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Ariel Pink`s Haunted Graffiti
Before Today
· 15 Jun 2010 · 10:54 ·
Ariel Pink`s Haunted Graffiti
Before Today
2010
4AD / Popstock


Sítios oficiais:
- Ariel Pink`s Haunted Graffiti
- 4AD
- Popstock
Ariel Pink`s Haunted Graffiti
Before Today
2010
4AD / Popstock


Sítios oficiais:
- Ariel Pink`s Haunted Graffiti
- 4AD
- Popstock
O Presidente (acidental) dos Estados Unidos do Trash demonstra como é possível elevar a fidelidade sem fazer um arranhão na essência e polivalência pop de marca.
Um pastor habituado a ver a palavra "sex" e grandes pilas em toda a parte de um filme Disney teria muito com que se entreter na música de Ariel Pink. Isto porque as canções do californiano funcionam muito mais através de símbolos (visões?) do que como suporte para uma mensagem concreta. Aliás, que mensagens sérias podem existir num universo tão absurdo e anacrónico como o de Ariel Pink? Sabemos, através dele, que a cultura é um gigantesco reciclável e que Los Angeles corresponde a um mal necessário, e pouco mais.

Mesmo assim, um pastor obcecado adoraria dissecar os encontros que Ariel Pink manteve com Jesus Cristo durante o sono (“Jesus Christ Came to me in a Dream”) assim como descobrir palavras ocultas nas vozes distorcidas espalhadas pelas centenas de canções existentes. O próprio Pato Donald profere coisas pouco claras na nova versão de “Beverly Kills” incluída em Before Today. Estaria provavelmente a tentar convencer-nos de algo que já devíamos saber: Ariel Pink é um brilhante satanista pop - vendeu a alma ao Diabo em troca da capacidade de reproduzir 666 vezes o single-maravilha. Tinha um fervoroso culto e agora tem o disco certo para obter um público.

Umas das muitas funções de Before Today passa precisamente por demonstrar como as canções de Ariel Pink podem funcionar entre a média e a alta fidelidade, um terreno inédito para o próprio. O som deixou de ser o das cassetes corroídas pelo mijo (que dominava os anti-clássicos The Doldrums ou Worn Copy) e agora ostenta as regalias de uma masterização adequada feita em estúdio. Atendendo a que grande parte dos temas seleccionados conheciam já versões lo-fi, mais ou menos distantes no tempo, é possível efectuar um teste Fairy e avaliar as diferenças entre o velho e o novo: "L'estat (Acc. to the Widow's Maid)” é finalmente tão glam e espacial como sonhava ser no meio da imundice original; “Little Wig” perdeu demência e ganhou eficiência rock. Mas ambas já estavam perfeitamente elaboradas na sua primeira forma. Bem mais fiéis ao passado de Ariel Pink’s Haunted Graffiti, “Fright Night (Nevermore)” e “Menopause Man” indicam que um pé da banda ficará sempre enterrado no lodo da fita e dos anos 80. Quem aprecia dançar na merda fica mais descansado.

É óbvio que existe alguma subversão (e inversão do jogo) em todo este novo apego pelo rigor técnico, quando a tendência indie dos últimos anos perseguiu vorazmente os mandamentos de Ariel Pink e o que por aí não faltou foram discos com muita parra de eco e saturação, e pouca uva de canção. Durante um retiro de três anos (2007-2009), este arquétipo lo-fi revelou-se demasiado aliciante para uma nova vaga de músicos D.I.Y. (despachados na circulação do CD-r) e isso levou a que Ariel Pink acabasse por apadrinhar um conjunto de réplicas, burlões e bluffers completos, que fizeram a sua festa durante a ausência do patrão. É uma verdadeira perda de tempo citar as categorias ridículas que se inventaram para as tentativas de copiar Ariel Pink. Alguns seguidores não chegaram a ser insultuosos (John Maus come-se), mas nenhum superou ou ficou sequer perto de igualar a fórmula do homem inimitável como a Coca-Cola.

Before Today é também o disco do desarrumado que voltou para arrumar a casa das canções esteticamente retidas num tempo tão vago como o próprio título e sempre anterior a 1990. E um disco que recusa assentar num só tempo é, claro está, predominantemente excitante e imprevisível, ao ponto de cada música perguntar à outra: Mas que raio de barco é este em que estamos todas metidas?! A resposta é fácil: um barco de usufruição acima da razão, patetice para quem sabe aproveitá-la, excentricidade enciclopédica, muita droga e um faro pop que só está mesmo ao alcance de Ariel Pink. Se os anteriores eram discos perdidos, então este é um verdadeiro achado.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
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