DISCOS
Matmos
Supreme Balloon
· 18 Jul 2008 · 08:00 ·
Matmos
Supreme Balloon
2008
Matador / Popstock


Sítios oficiais:
- Matmos
- Matador
- Popstock
Matmos
Supreme Balloon
2008
Matador / Popstock


Sítios oficiais:
- Matmos
- Matador
- Popstock
Exercício de estilo ambiciosamente megalómano ou mais um delírio caprichosamente masturbatório? Os Matmos num céu de sintetizadores entre diamantes psicadélicos.
Em termos figurativos, a seriedade dos Matmos assemelha-se muito ao corpo daquele cavaleiro medieval que, em memorável momento do filme Monty Python e o Cálice Sagrado, auto-mutilava os seus membros com uma espada, até que sobrasse apenas o tronco e a cabeça (e uma vontade patética de andar à cabeçada). Assim sendo e para que ninguém estranhe os golpes que transformam os Matmos em pedaços, vale a pena relembrar que a dupla mantém uma obsessão algo lunática por objectos pontiagudos e cortantes, assim como pela variedade infinitiva que esses oferecem como matéria manipulável e pronta a ser subvertida: em 2003, o clássico A Chance to Cut is A Chance to Cure transformava em música praticamente dançável o tilintar dos bisturis captado ao submundo da cirurgia plástica, enquanto que (a sequela não-assumida) The Civil War empregava sons de baionetas (e outras armas) em contextos normalmente impensáveis.

Servem ambos os exemplos para explicar como a exploração de um conceito inédito é, no caso dos Matmos, o recurso que normalmente afia a espada que, por sua vez, decepa a rectidão, repetição e tédio como ramos indesejáveis do tronco que gere o processo - nem que seja para que Drew Daniel e M. C. Schmidt se possam divertir enquanto trabalham (envergando o traje típico do proletariado norte-americano). Preencher toda a micro-dimensão de um conceito tem sido, além disso, a forma mais natural e viável dos Matmos admitirem que amam assolapadamente o processo de investigação e as doses massivas de cultura e conhecimento absorvidas a isso. Optar por conceber um disco - Supreme Balloon - utilizando apenas e somente sintetizadores (de todo o tipo e feitio, fabricados em anos distantes entre si) acaba por ser a limitação de que necessitam os Matmos para se perderem, por ora, num só labirinto sem transgredir os limites de labirintos palmilhados noutras alturas. Os Matmos evitam assim a amálgama de conceitos para que seja maior a quantidade esforços concentrados na variedade de registos erguidos com a soma dos sintetizadores.

É precisamente por ser tão vividamente multi-colorida a digressão percorrida em Supreme Balloon que o último disco dos Matmos escapa ao segundo plano reservado aos discos curiosos, mas inevitavelmente estagnados na falta de empatia desenvolvida. Ao embarcar por um espírito aventureiro muito Willy Fog, o balão supremo desenvolve todo o tipo de trajectos mais ou menos megalómanos no psicadelismo semeado pelas paisagens que atravessa, mais ou menos plásticos no exotismo confeccionado em laboratório de puro gozo, mas predominantemente arrogantes na inflexibilidade que os prende a sintetizadores tão assumidamente retro (ou bolorentos) como alguns Korg, Moog e Roland que alguém associaria mais imediatamente a outros tempos em que o rock progressivo era rei (Crimson). Por ser tão imprevisível o sopro do vento Matmos que move o balão, convivem paredes-meias episódios pomposos de corte real como “Les Folies Francaises” (que muito deve a Wendy Carlos da banda-sonora de Laranja Mecânica) e o épico de vinte e quatro minutos (!!) que é a faixa-homónima, uma viagem absurdamente prolongada em forma declinação de todo os casos de non-sense que se conheçam a grandes momentos históricos, como a chegada de Colombo à América, desde que filmados com escassa verosimilhança e sem grande rigor. “Supreme Balloon” podia ser a peça central de uma banda-sonora gravada pelos Tangerine Dream para um filme de soft-porno gay protagonizado por Dustin Hoffman e Warren Beaty de turbante.

Os estranhos hábitos de Supreme Balloon não se ficam por aí. Até porque a fixação sobre o sintetizador, instrumento militantemente analógico colado ao passado e, ao mesmo tempo, denunciador dos apetites fetichistas dos criadores que o celebrizaram em obscurantismo, obriga a nomear a quantidade infinita de influências que se observam reflectidas neste céu berrante: seja o nome de Raymond Scott e a forma como estilhaçava os impossíveis com as práticas experimentais mais bizarras, a presença espiritual dos Yello, que bem podem ser os antepassados suíços dos Matmos, ou o futuro adivinhado por discos de dub carregados de sintetizadores como é o caso de Interstellar Reggae Drive dos Vulcans ou Double Seven do lendário inventor Lee “Scratch” Perry.

Supreme Balloon é, à sua maneira idiossincrática, uma espécie de Synth’s not Dead munido do slogan “Matmos in the Sky with Diamonds”. A forma mais exacta de descrevê-lo talvez seja referindo-o como o equivalente aeronáutico da banda-sonora vincadamente marinha criada por Mark Mothersbaugh (dos Devo) para The Life Aquatic, filmado pelo adorável realizador Wes Anderson. A verdade é que Supreme Balloon é um daqueles álbuns que podia vir até camuflado com o sempre reconhecível selo amarelo da Deutsche Grammophon (catálogo tradicionalmente especializado em música clássica e artwork asqueroso) e conseguir convencer uns quantos conhecedores de que não se tratava de uma paródia. Os elucidados contam sempre com a vantagem de saber como tropeçar em estilo em mais uma rasteira pregada pelos incuráveis Matmos.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

Parceiros