DISCOS
Matthew Shipp
Equilibrium
· 01 Mar 2003 · 08:00 ·
Matthew Shipp
Equilibrium
2003
Thirsty Ear


Sítios oficiais:
- Matthew Shipp
- Thirsty Ear
Matthew Shipp
Equilibrium
2003
Thirsty Ear


Sítios oficiais:
- Matthew Shipp
- Thirsty Ear
“Mais um disco da Blue Series?”, ouço dizer com um ar enfadonho... “Terrivelmente injusto”, é o que me salta imediatamente à cabeça quer para a série que prima pela consistência, inovação e provocação, quer para o excelente músico que é Shipp que se enquadra em todos os adjectivos dirigidos acima à “Blue Series”.

Com a colaboração de William Parker (baixo), Gerald Cleaver (bateria), Khan Jamal (vibrafone) e FMAL (programação), Shipp consegue uma síntese dos caminhos percorridos pelos anteriores álbuns, continuando a explorar a ligação do Jazz aos elementos electrónicos, as paisagens ambientais, o hip-hop e a “dance music”, sendo que neste álbum atinge a elasticidade perfeita entre estes domínios. Shipp mostra-se particularmente activo e não se deixa repousar sobre o já intenso brilho da sua obra continuando a espreitar novos rumos, empurrando limites sempre com um apurado sentido estético. Se me perguntarem se é fácil ouvir (entender) a sua Música teria que responder que não. Mas é sem dúvida um desafio aliciante, e para alem disso “Equilibrium” deverá ser o mais acessível trabalho de Shipp, pois são mais visíveis as tão apelativas ligações a universos mais conhecidos, como por exemplo o hip-hop. Logo, estão colocados todos os factores para aceitarem o desafio...

“Equilibrium” inicia-se com um ambiente soturno de um piano que como que busca um rumo entre os sons do vibrafone. “Vamp To Vibe” agarra-se, entranha-se na nossa cabeça, sendo de concepção simples: piano suave, música “flirtante” de Jamal numa clara alusão ao hip-hop, que convive pacificamente com o jazz, sendo permitido a cada um deles os seus segundos de fama...

Segue-se o ambiente nublado de “Nebula Theory”, que nos coloca numa igreja em que somos surpreendidos pelos salpicos de cor dados pelo intenso baixo de Parker. Parece-me evidente que a coexistência de tantas influências, de tantos estilos pessoais (alguns até bem afastados do jazz) poderia resultar em incoerência ou confusão. Se ainda duvidas houvessem, “Cohesion” prova o contrario na melhor faixa... perfeição! “World of Blue Glass” é um trabalho de construção, que vai adicionando sons e trabalha-os até uma beleza comovente. Agora é a altura de chorar.

Tal como na sua carreira Shipp não se mostra previsível e quebra o ambiente mais melancólico com “The Root” em que o downtempo toma lugar, num ritmo insistente e em que Cleaver se mostra um excelente baterista rock. “The Key” é misteriosa e encantadora com Parker a optar por caminhos muito “funky”.

Termina-se com “Nu Matrix” em que sons menores vão crescendo de dimensão, sem rigidez de ritmo em claro ambiente de reflexão. Um prenúncio para o futuro? É que ainda em 2003, vamos ter mais duas obras deste magnifico Shipp, que nos traz em “Equilibrium” uma mescla de piano sensual, vibrafone terno, um baixo poderoso, uma bateria irrepreensível que navegam entre “samples” escolhidos a dedo. É caso para dizer: “Só mais um disco da Blue Series?”...deviam vir aos pares, isso é que era...
Miguel Marques

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