinito uma human beatbox - séria candidata a faixa mais viciante dos últimos tempos.

No meio de mais vozes entrecortadas e teclados pendentes, saltam à vista algumas vénias às batidas arrastadas e aos ambientes etéreos de uns Boards of Canada (“Perverted Undertone”), disfarçadas por um vai e vem de samples bem mais conotados com dimensões soul e funk. Neste aspecto, “One Word Extinguisher” – a faixa que dá o nome ao conjunto – é paradigmática do carácter compilador da música de Prefuse 73; unindo pólos entre géneros, processos e sensibilidades, faz nascer discos que agradarão tanto a um apreciador de música negra actualizado como a um amante da electrónica mais académica com sensibilidade para o estímulo físico do som, pois o vanguardismo, aqui, não coloca entraves à acessibilidade.

Para catapultar o álbum para níveis muito poucas vezes alcançados na região onde se movimenta, bastava evitar uma sensação pouco confortável de repetição de processos ao longo das vinte e três faixas. É frequente avançar de música para música e, três ou quatro faixas mais à frente, sentir que continuamos exactamente na mesma fase do percurso – fica a impressão que Prefuse se entusiasmou tanto ou mais do que nós quando acertou variáveis e obteve a sua fórmula.

Será Scott Herren aspirante a construtor de máquinas com emoções, ou de seres humanos robotizados? Por enquanto, comporta-se como um primo direito de Timbaland ou dos Neptunes, com a diferença de se trancar no quarto, frente ao computador, enquanto eles batem o couro às miúdas. E a quem alguém teve a lucidez de apelidar de “Atlanta’s number one structure fucker”.
Carlos Costa

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