DISCOS
Atlas Sound
Logos
· 15 Dez 2009 · 09:47 ·
Atlas Sound
Logos
2009
Kranky / 4AD


Sítios oficiais:
- Atlas Sound
- Kranky
- 4AD
Atlas Sound
Logos
2009
Kranky / 4AD


Sítios oficiais:
- Atlas Sound
- Kranky
- 4AD
Se Bradford Cox estava às portas da genialidade, OK, última hora, acabou de entrar.
Bradford Cox já tinha provado no segundo álbum dos Deerhunter Cryptograms que algo de genial ronda eternamente a cabeça daquele corpo pele e osso que Deus lhe deu. Brad até deve ser complexado consigo próprio mas ao invés de se esconder, revolta-se e faz gala dessa sua estranheza-espinheza, ao vivo e a cores, desde sempre em concertos e agora também com a capa de Logos que é ele próprio, com a cara tapada pela luz que tanto o esconde como ofusca que o ouve, mas de tronco nu de avassaladora e heroínica magreza mais numa de anti-Apolo do que egocêntrico narcisista. Mas a capa tem o seu sentido – o trinca-espinhas de Atlanta, Geórgia, tem realmente a luz na cabeça, e não é só dos holofotes, é a LUZ, ele viu a luz.

Tanto que os Deerhunter são, sem salvação, cada vez mais também um projecto a solo de Cox. Quem os viu ao vivo terá a mesma opinião, ele está muitos níveis acima do resto da banda, e com esse poder nem dá espaço aos outros, com aquele ar tão "estrela que nasceu para a música" que tem. Mas tem mesmo. E nessa situação que deve ser chata para os outros, os Deerhunter estão cada vez melhores e recomendam-se, e este disco, do verdadeiramente projecto a solo de Cox, é simplesmente um dos melhores discos do ano, outro enorme disco deste maluco sobredotado. Pop de contornos perfeitos, luz imensa que ofusca em cada canção entrando pelos ouvidos adentro como mel de abelhas hipnóticas sem perigo de ferrão. Começa com “The light that failed”, peça muito dentro da estética Atlas Sound do primeiro álbum, introvertida mas cuja timidez acaba em explosão de Deerhunterismo logo na segunda faixa, “An Orchid”, com aqueles riffs de progressão motorway à Pixies que nos arrepiam a espinha. Esta explosão dá o salto em relação ao primeiro disco. E não pára mais. Logo a seguir, intro à "No Pussyfooting" de Eno e Fripp e rebenta outra grande canção. Dois génios juntos, Cox e Lennox (Panda Bear) e “Walkabout”, uma enormíssima summer-song do tamanho de todos os verões de sempre. A bela “Criminals” cai a seguir, como poderia cair em qualquer grande LP ou EP dos Deerhunter, guitarras cristalizadas em Natais de branca neve ou branca somente.

“Attic lights” também poderia ser basic-Deerhunter no início mas lá para o meio e até ao fim torna-se numa pérola de emoção tão grande como “Perfect Day” de Lou Reed. Cox parece apaixonado e como quem ama acaba sempre por sofrer de amor, Cox que aqui diz "maximum pain, maximal effect", deve andar nesse limbo porque vai mais a fundo com “Shelia”, uma das melhores canções de amor dos últimos tempos, pop-soro da verdade, que gira à volta de “No one wants to die alone”, verdade verdadeira. E chegou a altura de surpreender quem ouve? Então, busca-se outra figura incontornável da história da música nos últimos 20 anos: Laeticia Sadier. Da junção sai “Quick Canal”, um tesouro de arranque krautrock que não desdenharia um espacinho na mágica discografia dos Stereolab, ainda para mais, com o assumido fã Cox a fazer os la-di-la-la como a falecida Mary Hansen fazia em nome da nossa felicidade. Aliás,“Quick Canal” demonstra por si só o génio deste músico: consegue superar qualquer música dos Stereolab pós-2000. É um hino tipo “Jenny Ondioline” revisitado, até porque se parte em dois momentos, sendo o segundo período Neu!-switched-on-shoegaze como nunca, Stereolabradford total. Em seguida, continuam as grandes canções de base rock que brincam às electrónicas, às valsas nervosas e às superações entre si. “My Halo”, “Kid Climax”, “Washington School” e “Logos”, qual delas a melhor. Muito obrigado Cox por este Logos e até logo.
Nuno Leal
nunleal@gmail.com

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