DISCOS
Goldfrapp
Black Cherry
· 24 Mar 2003 · 08:00 ·
Goldfrapp
Black Cherry
2003
Mute
Goldfrapp
Black Cherry
2003
Mute
No início era o cabaret, a melancolia e a sensualidade.

Foi precisamente deste modo que Alison Goldfrapp e Will Gregory – o núcleo duro dos Goldfrapp - se apresentaram ao mundo, em 2000, com «Felt Mountain», esse eterno e já clássico álbum que, em apenas nove temas, desenhava ambientes cinematográficos majestosos, esboçava paisagens idílicas quase surreais e vestia-se de negro para dar lugar ao cabaret, onde tinham lugar canções sobre a amargura dos dias ou valsas de tristes amantes, ladeados de fumo e de copos de whisky.

Hoje, três anos depois, é o tempo do glamour, do sexo e do estar bem com a vida. Pelo menos, é essa a mensagem que «Black Cherry», o novo tomo dos Goldfrapp, parece querer transparecer. Estamos na presença de um álbum choque, na medida em que ousa na forma como se revela ao ouvinte. É quase punk e transpira sexo e sensualidade por todos os poros.

Tomando em conta a descrição que reforça a ideia de ruptura, é provável que se instale a confusão e a surpresa na cabeça de indivíduos que esperavam dos Goldfrapp uma espécie de «Felt Mountain prt. 2». Deste modo, é pertinente dizer que «Black Cherry» constitui, certamente, uma ruptura significativa mas jamais de completa inversão ou de conversão. E isto, primeiro, porque 2/5 de «Black Cherry» são compostos por baladas musicalmente próximas do ambiente mais chilly-pop-out de «Felt Mountain» e, porque, segundo, os Goldfrapp já se tinham revelado amantes do synth-pop e das electrónicas, aquando da sua versão para «Physical» de Olivia Netwon-John. Além disso, «Felt Mountain» já evocava a electrónica (ouvir «Utopia») e é importante não esquecer que Will Gregory sempre esteve rodeado por máquinas e que Alison Goldfrapp já tinha colaborado, no passado, com gente como Add N To (X), Orbital e Tricky.

Neste sentido, a ruptura não poderá ser considerada totalmente como ruptura, mas como alternativa interior. É, deste modo, antes uma recuperação e uma amplificação de uma faceta mais escondida dos Goldfrapp, que serve de ponto de partida para uma renovação de um som.

Partindo deste pressuposto, e olhando para a capa do álbum (uma das piores dos últimos anos) e para as letras, facilmente chegamos à conclusão de que estamos perante um objecto provocante, despido e colorido. A voz sensual e agridoce de Alison Goldfrapp desvendada no álbum estreia mantém essas mesmas propriedades mas acrescenta-lhes sexo, cor, atrevimento e luxúria. Vai mais além, estende-se, estica-se e salta. Por outro lado, canta palavras mais quentes e ocas. As letras revelam uma certa despreocupação para com o conteúdo. O que conta aqui é, essencialmente, a forma como o som é emitido. E Alison, desta vez, quis ser simples e mostrar que encontra-se em perfeita harmonia com a natureza primaveril. Não é por acaso que palavras como «beach», «sun», «shine», «silver sea» percorrem «Black Cherry» de uma ponta à outra.

Deste lado – do garrido e da sensação – desvendam-se temas a puxar ao electroclash, resultantes da explosão autêntica de hormonas retro e kitsch em versão electrónica, como «Crystalline Green», «Train (um dos singles mais apetecíveis e sexys dos últimos anos), «Tiptoe», «Twist», «Strict Machine» (uma brilhante declaração de amor às máquinas) ou o derradeiro «Slippage» (minutos de sexo, dor e prazer explícitos). Expressões como «Fight Me, Try Me, Kiss Me Like You Like Me» (em «Twist») traduzem bem o espírito do album. Estamos perante um álbum com lábios bem carregados de rosa-choque. O pop pelas máquinas de Will Gregory e pela voz dos Goldfrapp nunca soou tão bem.

Do lado mais intimista e calmo do álbum, têm lugar momentos que cruzam o romantismo e as batidas downtempo já representados em «Felt Mountain» mas, desta vez, mais modestos e menos tocantes. Neste contexto, servem apenas para equilibrar o álbum e distanciá-lo, por momentos, de uma energia que poderia se vir a tornar maçadora se ocupasse a íntegra do álbum. Neste capítulo, «Black Cherry» e «Deep Honey» serão os momentos mais bem conseguidos. «Hairy Trees» e «Forever» correm calmas sem provocar estragos, mas também sem impressionar.

Assim sendo, enquanto que «Felt Mountain» é um álbum intemporal – de ontem, de hoje, de sempre, de inverno ou de verão - «Black Cherry», apesar de nunca ser mau, corre o risco de ser tratado enquanto álbum de estação ou de moda. Apesar de ser um óptimo álbum de ambientes up, não parece ser o típico álbum que perdure com a passagem do tempo, como sucede com «Felt Mountain». No entanto não haja dúvidas de que, enquanto lição sobre excentricidade, harmonia e paixão, «Black Cherry» é um álbum monstruoso, seguro de si. Neste sentido, ninguém parece poder abatê-lo. E só isso já lhe confere o prémio Álbum Provocante do Ano.
Tiago Carvalho
tcarvalho@esec.pt
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