DISCOS
Lightning Bolt
Earthly Delights
· 13 Out 2009 · 00:33 ·
Lightning Bolt
Earthly Delights
2009
Load


Sítios oficiais:
- Lightning Bolt
- Load
Lightning Bolt
Earthly Delights
2009
Load


Sítios oficiais:
- Lightning Bolt
- Load
O rock clássico dos Lightning Bolt. Ou como se fosse.
Com Ride The Skies e Hypermagic Mountain perfeitamente instaladas no panteão das grandes obras rock deste ainda jovem século, poucos souberam o que fazer perante a instabilidade de Hypermagic Mountain. Entre o conformismo contra o qual seriam a alternativa mais vital, e uma experimentação equívoca, Hypermagic Mountain dividiu-se entre adeptos ferrenhos do duo de Rhode Island (“Mega Ghost” não deixava de ser uma óptima canção) e um desinteresse generalizado de diletantes a abusarem do discurso “Lightning Bolt? Isso é tão 2003.” Separadas as águas, Hypermagic Mountain é hoje e com o devido distanciamento temporal um disco desequilibrado e cansado, de pontas soltas e sem aquela chama feérica que fez dos seus predecessores objectos de culto por quem não teme o perigo. Porque o rock desde sempre foi perigoso. Isto, foi em 2005.

Num hiperactivo submundo norte americano, falar de 2005 soa a um passado demasiado distante, e se Hypermagic Mountain não teve a capacidade de reinventar a energia viral do passado, o esquecimento acaba por se justificar. Não choca.

Feitas as contas, esta pausa sabática pode então ser entendida como um tempo de reflexão, e entre os lançamentos mais subterrâneos de Black Pus (projecto a solo do baterista Brian Chippendale) o distanciamento parece ter servido ao duo para equacionar as suas decisões e respectivo reposicionamento essencial. Porque o tempo joga a favor de Earthly Delights. Desejando secretamente que o título seja, de algum modo, referente a esse híbrido confuso mascarado de sumo.

Curiosamente, este tempo permitiu à banda dar um passo atrás, até à década de 70 (e os finais de 60), para assim avançar. Amplificando as referências. Se, até agora, eram pouco identificáveis traços claros desta mesma, filtrados pelas memórias dos dourados anos 80 norte americanos, em Earthly Delights descortinam-se de forma mais peremptória. O legado da SST, o primitivismo noisy operado no Midwest, ou a fúria desbragada do Grindcore são ainda parte considerável do código genético da banda, mas, mais que tudo é hoje reconhecido aos Lightning Bolt uma identidade em si só. E se esta ligeira fixação com um passado um pouco mais distante poderá levar a uma ideia pré-concebida de mutação prog-rock, ainda estamos muito longe da visão pós-modernista dos Ruins.

Nada casual, esta comparação com o lendário combo nipónico, serve aqui apenas o propósito de existir em Earthly Delights um interesse maior de reverência ao legado deixado pelos Blue Cheer, pelo Hendrix de Electric Ladyland ou Blue Öyster Cult. Será, em suma, o disco mais progressivo dos Lightning Bolt, sem Magma, Yes ou qualquer aproveitamento dos devaneios virtuosísticos tão marcados nesta década. Acima de tudo, Earthly Delights é o disco psicadélico dos Lightning Bolt.

Recorrendo a um uso mais proeminente do eco e do wha wha (psicadelismo, certo?), Earthly Delights abre (como é habitual) sem concessões, com “Sound Guardians” em toda a força a deixar no cérebro a certeza de que a produção musculada tem aqui um papel predominante. Com os vértices baixo/bateria/voz devidamente fortalecidos num triângulo turbulento contextualizado. Por oposição à compartimentação de Hypermagic Mountain ou à maior rarefação de Ride the Skies.

“Nation of Boar” faz uso da repetição para o hipnotismo headbanger com direito a solo estratosférico. “Colossus” merece o título de power ballad da banda. Riff clássico de melancolia electrificada, é um colosso midtempo que cede à vertigem de um voo estelar apoplético. De encontro a prazeres menos terrenos. “The Sublime Freak” traz as infecciosas melodias quase-infantis que lhes são características (na linha de “13 Monsters” ou “Dracula Mountain”) enquanto “S.O.S.” invoca aos tons menores do black metal a fúria de uma tempestade de gelo. Single óbvio, “Funny Farm” articula na perfeição o groove impetuoso dos Pantera com a fritura de inspiração country dos Meat Puppets. Pense-se na devoção de Dimebag Darrell e Curt Kirkwood aos ZZ Top, e tudo poderá fazer sentido. Ou instala-se a confusão. Os anos 70, novamente.

Concluindo as experimentações intempestivas de Hypermagic Mountain, “Flooded Chamber” e “Rain on Lake I'm Swimming in” não se esgotam em pressupostos de estranheza para se confirmarem enquanto temas de pleno direito. Canções. O final com os mais 12 minutos de “Transmissionary” traz aquele lado épico do grand finale, nunca se deixando auto-destruir, mesmo quando incorre num monolítico acorde de baixo de cordas soltas. A repetição, novamente, levada a porto seguro, com passagem repentina pelas mais belas notas saídas das mãos de Brian Gibson.

Algures no indispensável Power of Salad & Milkshakes (muito provavelmente o documento visual mais importante desta década), Brian Chippendale fala dos Lightning Bolt como sendo ”a classic rock band” comparativamente ao intelectualismo de uns Black Dice, com Brian Gibson a ripostar um ”no, we're not”. Chippendale acede com um sorriso. ”We're not classic rock”. Pois não, mas vê-los a manusear essas convenções é parte da diversão. Earthly Delights é prova irrefutável disso mesmo.
Bruno Silva
celasdeathsquad@gmail.com
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