DISCOS
LCD Soundsystem
This Is Happening
· 18 Mai 2010 · 12:12 ·
LCD Soundsystem
This Is Happening
2010
DFA


Sítios oficiais:
- LCD Soundsystem
- DFA
LCD Soundsystem
This Is Happening
2010
DFA


Sítios oficiais:
- LCD Soundsystem
- DFA
Desta vez, o rei deixou a nudez em casa e vestiu de branco na mansão.
A ocasião não era para menos. Com o fim anunciado dos LCD Soundsystem, não se olhou a despesas e optou-se por seguir à letra as regras do desvario total: mansão em Los Angeles, roupas brancas (sempre!) e música, muita música. Foi rei Murphy quem decretou tal ordem de trabalhos, mantendo na mira o cume da caminhada que iniciou em 2002, pouco depois de ter co-fundado a editora DFA.

É assim, portanto, que ao fim de oito anos volvidos, assistimos não ao desfalecer de uma banda mas antes da sua apoteose. Depois do disco debutante, homónimo e duplo (!) lançado em 2005, já poucas dúvidas havia da capacidade que os LCD Soundsystem tinham de pôr gente a dançar, com carisma e bom gosto. Mas o fartote não ficava por ali e, três anos depois – a par de uma carreira repleta de viciantes remixes e compilações chorudas – eis que nos deparamos com Sound Of Silver. Desta vez num formato mais coeso, incluindo canções de sentidos tão opostos mas sobretudo marcantes como “New York I Love You” e “Time To Get Away”, o grupo liderado por rei Murphy já não tinha por onde não liderar o movimento dance-punk de influências disco, sem comparação nos dias que corriam (e correm, como veremos adiante).

This Is Happening. Este é um título, uma sugestão, uma premissa de imperatividade que não podia ser mais oportuno. Se “isto está a acontecer” é porque os LCD Soundsystem fizeram pela vida, empenhando-se ao máximo para sacar um disco que não fizesse a sua brilhante carreira esmorecer. Dito “isto”, não falharam.

“Dance Yrself Clean” é o mote de entrada para o último longa-duração da banda, uma ode a sintetizadores vintage carregadinhos de história, banhados pela voz de rei Murphy que grita a pulmões bem abertos para que não fiquemos parados. É uma faixa propositadamente desproporcional, apanhando-nos desprevenidos assim que o primeiro break de bateria dispara. Melhor início de fim de caminhada não poderia haver. Já “Drunk Girls”, óbvio single rock do disco, resulta no momento menos elaborado de This Is Happening: à primeira audição, chegámos a pôr a hipótese do descalabro e que a anterior maravilha de quase nove minutos não teria passado de um oásis – e o fabuloso remix da autoria dos Holy Ghost ajudava a chegar a essa conclusão. Mas como há vezes em que sabe realmente bem enganarmo-nos, “One Touch” eleva novamente a fasquia para patamares endeusados. Desta vez, uma batida bem dançável impõe-se lado a lado com um sintetizador em evolução que acaba por desembocar num maravilhoso riff e palavras bem sincopadas.

É inevitável não vermos algo de “All My Friends” em “I Can Change”, quinta faixa do alinhamento. Mesmo a sequência de acordes é semelhante; ainda assim, algumas ideias diferentes – que passam por certas dissonâncias e, novamente, sintetizadores elaborados à unha – fazem desta uma canção singular, momento de abraços e carícias múltiplas (embora tudo não passe de um lamento de rei Murphy a sabe deus quem).

Ironia. É esta a palavra que melhor descreve “You Wanted a Hit”, uma espécie de diálogo entre o narrador e quem o ouve. “You wanted a hit, but maybe we don’t do hits”. Pedimos perdão, sua iminência, mas não poderemos entrar em concordância. A vossa capacidade de produzir hits de três, quatro ou nove minutos é louvável. Perdoe-nos a insolência, mas tal sugestão não faz sentido nas nossas mentes. Fim de diálogo. Rei Murphy não levará a mal.
Já “Pow Pow Pow” apresenta-se com uma sonoridade menos elaborada e não podemos esconder que a métrica (inexistente) e respectiva pronunciação do dono do trono nos traz à memória “Once In a Lifetime”, momento alto da carreira dos Talking Heads. Sabemos que para muitos isto significará um imediato nascer de veia na testa, dada a heresia. Excluam os paus e verão.

Como tudo isto não passa de pura interpretação, parece-nos evidente que “Somebody’s Calling Me” e “Home” estão, embora musicalmente distintos, conceptualmente encadeados. Uma espécie de cansaço, desleixo, é patente na primeira. Até o sintetizador desafinado do refrão, ofuscando quase por completo a linha vocal, parece já ilustrar o lema da despedida.

E eis que, sem surpresas, “Home” põe um ponto final na história. Os saudosos “ahhh” que marcam toda a faixa deixam-nos em modo melancolia sem retorno. É o fim de uma linhagem, de pura música de sangue azul. Um caso de singular coesão e sucesso musicais. Pior era se por cá não tivessem passado. Mas assim, com três obras-primas na bagagem, os LCD Soundsystem não nos devem nada. Podíamos pedir mais discos? Sim, mas corríamos o risco de assistir à progressiva putrefacção de um conjunto de excelentes músicos liderados por outro excepcional. This Is Happening foi, sem sombra de dúvidas, a melhor de todas as aparições discográficas da banda. O momento é triste, bem o sabemos. Mas não é de luto. Por isso o rei optou por vestir de branco.
Simão Martins
simaopmartins@gmail.com
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