DISCOS
My Way My Love
A Holy Land Invader
· 14 Mai 2008 · 08:00 ·
My Way My Love
A Holy Land Invader
2008
Graveyard


Sítios oficiais:
- My Way My Love
- Graveyard
My Way My Love
A Holy Land Invader
2008
Graveyard


Sítios oficiais:
- My Way My Love
- Graveyard
Colosso híbrido, que oscila categoricamente entre o rock fm e o seu reflexo mais medonho, deixa a ideia de que os japoneses já tratam o fim do mundo por “tu”.
A menos que seja encomendado um estudo cientifico altamente específico, é impossível saber ao certo quais as diferenças entre a resistência do estômago do aficionado rock japonês e do seu homólogo ocidental. A Holy Land Invader não resolve por completo as dúvidas em relação a isso, mas indicia que o jovem japonês minimamente apto a aderir a novas linguagens musicais mantém provavelmente uma maior predisposição para aceitar que um disco possa ser divido entre um verso mais acessível e comercialmente digerível, e um outro impiedosamente violento tal como compulsivamente atómico. Sem que isso represente a generalização de alguma casmurrice ocidental, é notório que o Japão parte na frente na aceitação dos contrastes que demarcam das restantes uma bala de natureza tudo ou nada como é o caso de A Holy Land Invader, autêntica pedrada no charco em termos do que o novo rock japonês tem para oferecer que não esteja ainda demasiado internacionalizado (como os exemplares e quase consensuais Boris).

A surpresa só não é plena porque os My Way My Love haviam já demonstrado que “a sonorização profética de cenários apocalípticos prováveis” é parte integral do código genético que os forma. O colectivo nipónico só ainda não tinha revelado que essa vocação podia ser exercida num registo tão próximo de alguns moldes FM, porventura capazes de colocar os My Way My Love em listas preferenciais Last Fm também ocupadas por bandas como os Muse. A partir daí, é fascinante tentar perceber a que raio de dinâmicas é obrigada uma banda que vise conjugar, num equilíbrio yin-yang, a sedução plástica do rock que mais vende e o PH ácido do rock que mais repele.

A Holy Land Invader corre mesmo o risco de, em alguns países, poder merecer um sticker com o seguinte aviso legal: este disco inclui pachorrices comparáveis a “Hotel California” dos Eagles que instantaneamente se transformam em abismos sludge tal como cavados por uns Melvins caso esses fossem astronautas. A ideia é estapafúrdia, quem sabe até mesmo descabida, mas não há como desdenhar a capacidade aditiva (os MWML adoram citar jingles de refrigerantes) de um disco que várias vezes faz crer que é seguro pisar o conforto de um potencial hit single, para, escassos momentos depois, revelar que o mesmo desemboca num campo de minas sónicas ou num mural de sons analógicos rudes e alarmantes. A falácia épica montada pelos My Way My Love normalmente só se revela quando se esgota o bom feeling (vozes femininas sedosas, riffs morninhos) de determinadas faixas, cujo território fica, a partir daí, à mercê de um cilindrar rítmico que raramente deixa de pé qualquer vestígio de pop meiguinha.

À sua maneira mais paranóica e fatalista, A Holy Land Invader merece o “A” grande que condecorava Álbuns onde vale tudo e tudo vale, como era o caso do injustamente mal-amado Worlds Apart dos ...And You Will Know Us by the Trail of Dead ou o demasiado esquecido United By Fate de Rival Schools. No fundo, este é um disco de rock FM preparado para as ondas hertzianas dispersas pelo ar num mundo a 48 horas do seu fim.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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